terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Selim


            O cicloativista é, acima de tudo, um panaca.
            Rodolfo pensa na ideia que rende uma frase de efeito e traduz o que ele pensa. Mas o advogado não quer enunciar nem escrever. Ele está apaixonado por Ana, com quem passou a noite do último sábado. Ela é uma mulher que – de fato – para o trânsito. Ana é fotógrafa, participa de marchas e, mais que tudo, gosta de circular sobre duas rodas.
            O sonho do cicloativista é se tornar um quadrúpede.
            Rodolfo ri ao elaborar a frase que concebeu durante caminhada por uma ciclovia. O advogado se deu conta que, sobre uma bicicleta em movimento, uma pessoa parece buscar – com as mãos – o contato com alguma superfície. Isso equivale a dizer, raciocina Rodolfo, que a posição de um sujeito que pedala se assemelha a de um quadrúpede ou de um humano que fica de quatro.
            O cicloativista é e só pode ser um babaca.
            O advogado teme que Ana desconfie que ele considera os amigos dela, e ela também, babacas. Eles trocaram poucas palavras. A fotógrafa ativista não sabia da existência de Rodolfo até o início da noite do sábado mais recente. Se encontraram em um bar no qual é permitido que as pessoas consumam cerveja nas calçadas – em pé ou sentados – a céu aberto. É ponto de encontro de gente tatuada, homens de barba, bigode e regata, mulheres com saia, discurso pronto a respeito de mobilidade urbana, discussão em redes sociais e pet shop.
            Todo cicloativista é um egoísta.
            A rima de “cicloativista e egoísta” incomoda Rodolfo, mas ele se preocupa – de fato – com o próximo encontro com Ana. Eles conversaram, minimamente, mas o que aconteceu foi uma noite de prazer. Trocaram beijos, afagos, fluidos e os números de telefone. Ela ainda não escutou ele discursar sobre mobilidade urbana. Rodolfo acredita que o cicloativista é um equivocado por – em geral – se tratar de um sujeito que mora próximo aos locais onde precisa ir, trabalho, escola e bar, e ainda faz barulho reivindicando benefícios. Diferentemente de trabalhadores – costuma comentar o advogado – e pessoas que vivem em locais distantes de quase tudo e que de bicicleta não conseguem ir a quase nenhum lugar.
            Um cicloativista é, mais do que qualquer outra coisa, um fascista.
            Se Rodolfo verbalizar o que pensa quase o dia todo, todo dia, Ana não olha nem fala com ele. O advogado acredita na tese “cicloativista é fascista” por observar ciclistas repetindo comportamento de motoristas – principalmente desrespeito, e alguma violência – contra pedestres. Ele também vê cicloativistas circulando sobre calçadas e, nas ruas, bicicletas na contramão atrapalhando a fluência do trânsito, a provocar acidentes.
            O cicloativista é um equivocado.
            Rodolfo sabe que as suas ideias não vão ao encontro das de Ana e, devido a isso, a relação deles – que ainda não começou – pode não ter continuidade. Os olhos deles se cruzaram, os corpos, se encontraram. Por algumas horas. O advogado quer telefonar para a fotógrafa. Mas ela não vai atender. Neste momento, Ana desligou o celular. Ela tem um outro homem deitado em sua cama. É Fabrízio, um militantes de causas emergentes. Ele pedala. E diz desprezar o que define como “confraria dos tolos”, o sistema de produção do mundo contemporâneo — universo no qual Rodolfo, e o que Rodolfo representa, é uma peça — para Fabrízio, Ana e outros cicloativistas — descartável. 

Conto publicado na página 57 da revista Ideias, edição 135, janeiro de 2013, já em circulação na cidade de Curitiba e no litoral paranaense.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Coletivo Siete Flamenco

Foto de Sergio Caddah

Coletivo Siete Flamenco faz apresentação no Museu Guido Viaro
Formado por 6 bailarinas, 1 bailarino e 1 guitarrista, o grupo entra em cena dia 12 de dezembro (quarta-feira) a partir das 20 horas no projeto Flamenco no Museu
            O Coletivo Siete Flamenco apresenta o espetáculo Flamenco no Museu no dia 12 de dezembro (quarta-feira) no Museu Guido Viaro – a partir das 20 horas. Com duração de 90 minutos, o show terá 5 bailes flamencos. A entrada é franca.
            Formado por 6 bailarinas e 1 bailarino que estudam e praticam flamenco há mais de 10 anos em escolas e academias de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e junto a profissionais de flamenco do exterior, sobretudo da Espanha, o Siete Flamenco surgiu da necessidade, de seus integrantes, de aliar o conhecimento teórico e prático, sobretudo por meio de apresentações ao vivo. Andréia Costa, Ana Paula Bacchi, Fabiola Mann, Fernanda Gimenez, Gabriel Della Latta, Luciana Veiga e Priscila Frehse compõem o grupo, que também conta com a presença do guitarrista Alexandre Palma.
“O nosso objetivo é promover apresentações pelo menos uma vez por mês. Estudamos, nos aprimoramos, mas é ao vivo que o flamenco faz sentido. O nome ‘Coletivo’ traduz o que somos, uma reunião de pessoas com um histórico muito parecido, com ideias e anseios a compartilhar. Aqui todos têm voz, não há hierarquia, e buscamos o aprimoramento juntos, ou seja ‘coletivo’”, diz o grupo, por meio de sua assessoria de imprensa, completando que entrar em cena no Museu Guido Viaro é a realização de um sonho. “Agradecemos ao Guido Viaro, o neto do renomado pintor, que recebeu com entusiasmo a nossa proposta. Hoje, o Museu Guido Viaro é uma referência no que diz respeito à cultura, e apresentar um show lá é, será, magnífico”.
O flautista Marcelo Oliveira (da Orquestra Sinfônica do Paraná e do Jump Jazz), o guitarrista Fabiano Zanin e o cantor Junior Flamenco também participam da apresentação ao lado do Siete Flamenco.
Serviço: Flamenco no Museu.
Com Coletivo Siete Flamenco.
Museu Guido Viaro
R. XV de Novembro, 1.348 (esquina com a R. General Carneiro)
Centro
Curitiba – PR
Dia 12 de dezembro (quarta-feira), às 20 horas
Entrada franca
Mais informações: (41) 3018-6194.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Londrina

Em Londrina, na tarde de ontem, dia 29 de novembro, pouco antes do lançamento da revista Helena. Foto do Paulo Briguet.

Só no 603


         Walter abre os olhos, pula da cama. São três e vinte e sete. Ele pergunta por que essa mulher insiste em caminhar de salto alto? A esposa, Aline, espera alguns segundos e comenta, amor, não escutei nada.
         Escute, Aline. Escutou? Só ouço a sua voz, meu amor. Ei, Aline, preste atenção: a vizinha está batucando com os saltos, e acho que é provocação.
         Ele segue do quarto até a cozinha, pega o interfone, digita o número da portaria, diz oi, quem fala?, ah, tudo bom?, sim, aqui é o Walter, isso, isso mesmo, o do 603, é, quero fazer uma reclamação, não, não pode, agora, é que a vizinha, não, a do 703, é, isso, não, não, prefiro as morenas, não, é que ela não para de caminhar, isso, ela está fazendo barulho, o quê?, não, deve ser engano, tenho, certeza, claro que escutei, o quê?, você está brincando, o quê, ora, vá, vá trabalhar.
         Que foi, amor? Aline, o porteiro disse que a vizinha do 703 viajou. Eu não disse? O quê?, Aline, até você? Mas. Tive que xingar o sujeito. Walter, vem cá, esquece esse barulho. Esquecer?
         Vamos dormir, Walter. Eu levo a sério, Aline, é o meu direito de descansar. Eu sei, meu amor. Aquiles caminhou rumo à própria morte.
         O quê?
         É poesia, Aline, poesia. Mas a essa hora? E precisa marcar hora pra poesia? Vem cá, Walter. Por Agammêmnon, por Heitor, por Aquiles, vou à luta, contra tudo e, se for o caso, contra todos.
         Walter caminha pelo quarto enquanto Aline pede para ele deitar. Após citar Zeus, Ajax e outras personagens da mitologia grega durante trinta minutos, de um instante para outro, cede aos pedidos de Aline.
         Ei, escutou isso? O quê, amor? Essa voz. Qual? A que diz que eu sou um equivocado. Quem falou isso, Walter? Não sei. Você está passando bem, querido?
         Walter sai da cama.
         Ele segue, a correr, até a sala. Aline levanta e vai atrás do marido.
         Escuta, escuta, está ouvindo? O quê, meu amor? É o vizinho do 503. O quê? Ele ligou, escute, a furadeira. Furadeira? Não, acho que não é isso. O que está acontecendo? Já sei, ele está usando um martelo. Walter, eu não estou ouvindo nada. Nada? Meu amor, acho que você está cansado, muito cansado.
         E agora, Aline. Agora? É aquele sujeito do 602. O que ele fez? Está com alguma máquina ligada. Não ouço nenhum ruído, Walter.
         Já sei. Já sabe o quê, Walter? Você ainda não percebeu? Do que você está falando? Do fim do mundo. Fim do mundo? E o que mais poderia ser? Francamente, Walter, eu estava pensando que você está cansado, mas a situação é bem mais grave. É lógico que a situação é grave, Aline, estamos em dezembro de 2012. E o que que tem? O mundo acaba até o fim do mês.
         Ele tira a camiseta, a bermuda e a cueca. Aline olha, e começa a gritar. Ela vai até a cozinha, abre a porta, sai correndo pelo corredor vestindo camisola e desaparece na escada que dá acesso ao térreo. Walter está na sala, pelado, com desenhos no corpo feitos com caneta: várias bicicletas, imagens de selins, a frase sou cicloativista e liberal ativo, e um texto sobre as ruínas de Troia, na opinião dele, um espelho daquilo que dizem ser a sua, a nossa, a civilização do mundo contemporâneo.


Ficção publicada originalmente na revista Ideias, da Travessa dos Editores, dezembro de 2012.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Fabiano Zanin

Fabiola Mann

Fernanda Gimenez

Priscila Frehse

Andréia Costa

Ana Paula Bacchi

Marcelo Oliveira

Gabriel Della Latta

Alexandre Palma

Luciana Veiga

Flamenco no Museu

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Big bang



         Abro os olhos, meu corpo está na cama, o teto, ali em cima, e talvez o que eu sonhei tenha sido um sonho, apenas um sonho. Ontem não bebi, mas nos dias e noites anteriores, vinho misturado com cerveja fizeram eu perder a noção, agi sem controle e aqui estou.
         Ao acordar na quinta, ou foi na quarta? — ou ano passado?, pulei da cama e segui até o quarto onde fica o computador. Estava ligado e, em segundos, conferi o facebook. Não, eu não havia postado nada, nenhum comentário ofensivo, observações difamatórias nem calúnias em feitio de piada. Sentei na cadeira, suspirei.
         Semana passada, ou em agosto?, também acordei com a sensação de que eu havia feito alguma postagem que me traria problemas. Saí da cama e segui até o computador. Entrei no facebook e tinha mais de uma ofensa a um sujeito que considero pulha, outros comentários depreciativos a uma mulher com quem já tive alguma relação e mensagens agressivas direcionadas a pessoas e empresas.
         Até agora, nada. Ainda não sofri as consequências das palavras que soltei na internet, mas o que de fato me incomoda é um cheiro, do que será?, em minhas mãos. O que fiz?
         Deprimido eu não estava, talvez confuso, quem sabe, contrariado. Mais que tudo, com vontade de falar para uma repórter de televisão, ao vivo, que essas pessoas que seguem marchas, todos eles, ou a maioria, são uns ingênuos. Não. Otários. Isso mesmo, otários.
         Quase todos os que seguem marchas são otários por serem ingênuos e se deixarem enganar. Seja a da maconha, a das vadias, a da berinjela, a dos poetas sem poesia, a dos noiados a favor do contra, essas marchas têm a finalidade de promover um, dois, três, quatro sujeitos, os que as promovem e se autopromovem.
         Queria dizer na televisão, ao vivo, eu até gritaria, para esses ativistas pararem de marchar. Que cada um voltasse para a marcha dos invisíveis de todo dia, e só.
         Também gostaria de mandar um recado para os chatos que fizeram da bicicleta uma causa — evidentemente para a autopromoção. Deixem as bicicletas em paz. Bicicleta é uma bicicleta é uma bicicleta é apenas uma bicicleta. Vão ler, ouvir música, ler outra vez, fazer música, escrever, andar de pedalinho, ler de novo, raspem os bigodes, não façam nada, leiam, tomem banho, lavem suas roupas, troquem as calcinhas e parem de tentar fazer da bicicleta um tanque de guerra.
         Ainda não falei nada disso até agora. Mas fiz outra coisa. Será que fiz mesmo?
         De substâncias que podem sofrer processo de explosão liberando gás, pressão e calor em curto espaço de tempo não conheço nada. Já transei estalinho, e só. No que diz respeito à pólvora, o meu limite são os traques, esses de palito de madeira, estopim, parafina, enxofre e papel kraft.
         Mas era sonho, ou não?, e eu estava na Rua XV, quase na Boca Maldita. Um aparelho similar a um controle remoto nas mãos, aperto o botão e bum, bam, pum, pam, não lembro do som, nem se alguém morreu, se houve feridos — polícia, bombeiros, pessoas a seguir na direção do prédio que desabou. A setecentos metros, pouca gente na rua e pude estacionar a van em frente à última joalheria que permaneceu no centro, não carreguei tudo, nem foi necessário.
           Meu nome, agora, é Philip, os preços estão ótimos aqui na França e talvez eu faça uma visita a Curitiba, por que não?, se o sonho não terminar, mesmo com esse cheiro, de pólvora?, e a sensação de que, daqui a pouco, haverá outra explosão.

Ficção publicada na página 59 da edição de novembro de 2012 da revista Ideias, da Travessa dos Editores.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A queda da casa dos chatos

 
 
A revista Ideias, na edição de outubro de 2012, publicou em três páginas uma entrevista que concedi a Renan Machado. O bate-papo, que segue abaixo, é o primeiro a divulgar que, em novembro de 2012, lançarei o livro de contos Golegolegolegolegah! pela Travessa dos Editores.
Eis o conteúdo, que também pode ser lido na íntegra aqui.

Mais uma vez, Marcio Renato dos Santos adentra no boteco velho de guerra. Bem arejado, bem conservado, bem frequentado em grande parte por colegas jornalistas. Arejado até demais. Apercebe-se disso ao escolher uma mesa próxima à janela fronteiriça. Vento Sul que finda o inverno espalha guardanapos. Diria que o lugar fica na esquina da rua fulana com a ciclana, mas e como recordar os nomes? Basta dizer nas redondezas do Cemitério Municipal.

Ainda este ano, Dos Santos será lançado pela Travessa dos Editores. Dono de uma prosa inusitada que se reinventa, o escritor destaca-se no cenário literário nacional como uma das principais vozes ficcionais do País. Golegolegolegolegah! é o título do novo livro de Marcio que sai pela Travessa. Livro de contos: ousado: título ousado. Característica do desprendimento maternal das prosaicas escolas literárias. Xô para os chatos.

Marcio não senta como escritor, se existe uma pose assumida pela classe. Não pinta marra, tampouco acende um cigarro, pois há tempos largou o vício. Malditos estereótipos. Marcio é o Marcio, curitibano de 1974, escritor, jornalista, mestre em estudos literários e pai do Vitor, que aos quatro anos revela-se promessa musical pra lá de Dylan.

A estreia do escritor na ficção acontece em 2010 com Minda-Au, livro de contos lançado pela Editora Record. Nas sete histórias que compõem a obra, Dos Santos destrincha comportamentos e olhares sobre uma Curitiba pouco vista. Porém, isso é assunto para as próximas linhas.

A partir de 2011 inova. Após estrear, pela maior editora da América Latina, com um livro no “formato padrão”, com lombada e tudo, opta por discutir outras maneiras de fazer a ficção chegar às mãos do leitor. Primeiro, em meados de 2011, lança um livro-conto intitulado Você tem à disposição todas as cores mas pode escolher o azul, sobre idas e vindas a bordo dos ônibus da cidade. Em seguida, no início de 2012, é lançada a “fornada inicial” da Tulipas Negras Editora, projeto financiado por uma empresária portuguesa e coordenado editorialmente por Marcio Renato, idealizado com o lema: “Conto não vende? Ótimo. Só publicamos contos”. No dia 25 de fevereiro, quatro mil exemplares de livros-contos foram distribuídos gratuitamente durante a Quadra Cultural, evento cultural de Curitiba. Quatro autores, quatro contos, mil exemplares de cada um. Pantera, de Fábio Campana, Compressa, de Cristiano Castilho, Helena, de Renan Machado, e 934, do próprio Marcio Renato dos Santos.

Eis que o projeto foi um sucesso. Sucesso tamanho que pediu bis. Em junho, a Tulipas Negras lança a segunda fornada. No mesmo estilo. Adoração à virgem, de Luci Collin, Árvore e Cavalo, de Guido Viaro, O destino do poeta, de Izabel Campana, e Os relicários, de Andrey Michalzechen, mil exemplares de cada, foram distribuídos na noite do dia 26 em evento ocorrido no Museu Guido Viaro.
No mês de setembro, Dos Santos participou do lançamento em Curitiba do Livro Branco, editado pela Record, que reúne 19 contos de autores brasileiros baseados em canções do Beatles. Marcio colabora com Uma jornada particular, baseado na música “A day in the life”.

Quanto a Golegolegolegolegah!,em entrevista à Revista Ideias, Marcio revela pinceladas acerca do estilo dos contos, a sensação de ser publicado pela Travessa dos Editores e traça paralelos entre a sua ficção de agora com a que fazia na época de Minda-Au.

Ideias: Por que o nome do livro é Golegolegolegolegah!?
Marcio: A exemplo do título de meu livro de estreia, Minda-Au, publicado pela Record, Golegolegolegolegah! é um nome rosebudiano, enigmático. Antes de explicar o título, é necessário comentar o processo que tornou este livro realidade. Em outubro de 2011, o Fábio Campana me convidou para publicar um livro pela Travessa dos Editores. Como escrevo todos os dias, sem folga, e reescrevo tudo continuamente, sempre tenho material pronto para ser publicado, não hesitei. Respondi sim, ao Campana, e pedi uns dias para revisar os contos que compõem este livro. Golegolegolegolegah! reúne seis contos que escrevi e reescrevi durante 2010 e 2011. Os seis contos conversam entre si, a sequência que eles aparecem no livro não é por acaso. Digo mais. É possível ler Golegolegolegolegah! como uma novela ou um romance, apesar de que os textos são, acima de tudo, contos. O Marciel Conrado fez a arte, diagramou e fez todos os desenhos. Entre cada um dos contos, há imagens, que são fragmentos de um mesmo grande desenho que o Marciel produziu após ler os contos. Os desenhos sugerem um movimento que perpassa todo o livro. O primeiro conto tem como título Golegolegolegolegah!,e no último conto, a última palavra, a que fecha o livro, também é Golegolegolegolegah! Ou seja, é a serpente mordendo o rabo. Golegolegolegolegah! é um moto-contínuo. Além disso, dizem que conto não vende, não é mesmo? Então, nada melhor do que lançar um livro de contos com um título impronunciável. Tente dizer Golegolegolegolegah!. É extremamente ousado alguém publicar um livro com esse título. Com isso, quero dizer que o Fábio Campana é um editor extremamente ousado, arrojado e, por isso mesmo, muito inteligente.

Do que os contos de Golegolegolegolegah! tratam?
De maneira geral, sobre movimento. Nos seis contos, os personagens e a linguagem estão em movimento. No primeiro conto, o personagem está dentro de casa, mas quer sair. No segundo conto, o personagem caminha. No terceiro conto, o protagonista anda dentro do apartamento lembrando de trânsito passado. O quarto conto diz respeito a uma viagem internacional — inclusive, o personagem transita da vida para a morte. No quinto, o personagem é um andarilho. No último conto, o protagonista dirige um carro a 190 quilômetros por hora. Em Golegolegolegolegah!, tudo é trânsito, tudo se move.

Onde são ambientados os contos deste novo livro?
No primeiro livro, Minda-Au, de 2010, Curitiba aparecia, inclusive como personagem dos contos. Já em Golegolegolegolegah! as ambientações não são necessariamente em Curitiba. Mais que isso. Os cenários são cidades por onde passei, no Brasil e no exterior, e que, tempos depois, se fizeram matéria de memória para eu inventar esses contos nos quais sujeitos, linguagem e imaginário estão em movimento.

Em Minda-Au havia uma dicção peculiar. Isso se repete em Golegolegolegolegah!?
Não. Os contos de Minda-Au foram todos escritos antes de 2010. Já não consigo escrever da maneira como escrevia naquele contexto. Agora, e isso vale para os contos de Golegolegolegolegah!, estou produzindo textos mais extensos, sobretudo em comparação aos textos publicados em Minda-Au. Meu imaginário está mais livre, tudo está mais solto, solto as palavras, solto os personagens, solto inclusive o humor, em especial no último conto. Mas também há contenção, subentendidos e segredos nas entrelinhas. Já sou outro.

Com quem você dialoga em Golegolegolegolegah!?
Com tudo o que leio, a vida, as matérias do jornal, as placas de trânsito, os cardápios de restaurante, a bossa de quem vem e passa nas calçadas, mas, acima de tudo, com as obras literárias que leio todo dia continuamente desde os 16 anos. Leio todo dia, 10, 20, 30 livros ao mesmo tempo, de Enrique Vila-Matas a Hilda Hilst, de Sergio Pitol a Marcelo Mirisola, de Fábio Campana a Guillermo Cabrera Infante etc. Leio de tudo, o tempo todo. Ah, e tem também o eco das canções do Lamartine Babo, do Paulinho da Viola, do Caetano Veloso, dos Beatles, dos Stones, da banda Match, entre outros diálogos, em especial, com o cinema do Federico Fellini.

Por que publicar pela Travessa dos Editores?
Trabalhei na Travessa dos Editores entre 2003 a 2007. Cheguei lá pelas mãos do Jamil Snege. Um dia, o Jamil me deu uma carona em sua Ipanema que, reza a lenda, ele nunca lavou. Fomos até um escritório que, eu nem imaginava, era a sede da Travessa dos Editores. O Snege havia indicado meu nome ao Fábio Campana, que eu ainda não conhecia. Ao entrar na editora, fui avisado, pelo Campana, que eu estava contratado. Veja, que presente a vida me deu. O Jamil, mesmo doente, iria morrer em poucos meses, em maio de 2003, mesmo e apesar da doença, o câncer, me arrumou um emprego, e que emprego. Eu havia sido aprovado para fazer mestrado na UFPR, e o Campana permitiu que eu trabalhasse meio período recebendo o salário integral, o que permitiu que eu me dedicasse ao mundo acadêmico. Fiz o mestrado graças à Travessa, graças ao Fábio Campana. Simultaneamente, vi nascerem as revistas Etcetera e Ideias. Naquele período, também foram editadas dezenas de obras, sempre com o requinte gráfico, impecável, da Travessa dos Editores. Basta ver, no catálogo, os livros do Wilson Bueno, do Décio Pignatari, do próprio Campana, entre tantos. Em meio àquela efervescência, o Campana me convidou para publicar um livro, mas, apesar de eu escrever muito, e sempre, ainda não tinha um livro naquele contexto. Veja só, os meus livros, mesmo e apesar de eu ter apenas dois. Só faço livros conceituais. Não reúno contos, aleatoriamente, para imprimir. No meu caso, tem de ter conceito, uma ideia. Mas, voltando ao fato de porque publicar pela Travessa, é que somente agora eu tenho alguma maturidade. Amadureci muito desde Minda-Au. Estreei por uma editora carioca, a Record, mas sou curitibano e sentia falta disso, de ser publicado pela Travessa. Vale dizer que, desde junho do ano passado, escrevo um conto por mês que é publicado na revista Ideias, da Travessa. E, veja só, sou remunerado. Mas esses contos que publico na revista serão publicados em livro em um outro momento. Agora, no entanto, é tempo de Golegolegolegolegah!,que tem dois contos que já foram veiculados anteriormente e quatro inéditos. Como reescrevi tudo, tudo é inédito neste livro. E estou muito feliz por esta oportunidade, que muito me honra.

sábado, 6 de outubro de 2012

Jobs


Kunter era fundamental, decisivo, para o funcionamento das coisas, de tudo. Ele não frequentava a empresa, apenas os dados bancários, o número do telefone e a sua voz eram conhecidas por poucas pessoas, entre as quais, eu.

            Se era braçal, intelectual, virtual, não sei. Nem a Bia, amante de um dos diretores, ex-esposa do superintendente, que chegava ao escritório antes de todos com informações sobre a movimentação do grupo, nem ela conhecia as atividades do Kunter.

            O meu trabalho era telefonar, para ele, e perguntar se o trabalho, dele, estava pronto — e se o contato poderia pegar a encomenda no local combinado. Só isso. Bóris, um dos coordenadores de ação estratégica, sugeriu que não fosse feita nenhuma outra pergunta, e eu cumpria a ordem.

            No máximo cinco minutos. Trezentos segundos. Geralmente, menos. Esse era o tempo que durava o meu trabalho no mês. Porque o Kunter era monossilábico, respondia sim, sim. Ou sim, não. E também não, não. As conversas por telefone duravam, em média, um minuto, contando os segundos que eu esperava para ele atender e responder, minhas perguntas, com duas palavras.

            Se o Kunter respondia não, não, por não ter finalizado o serviço, e — portanto — o contato não poderia pegar o material, então eu tinha de telefonar outras vezes até ouvir sim, sim. Nesses diálogos por telefone também nos cumprimentávamos com oi e tchau.

            Fora isso, eu passava o resto do mês sem fazer mais nada.

            Nos primeiros dias, após realizar a tarefa, perguntei a um colega de sala, o Lanny, se eu poderia ajudá-lo em alguma atividade, mas ele disse que não.

            Passaram um, dois, três, mais meses, procurei o gerente de recursos humanos, o gestor de ações corporativas e o superintendente de proatividade, e me coloquei à disposição para realizar outras ações, mas todos disseram para eu me concentrar apenas na minha tarefa.

            Na sala onde eu passava oito horas, e nas outras, ao lado, nos andares superiores e nos inferiores, os colegas se movimentavam, alguns a suar, outros reunidos, com o cenho a franzir, e apenas eu com aquela missão, a única durante todo o mês, que se resolvia mais rápido do que beber um cafezinho na cantina.

            Decidi, então, discar números aleatórios para segurar o aparelho de telefone, inclusive simulei conversas, mesmo quando era para escutar mensagens dizendo que este número de telefone não existe. Também permaneci por minutos, às vezes horas, em frente ao computador a digitar textos que eu apagava ou imprimia, neste caso, para em seguida rasgar.

            A representação no escritório me esgotava e, ao chegar em casa, tomava banho, mastigava e engolia algo para dormir no sofá da sala com a televisão ligada — sonhava com o telefone, as ligações, o escritório, o senhor Kunter e não sabia quando estava dentro, ou fora, de um pesadelo.

Ficção publicada na revista Ideias, da Travessa dos Editores, edição de outubro de 2012, já nas bancas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sonzeira

O Matheus Duarte e o Rodrigo recriaram A day in the life, dos Beatles, que deflagrou o meu conto Uma jornada particular, que está n'O livro branco (Record). A imagem, registro do Daniel Snege, é do lançamento da coletânea, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação.

Hey Jude

O Henrique Rodrigues explica de que maneira, como transformou "Hey Jude", dos Beatles, em um surpreendente e emocionante conto, presente n'O livro branco (Record), durante o lançamento da coletânea na Livrarias Curitiba do Estação, dia 20 de setembro. A foto é do Daniel Snege.

Flagra

O Daniel Snege flagra o momento em que autografo um exemplar d'O livro branco (Record) para o Simon Taylor, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação.

Quase 200

Mais de 200 pessoas foram conferir o lançamento d'O livro branco (Record), dia 20 de setembro de 2012, na Livrarias Curitiba do Estação. O Henrique Rodrigues, organizador da antologia e autor, e eu, que participo com 1 conto no livro, autografamos quase 200 livros. A foto é do Daniel Snege.

Click do Daniel Snege

Ao lado do Henrique Rodrigues, na noite de 20 de setembro de 2012, na Livrarias Curitiba do Estação, durante o lançamento d'O livro branco (Record). Foto do Daniel Snege.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um autógrafo

Autografo um exemplar d'O livro branco (Record), no lançamento, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto de Rogério Hoepers/Livrarias Curitiba.

Match e Rodrigo

A banda Match, Matheus Duarte e Rodrigo, a tocar "A day in the life", canção dos Beatles que deflagrou meu conto "Uma jornada particular". Dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação, no lançamento d'O livro branco (Record). Foto de Rogério Hoespers/Livrarias Curitiba.

Eu e o Henrique

Eu e o Henrique Rodrigues no lançamento d'O livro branco (Record), dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. A coletânea reúne contos de 19 autores que recriaram canções dos Beatles, entre os quais André Sant'Anna. Crédito da imagem: Rogério Hoepers/Livrarias Curitiba.

Atentos

Público atento enquanto eu explicava como transformei "A day in the life", dos Beatles, no conto "Uma jornada particular", que está no Livro branco, da Record. Clique de Rogério Hoepers/Livrarias Curitiba. Data do clique: 20 de setembro. Local do clique: Livrarias Curitiba do Estação.

Público

Mais de 200 pessoas acompanharam o lançamento d'O livro branco, da Record, na Livrarias Livrarias Curitiba do Estação, no dia 20 de setembro de 2012. Henrique Rodrigues e eu conversamos sobre o processo de recriar canções dos Beatles em contos. Crédito de imagem: Livrarias Curitiba.

Matheus e Vitor

Matheus Duarte e meu filho Vitor no lançamento d'O livro branco, da Record, na Livrarias Curitiba do Estação. Dia 20 de setembro de 2012. Crédito de imagem: Livrarias Curitiba.

sábado, 22 de setembro de 2012

Diogo e Osny

Autografo para Diogo Cavazotti. Henrique Rodrigues autografa para Osny Tavares. No lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

Autógrafos

Autógrafos n’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

Diogo, Osny, Simon e Daniel

O Diogo Cavazotti, o Osny Tavares e o Simon Taylor na fila. O Daniel Snege fotografa. Eu e o Henrique Rodrigues autografamos (dezenas de exemplares) d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

Com o Simon Taylor

Com o Simon Taylor, baixista com quem toquei na banda Blecaute (na década de 1990), desenhista e beatlemaníaco, no lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

Com Osny Tavares e João Alécio

Osny Tavares, eu, João Alécio e Henrique Rodrigues no lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

Com a OTV

Antes de conceder entrevista para a OTV, no lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

Autógrafo

No lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação, autografei dezenas de exemplares, a exemplo do que mostra a foto do Guilherme Luiz dos Santos. Participo da coletânea com “Uma jornada particular”, conto que surgiu a partir de “A day in the life”.

We can work it out

A banda Match, do Matheus Duarte, toca We can work it out, dos Beatles, no lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Meu filho Vitor, de camiseta vermelha dos Beatles e 3 anos quase a fazer 4, também entra no palco. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

No Estação

A banda Match, do Matheus Duarte, no lançamento d’O Livro Branco, da Record, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Meu filho Vitor também entrou no palco. Foto do Guilherme Luiz dos Santos.

E-Paraná

Contei para a equipe da E-Paraná sobre o processo de criação de "Uma jornada particular", conto que surgiu da canção "A day in the life", durante o lançamento de O livro branco (Record), na Livrarias Curitiba do Estação. O clique é do Guilherme Luiz dos Santos.

Match e Vitor

A banda do Matheus Duarte, com a participação de meu filho Vitor (quase 4 anos e camiseta vermelha), a tocar "A day in the life" no lançamento d'O livro branco (Record) na Livrarias Curitiba do Estação. Click do Guilherme Luiz dos Santos.

Vitor no palco

A banda Match fez show durante o lançamento de O livro branco (Record) na Livrarias Curitiba do Estação, no dia 20 de setembro de 2012. Meu filho Vitor, de 3 anos, também estava no palco, na foto do meu irmão Guilherme.

Clique de Guilherme Luiz dos Santos

Falei sobre como fiz um conto, "Uma jornada particular", a partir de uma canção dos Beatles "A day in the life", em entrevista para a OTV. Clique do Guilherme Luiz dos Santos durante o lançamento de O Livro Branco (Record) na Livrarias Curitiba do Estação.

Entrevista para a OTV

Durante entrevista para OTV no lançamento de O livro branco (Record), na Livrarias Curitiba do Estação, dia 20 de setembro. Clique do Guilherme Luiz dos Santos.

No lançamento de O Livro Branco, da Record, em Curitiba

Ao lado do Henrique Rodrigues, no lançamento de O livro branco (Record), na Livrarias Curitiba do Estação. O clique é do Guilherme Luiz dos Santos.

Dia 20 de setembro de 2012

Durante o lançamento de O livro branco (Record), na Livrarias Curitiba do Estação. Clique de Guilherme Luiz dos Santos.