terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Guevarinha



– O que vocês fizeram por Curitiba?

Guevarinha grita e anda de um lado para o outro na sala do apartamento da sogra.

– O que vocês fizeram por Curitiba, hein?

O militante do Partido da Revolução bate com a mão esquerda, fechada, e quebra o vidro de uma janela.

Joana D’Arc, naquele momento companheira de Guevarinha, escuta o choro do filho de menos de um ano, Trotski, e segue até o quarto.

– Me digam, as duas, o que vocês fizeram por Curitiba?

Guevarinha, por hora, não trabalha. Espera a anunciada nomeação em um equipamento dirigido por algum integrante do Partido da Revolução. Participa de greves, distribui panfletos apócrifos, pinta em muros mensagens contra o Partido do Possível e segue na Marcha dos Vadios. Frequenta bares onde sujeitos que usam o mesmo uniforme, barba, roupa não lavada nem passada, banho adiado, calça jeans, mochila e All Star consomem alguns produtos – cerveja, bolinho de carne e rolmops – que, na opinião dele, lamentavelmente precisam ser trocados por dinheiro.

Joana D’Arc está no corredor do apartamento de sua mãe, conseguiu acalmar o pequeno Trotski, que dorme no quarto. Antes de retornar à sala, lembra que conheceu Guevarinha em uma edição da Marcha das Vadias. Joana enunciava palavras de ordem com os peitos de fora, segurava uma faixa pedindo menos violência contra as mulheres e viu uma, duas vezes aquele rapaz com o uniforme barba, roupa não lavada nem passada, banho adiado, calça jeans, mochila e All Star. Ele sorria e, na avaliação de Joana D’Arc, parecia calmo.

– Me apaixonei, ela repetiu, por semanas, para amigas e para a mãe.

Guevarinha quebra mais vidros da sala, joga um abajur no chão, estraga discos de vinil e aponta o dedo em riste para a sua companheira.  A mãe de Joana D’Arc contaria a oficiais de justiça, amigos, conhecidos e confidentes que o seu então genro havia bebido em excesso, mas não mencionou que ele consumiu maconha e cocaína no início daquela noite em que gritava: o que vocês fizeram por Curitiba?

Joana D’Arc arregala os olhos antes de receber, de Guevarinha, o primeiro tapa, seguido de um soco no rosto. A estudante de ciências sociais, filha de uma cientista social, disse, dias depois, para uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete amigas que nunca poderia imaginar que o Guevarinha, um militante do Partido da Revolução, favorável ao cicloativismo, articulador da Marcha da Maconha, presente em toda edição da Marcha das Vadias, para ela, enfim, um libertário, pudesse agredir uma mulher, ainda mais ela.

– Na real, Joana D’Arc, só gosto mesmo é dos seus peitos e do seu forébis.

Guevarinha enunciou a frase pouco antes da chegada de quatro policiais. A sogra do integrante do Partido da Revolução tentou defender a filha, mas diante dos socos e pontapés desferidos pelo então genro, fugiu para o quarto e telefonou em busca de ajuda.

2014 começou e a cientista social queria telefonar para o ex desejando feliz ano novo, mas lembrou da última noite que passou perto dele. Guevarinha foi detido pelos policiais, reagiu xingando, com socos e, pelo que contou a alguns amigos, além de apanhar, muito, perdeu o celular – “não lembro como, nem onde”.

O integrante do Partido da Revolução, finalmente, foi nomeado para um cargo, mas em outra cidade. Joana D’Arc sobrevive de freelas em Curitiba, e recebe alguma ajuda da mãe. Mas, o que importa, os dois dizem, para amigos em comum, é que ele, Guevarinha, tem uma nova Julieta, e ela, Joana D’Arc, tem um novo Romeu.


Ficção publicada na página 57 da revista Ideias, janeiro de 2014. Eis o link.

Resenha de Asa de sereia

Uma parte da região central de Curitiba cresce, ocupa espaço e quase ofusca os outros elementos de Asa de sereia (Arquipélago Editorial: Porto Alegre, 2013), o mais recente livro de Luís Henrique Pellanda (em foto de Rafael Dabul). A rua Ébano Pereira, o entorno da Biblioteca Pública do Paraná e as praças Santos Dumont e Generoso Marques são, basicamente, o território por onde o cronista circula e, em alguma medida, a principal matéria-prima para os seus textos.

Mas a geografia da província é apenas cenário, elemento periférico na proposta literária do autor. Isso fica evidente após a leitura de cada nova crônica que surge nas páginas de Asa de sereia. Pellanda não é apenas mero pintor de retratos urbanos. Ele é, também, um elaborador de frases. Para conferir, basta escolher ao acaso qualquer crônica.

Em “Rei de Curitiba”, de repente, o narrador dispara: “qualquer osso, vocês sabem, é mais vital que a dignidade humana”. Mais que uma frase, é um tiro de canhão que desestabiliza quem lê.

Na crônica “A indiferença da luz”, mais do que apresentar um palhaço aparentemente inútil, o cronista surpreende na última frase: “Que a escuridão os fertilize”, referindo-se a pétalas de rosa que o personagem escondeu na cartola em meio a uma cabeleira de fios de lã. Em “Chega por hoje”, a voz que narra decreta: “a Saldanha Marinho é uma espada nua”, em alusão a uma rua do centro da capital paranaense, onde, à noite, caminhar representa – sem exagero – risco de morte.

É possível seguir por 59 crônicas e identificar, principalmente, as frases certeiras e as referências a pontos reais de Curitiba. Então, aparecem “O espírito da fera” e “O terceiro namorado”: não são crônicas, e sim contos. Talvez, esses dois textos sejam o ápice de Asa de sereia.

“O espírito da fera” e “O terceiro namorado” se destacam, principalmente, por não apresentarem citações a locais curitibanos e, mais do que tudo, por não conterem frases – surpreendentes – que se sobrepõem a outras em meio à narrativa: todas as frases dos dois contos são surpreendentes. Esses dois contos problematizam, e evidenciam, a presença do mal, que – inclusive – “não precisa de oxigênio para sobreviver”.

Os dois textos de prosa inventiva remetem ao contista Pellanda que estreou com O macaco ornamental (Bertand Brasil: Rio de Janeiro, 2009) e, talvez por contraste, jogam luzes e – incrivelmente – valorizam ainda mais todos os outros textos de Asa de sereia.

As crônicas de Pellanda, é importante ressaltar, são diferentes. De praticamente tudo o que é escrito e publicado por aí. O mundo que ele apresenta – ambientado em Curitiba, às vezes nas areias da praia de Guaratuba, a partir de frases espetaculares – é só dele.

O cronista abre e fecha Asa de sereia com duas crônicas a respeito de pássaros. Em “A garça e o meteorito”, a primeira, ele – Pellanda – é cenário para quem tem asas e voa. E na última, “Sabiá enterrado vivo”, o autor revisita outros cronistas e oferece aos leitores uma proposta literária que não cabe aqui revelar o que é, e sim aplaudir, de pé, em pé.




Serviço: Asa de sereia, de Luís Henrique Pellanda. Arquipélago Editorial: Porto Alegre, 2013. 208 páginas. R$ 35. Avaliação: Excelente.

Resenha publicada originalmente na revista Ideias, 147, edição de janeiro de 2014, com o título "Pellanda na arrebentação".