sexta-feira, 28 de junho de 2013

A consagração de Golegolegolegolegah!


O escritor, doutor em Letras e professor da UFPR Paulo Venturelli (na foto acima) leu o meu segundo livro de contos, Golegolegolegolegah!, publicado em março deste ano (2013) pela Travessa dos Editores. Venturelli escreveu uma resenha, publicada em seu site, consagrando o livro. É uma ampla, profunda e surpreendente reflexão a respeito de um livro de contos. Eis a resenha:
GOLEGOLEGOLEGOLEGAH!
Marcio Renato dos Santos
Travessa dos Editores – 73 p.
No "Decálogo do perfeito contista", Horácio Quiroga determina no oitavo "mandamento" e no nono:
8. Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isto uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
9. Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.
Pois é isto que Marcio Renato dos Santos faz em seu recente Golegolegolegolegah! Ele toma as rédeas dos personagens e leva-os firmemente até onde quer, com perfeito domínio da arte de criar alguém vivo e conduzi-lo com expertise, dando-lhe vida pulsante e convincente.

Ao mesmo tempo, o autor não se deixa levar pela emoção. Os contos são calculados para aquele efeito único que é o objetivo do conto, segundo Poe. Depurados pela lapidação verbal, as narrativas têm alta voltagem ao nos apresentar personagens praticamente reduzidos a zero. Estes personagens parecem cimentados numa condição imutável, para a qual não veem saída. É como se seu destino fora traçado por deuses desconhecidos que lhes teriam lançado a maldição: fiquem onde estão e não se atrevam a dar um passo à frente. Isolados, perdidos de si mesmos, enfrentam o inferno de uma solidão áspera em que tudo conspira contra eles. Felicidade? Não a atingem nem de longe. Desespero? São tão anu- lados por seu cotidiano sombrio e massacrante que sequer se dão ao luxo de arrancar os cabelos.

Protótipos de um mundo esvaziado de sentido, um mundo que não tem mais lugar para o humano, um mundo talhado na mornidão do não-sentido, eles chafurdam na vala comum dos escrotos que se perderam de si próprios e, principalmente, do outro. O outro pode, às vezes, ser um fantasma, mas não tem referencialidade substantiva para lhes dar o suporte de uma interação viva, complexa, na indefinição de toda convivência.

É claro que hoje em dia vivemos todos à mercê e ao redor de nosso umbigo. Os personagens de Marcio Renato dos Santos levam isto ao extremo. Não saem de casa, não conhecem a cidade onde moram, muito menos as suas ruas, seus bares, seus restaurantes. E quando saem, não passam de autômatos numa prática existencial engessada num nada corrosivo que os leva sempre a becos sem saída.

Triviais e anônimos, desqualificados e de baixa extração (mesmo quando têm dinheiro, cuja origem é sempre indeterminada), eles levam uma vida ao rés do chão, porque lhes falta um projeto existencial, lhes sobra uma nulidade acachapante em que estão sozinhos perante o próprio ato de existir. Se se olham no espelho, não se reconhe- cem porque seus traços foram diluídos e devorados pela trivialidade de seu rastejamento na vala dos comuns mortais, em que tons de personalidade deixaram de existir.

Plenos das mazelas mais triviais, eles sequer têm um nome próprio, com exceção de Zé Ruela. Este, mais que nome, tem uma série de apelidos que o desqualificam e o jogam à margem de uma existência tranquila no bairro em que mora. Afinal, é o louquinho do lugar, mais soterrado que respirando o ar de todos.

Vamos dar uma olhada, ainda que rápida, em cada conto que compõe o livro:

"Golegolegolegolegah!" — um título que é uma longa onomatopeia para a rarefação do personagem-narrador. Este fulano abandonou sua cidade natal que era dominada por uma família de tiranos que controlava a todos. Mudou-se para Goiânia. Mas pode ser também Maringá, Florianópolis, Caxias do sul ou Campinas. Ele não vê diferença de um lugar para o outro. Enquanto narra, tem consciência da sua função e interrompe o ato de escrever várias vezes para cuidar de trivialidades, como beber um copo d´água. E não tem muita certeza do ponto em que deve terminar a narrativa. E o texto que ele escreve, o vem fazendo há anos: escreve, apaga, reescreve.

"Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul" — um título lírico, afável para uma história em que o narrador-personagem não tem controle sobre nada. É um obsessivo: precisa passar por um mesmo ponto da cidade, sem definição geográfica. Até que certa vez o ônibus em que trafega tem uma pane e ele é obrigado a descer. Completamente desorientado, não sabe em que local está. Misturando fome e ansiedade, anda e desanda, sem saber onde ir. Até que reconhece uma rua e, a partir daí, vai em busca daquele ponto que automaticamente o chama: a passarela, a ruela, a viela, o canal, o posto que é seu trampolim para o azul. Você pode escolher o azul? Não, o azul é impingido como única condição possível, levando o leitor ao mesmo beco-sem-saída deste narrador que perdeu todas as cartas de seu jogo.

"Digital reverb delay" — um sujeito aparentemente normal. Mas não fala. Conformado. Passou sete anos numa prisão e não teve garras para se defender contra o que é acusado. Kafkiano, recebeu "dinheiros inesperados" e se instalou diante do mar. Todavia, tem saudades dos dias ruins. A garganta está inflamada por falta de uso. Grava suas falas para ouvi-las e refletir sobre "a sorte de não ter despencado no precipício." Ele não despencou no precipício? Claro que sim. A partir do momento que "perde" a linguagem, ele se desumaniza, não tem mais uma interação possível com seus semelhantes e esta anulação de sua humanidade — já que a linguagem faz o homem — é o voraz precipício de sua nulidade. Ele é aquele que tenta se erguer puxando os próprios cabelos ou tentando pular a própria sombra. E assim, está emparedado numa condição sem pontes para o outro e, autocentrado, macera-se na gravação do que diz, e sua reflexão é mais um ato de quem não é nem diante de si mesmo.

"Nevoeiro" — outro fulano que ganha um bom dinheiro, sem que isto seja condição de viver em plenitude. Costuma encontrar amigos mortos há mais de vinte anos. E nunca tem certeza: é o amigo que revê ou é alguém parecido? A morte aqui tem sua presença marcante como um contraponto ao raso existir de alguém que só sobrevive num dia a dia repleto de nadas. O dinheiro virou mera moeda de troca que não disfarça seu processo de alienação em que está embutido. Sem um objetivo para ser e fazer, o escamoso cotidiano o sufoca e lhe cria a ilusão de ver rostos conhecidos que podem não ser. Então o que de verdade acontece é que ele está no interior de um labirinto de espelhos a refletir suas imagens indefinidas, imagens de um homem que não tem rosto próprio e cai no auto-engano de pescar possíveis referências nesta ilusão de ver quem pensa que vê.

"Zé Ruela" — este é o louquinho das pernas fortes e dos braços finos. Costuma correr pela cidade e em lugar de isto ser algo positivo, é fator de desmerecimento diante da comunidade. Queria ter a profissão de mensageiro. O que consegue é ser rotulado de Gasta Sola, Carpe o Pé, Serelepe, o Louquinho da Rua, o Sem pausa. Louco manso, segundo sua própria concepção, tentou trabalhar para distribuir panfletos de propaganda. Desanimado, jogou tudo no lixo e perdeu o emprego. Sua dúvida: até quando a cidade vai permiti-lo andar por aí? É o homo faber, molde do homo ludens que levou ao homo loquax desistindo de seus atributos, não desenvolvendo nenhum potencial, por isto não livre e um homem sem liberdade é o retrato de nossa sociedade em que nossos papéis são programados por ideologias dominantes que nos reservam pouco espaço de manobra na busca do ser.

"Cento e noventa" — roupas e sapatos importados. O personagem come em bons restaurantes. Porém, descobriu que o sucesso engorda. Morde-se porque um conhecido tem prestígio como músico e ele não compartilha da opinião dos que veem qualidade neste artista. Enfurece-se porque Fulano é tido como bom escritor e, ele, claro, não concorda com tal ró- tudo. Pensa em usar parte de seu dinheiro para demolir estes mitos. No fundo, um interesseiro cínico que enganou e conseguiu subir na vida. No seu nada, percebe "que talvez nenhuma palavra tenha importância como teve um dos primeiros sons que emiti e ouvi: golegolegolegolegah!”

É preciso ressaltar o imenso salto de qualidade e maturação que o autor deu de seu primeiro livro Minda-au para este Gole. Ganhou em técnica, em densidade, em substância. Ganhou na precisão concisa de histórias que deitam e rolam na ironia. Ainda que as situações se passem sem uma localização precisa e definida, não é fora de propósito localizar estas histórias em Curitiba, com seus provincianismos, suas panelinhas, sua autofagia melindrada diante de quem constrói alguma coisa que o alça fora do comum.
Talvez, nos diversos contos, tenhamos sempre o mesmo personagem. O importante é que o autor o(s) pegou pelas mãos e o(s) levou com firmeza até onde queria, como prega Quiroga. E nos retratos secos, não há emoção. Há a racionalidade de quem escreve com equilíbrio, traçando um caminho de arquitetura textual muito bem pensado.
E não poderíamos deixar de dizer algumas palavras sobre o livro enquanto produto editorial. Uma edição surpreendentemente bela, dessas que fazem bem aos olhos e às mãos, rivalizando com as melhores editoras do país. Um projeto de design gráfico de primeira linha de Marciel Conrado, também responsável pelas sugestivas e intrigantes ilustrações.
É bom e salutar reconhecer (sem o provincianismo citado antes) que Curitiba não é mais só uma promessa, porque já tem um lastro de produção invejável em todas as artes, em especial na literatura. É só dar uma espiada na publicação de  tantos jovens autores que apareceram nestes últimos anos.


 A resenha também pode ser acessada diretamente por meio deste link


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Paulo Venturelli consagra Golegolegolegolegah!

GOLEGOLEGOLEGOLEGAH!
Marcio Renato dos Santos
Travessa dos Editores – 73 p.
No "Decálogo do perfeito contista", Horácio Quiroga determina no oitavo "mandamento" e no nono:
8. Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depu- rada de excessos. Considera isto uma verdade absoluta, ainda que não o seja.
9. Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.
Pois é isto que Marcio Renato dos Santos faz em seu recente Golegolegolegolegah! Ele toma as rédeas dos personagens e leva-os firmemente até onde quer, com perfeito domínio da arte de criar alguém vivo e conduzi-lo com expertise, dando-lhe vida pulsante e convincente.
Ao mesmo tempo, o autor não se deixa levar pela emoção. Os contos são calculados para aquele efeito único que é o objetivo do conto, segundo Poe. Depurados pela lapidação verbal, as narrativas têm alta voltagem ao nos apresentar personagens praticamente reduzidos a zero. Estes personagens parecem cimentados numa condição imutável, para a qual não veem saída. É como se seu destino fora traçado por deuses desconhecidos que lhes teriam lançado a maldição: fiquem onde estão e não se atrevam a dar um passo à frente. Isolados, perdidos de si mesmos, enfrentam o inferno de uma solidão áspera em que tudo conspira contra eles. Felicidade? Não a atingem nem de longe. Desespero? São tão anu- lados por seu cotidiano sombrio e massacrante que sequer se dão ao luxo de arrancar os cabelos.
Protótipos de um mundo esvaziado de sentido, um mundo que não tem mais lugar para o humano, um mundo talhado na mornidão do não-sentido, eles chafurdam na vala comum dos escrotos que se perderam de si próprios e, principalmente, do outro. O outro pode, às vezes, ser um fantasma, mas não tem referencialidade substantiva para lhes dar o suporte de uma interação viva, complexa, na indefinição de toda convivência.
É claro que hoje em dia vivemos todos à merce e ao redor de nosso umbigo. Os personagens de Marcio Renato dos Santos levam isto ao extremo. Não saem de casa, não conhecem a cidade onde moram, muito menos as suas ruas, seus bares, seus restaurantes. E quando saem, não passam de autômatos numa prática existencial engessada num nada corrosivo que os leva sempre a becos sem saída.
Triviais e anônimos, desqualificados e de baixa extração (mesmo quando têm dinheiro, cuja origem é sempre indeterminada), eles levam uma vida ao rés do chão, porque lhes falta um projeto existencial, lhes sobra uma nulidade acachapante em que estão sozinhos perante o próprio ato de existir. Se se olham no espelho, não se reconhe- cem porque seus traços foram diluídos e devorados pela trivialidade de seu rastejamento na vala dos comuns mortais, em que tons de personalidade deixaram de existir.
Plenos das mazelas mais triviais, eles sequer têm um nome próprio, com exceção de Zé Ruela. Este, mais que nome, tem uma série de apelidos que o desqualificam e o jogam à margem de uma existência tranquila no bairro em que mora. Afinal, é o louquinho do lugar, mais soterrado que respirando o ar de todos.
Vamos dar uma olhada, ainda que rápida, em cada conto que compõe o livro:
"Golegolegolegolegah!" - um título que é uma longa onomatopeia para a rarefação do personagem-narrador. Este fulano abandonou sua cidade natal que era dominada por uma família de tiranos que controlava a todos. Mudou-se para Goi- ânia. Mas pode ser também Maringá, Florianópolis, Caxias do sul ou Campinas. Ele não vê diferença de um lugar para o outro. Enquanto narra, tem consciência da sua função e interrompe o ato de escrever várias vezes para cuidar de tri- vialidades, como beber um copo d´água. E não tem muita certeza do ponto em que deve terminar a narrativa. E o texto que ele escreve, o vem fazendo há anos: escreve, apaga, reescreve.
"Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul." - um título lírico, afável para uma história em que o narrador-personagem não tem controle sobre nada. É um obsessivo: precisa passar por um mesmo ponto da cidade, sem definição geográfica. Até que certa vez o ônibus em que trafega tem uma pane e ele é obrigado a descer. Completamen- te desorientado, não sabe em que local está. Misturando fome e ansiedade, anda e desanda, sem saber onde ir. Até que reconhece uma rua e, a partir daí, vai em busca daquele ponto que automaticamente o chama: a passarela, a ruela, a viela, o canal, o posto que é seu trampolim para o azul. Você pode escolher o azul? Não, o azul é impingido como ú- nica condição possível, levando o leitor ao mesmo beco-sem-saída deste narrador que perdeu todas as cartas de seu jogo.
"Digital reverb delay" - um sujeito aparentemente normal. Mas não fala. Conformado. Passou sete anos numa prisão e não teve garras para se defender contra o que é acusado. Kafkiano, recebeu "dinheiros inesperados" e se instalou diante do mar. Todavia, tem saudades dos dias ruins. A garganta está inflamada por falta de uso. Grava suas falas para ouvi- las e refletir sobre "a sorte de não ter despencado no precipício." Ele não despencou no precipício? Claro que sim. A partir do momento que "perde" a linguagem, ele se desumaniza, não tem mais uma interação possível com seus semelhan- tes e esta anulação de sua humanidade - já que a linguagem faz o homem - é o voraz precipício de sua nulidade. Ele é aquele que tenta se erguer puxando os próprios cabelos ou tentando pular a própria sombra. E assim, está emparedado numa condição sem pontes para o outro e, autocentrado, macera-se na gravação do que diz, e sua reflexão é mais um ato de quem não é nem diante de si mesmo.
"Nevoeiro" - outro fulano que ganha um bom dinheiro, sem que isto seja condição de viver em plenitude. Costuma encon- trar amigos mortos há mais de vinte anos. E nunca tem certeza: é o amigo que revê ou é alguém parecido? A morte aqui tem sua presença marcante como um contraponto ao raso existir de alguém que só sobrevive num dia a dia repleto de na- das. O dinheiro virou mera moeda de troca que não disfarça seu processo de alienação em que está embutido. Sem um ob- jetivo para ser e fazer, o escamoso cotidiano o sufoca e lhe cria a ilusão de ver rostos conhecidos que podem não ser. Então o que de verdade acontece é que ele está no interior de um labirinto de espelhos a refletir suas imagens indefinidas, imagens de um homem que não tem rosto próprio e cai no auto-engano de pescar possíveis referências nesta ilusão de ver quem pensa que vê.
"Zé Ruela" - este é o louquinho das pernas fortes e dos braços finos. Costuma correr pela cidade e em lugar de isto ser algo positivo, é fator de desmerecimento diante da comunidade. Queria ter a profissão de mensageiro. O que con- segue é ser rotulado de Gasta Sola, Carpe o Pé, Serelepe, o Louquinho da Rua, o Sem pausa. Louco manso, segundo sua própria concepção, tentou trabalhar para distribuir panfletos de propaganda. Desanimado, jogou tudo no lixo e perdeu o emprego. Sua dúvida: até quando a cidade vai permiti-lo andar por aí? É o homo faber, molde do homo ludens que le- vou ao homo loquax desistindo de seus atributos, não desenvolvendo nenhum potencial, por isto não livre e um homem sem liberdade é o retrato de nossa sociedade em que nossos papéis são programados por ideologias dominantes que nos reservam pouco espaço de manobra na busca do ser.
"Cento e noventa" - roupas e sapatos importados. O personagem come em bons restaurantes. Porém, descobriu que o suces- so engorda. Morde-se porque um conhecido tem prestígio como músico e ele não compartilha da opinião dos que veem qualidade neste artista. Enfurece-se porque Fulano é tido como bom escritor e, ele, claro, não concorda com tal ró- tudo. Pensa em usar parte de seu dinheiro para demolir estes mitos. No fundo, um interesseiro cínico que enganou e conseguiu subir na vida. No seu nada, percebe "que talvez nenhuma palavra tenha importância como teve um dos primei- ros sons que emiti e ouvi:" golegolegolegolegah!
É preciso ressaltar o imenso salto de qualidade e maturação que o autor deu de seu primeiro livro Minda-au para este  Gole. Ganhou em técnica, em densidade, em substância. Ganhou na precisão concisa de histórias que deitam e rolam na   ironia. Ainda que as situações se passem sem um localização precisa e definida, não é fora de propósito localizar es- tas histórias em Curitiba, com seus provincianismos, suas panelinhas, sua autofagia melindrada diante de quem cons-   trói alguma coisa que o alça fora do comum.
Talvez, nos diversos contos, tenhamos sempre o mesmo personagem. O importante é que o autor o(s) pegou pelas mãos e    o(s) levou com firmeza até onde queria, como prega Quiroga. E nos retratos secos, não há emoção. Há a racionalidade   de quem escreve com equilíbrio, traçando um caminho de arquitetura textual muito bem pensado.
E não poderíamos deixar de dizer algumas palavras sobre o livro enquanto produto editorial. Uma edição surpreendente-  mente bela, dessas que fazem bem aos olhos e às mãos, rivalizando com as melhores editoras do país. Um projeto de de- signer  gráfico de primeira linha de Marciel Conrado, também responsável pelas sugestivas e intrigantes ilustrações.
É bom e salutar reconhecer (sem o provincianismo citado antes) que Curitiba não é mais só uma promessa, porque já tem  um lastro de produção invejável em todas as artes, em especial na literatura. É só dar uma espiada na publicação de   tantos jovens autores que apareceram nestes últimos anos.

sábado, 22 de junho de 2013

Ronaldo Cagiano lê Golegolegolegolegah!

GOLEGOLEGOLEGOLEGAH! ou Sobre o homem e seu deslugar no mundo

Em seu segundo livro, Golegolegolegolegah! (Ed. Travessa, Curitiba, 2013) , o escritor paranaense Marcio Renato dos Santos, que estreou com o volume de contos Minda-Au (Ed. Record, Rio), traz seis histórias que são amalgamadas por uma temática peculiar: a solidão e a insularidade de seus personagens.

Protagonistas que, muitas vezes, vivem no limite entre a realidade e o delírio, caminhando num limbo psicológico e afetivo e outras situações que determinam suas existências carregadas de angústia, silêncios & incomunicabilidades. São seres que reverberam os sintomas da vida no mundo contemporâneo, tão apequenada pelos conflitos & dilemas individuais e coletivos.

O primeiro conto, que dá título ao livro, remete-nos a um a um escritor em plena crise criativa, em busca de si mesmo ou de um fio condutor para sua narrativa. Perdido e sem norte, procura rumos enquanto reflete sobre seu quotidiano & o ofício. Um homem às voltas com um horizonte intangível, contemplando de um patamar a cidade que nem sempre é a mesma que ele vê. Ele está ali e não está. Seus delírios de percepção colocam-no frente a frente com sua angústia existencial, ao mesmo tempo em que narrador e personagem digladiam-se em torno de um texto em construção, que vacila e não deslancha, no mesmo diapasão em que seus conflitos vão sendo des(a)fiados. É um conto paradigmático sobre os impasses de alguém povoado de incertezas, esse vivente que muito bem poderia ser acometido das mesmas inquietações, estando em Florianópolis ou Cataguases, em Teerã ou Curitiba, em João Pessoa ou Paris; ou chamar-se Noel ou Tavares, Douglas ou Salomão, eis a questão que suscita ao leitor o mesmo percurso, na tênue fronteira entre a realidade e a fantasia.
Como afirma Fábio Campana na apresentação do livro, esses personagens “são universais porque expressam a humana fragilidade imposta pela finitude, sofrem da angústia da incomunicabilidade, se deparam com suas incompletudes”. 

Márcio mapeou algo ancestral e sempre presente - a angústia humana - ao mesmo tempo em que de seus textos emerge um diálogo com grandes mestres da narrativa, tanto pela temática quanto pela estrutura. Exemplo é o conto “Nevoeiro”, contado a partir da perspectiva de um morto, surreal e machadiano. 

Gogegolegolegolegah! enfeixa contos curtos, que são verdadeiras pérolas, pontuadas por uma linguagem sóbria e sem afetações estilísticas. As histórias de Marcio Renato dos Santos fazem uma exegese sobre esse grande e estranho mundo em que (escre)vivemos, com seus fetiches e etiquetas, com seus encontros & desencantos, marcado por uma profunda sensação de alheamento e deslugar, algo que potencializa os nossos desatinos, aprofunda o individualismo e por isso mesmo revestem-se de um universalismo, porque dizem respeito às pungentes re(l)ações e emoções do indivíduo, encontradiças em qualquer lugar do mundo.

Ronaldo Cagiano 

Golegolegolegolegah! na Shakespeare & Company em Paris

Golegolegolegolegah! na livraria Shakespeare & Company, em Paris.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Golegolegolegolegah! em Paris

No dia 18 de junho de 2013, Dary Jr. ao lado de Edson Castro, lendo Golegolegolegolegah! em Paris.

domingo, 9 de junho de 2013

Guido Viaro lê Golegolegolegolegah!

O escritor Guido Viaro (desenhado por Simon Taylor) leu Golegolegolegolegah!, o meu segundo livro de contos, e escreveu a seguinte resenha:

"Os personagens estão perdidos, vagam entre cidades e profissões, são como parafusos cujas roscas são de tamanho maior. Há inconstância naquelas vidas. Mas não é só isso, elas são frágeis folhas na árvore social, muitas delas, todos os dias são arrancadas por brisas. Mas os personagens são persistentes, superam dificuldades, para descobrirem outras maiores e finalmente encontrarem o desânimo a que todos têm direito. 

O livro conta a história de toda a humanidade, pois as histórias se repetem, e quem consegue escrever sobre essa repetição, normalmente tem seu nome repetido pelos séculos afora. 

No último conto, a morte chega através de um acidente de carro. Mas as coisas não mudam tanto assim, a confusão e o atabalhoamento dos recém mortos, é parecido com o ímpeto infanto-juvenil daqueles que acreditam que a bicicleta realmente melhorará o mundo. Parece que nossos problemas têm origem distante e vão sendo geneticamente transmitidos através das novas gerações. 

Encontrei todas essas ideias no livro. 

Teve outras que só consegui ver de relance, por incapacidade minha, mas elas estavam lá, amarrando os contos e construindo o livro, que depois, quando estiver em nossas mãos, vai nos contaminar de humanidade, fraquezas, e até de uma dose de heroísmo que mesmo o mais medíocre dos homens possui.

Esse livro que balbucia um inefável nome, fala do sonho e da frustração, depois atravessa épocas, que parecem ser sempre a mesma, mostra o homem, um eterno perdedor, um fracassado atávico, que em seu caminho, elege alguns pequenos sucessos para depois destruí-los. Esse livro é ácido sulfúrico para aqueles que conseguirem segurá-lo nas mãos, mas pode ser lido também como algumas histórias bem escritas. Esse monólito literário desafia os céus com suas qualidades, embaixo dele há uma escola, o ano é 2134, e o livro é de leitura obrigatória no currículo escolar."


Bate-papo na Saraiva do Crystal

Clique de Daniel Snege durante o bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, dia 6 de junho de 2013, na Saraiva do Crystal.

Minda-Au na Saraiva

Foto de Daniel Snege.

Chatos sobre duas rodas na Saraiva

Durante o bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, dia 6 de junho de 2013 na Saraiva do Crystal, fui questionado sobre um texto que escrevi, Chatos sobre duas rodas, conteúdo publicado na Gazeta do Povo. Foto de Daniel Snege.

Ideias na Saraiva do Crystal

No bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, dia 6 de junho de 2013 na Saraiva do Crystal, mostrei ao público a revista Ideias de junho de 2013, a qual traz um texto inédito de minha autoria: Ursa menor. Foto do Daniel Snege.

Na Saraiva dia 6 de junho de 2013

Daniel Snege faz registro fotográfico do bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, meu segundo livro de contos, na Saraiva do Crystal, dia 6 de junho de 2013.

Simon Taylor na Saraiva

Simon Taylor estava no lançamento de Golegolegolegolegah! na Saraiva do Crystal, dia 6 de junho de 2013. Foto do Daniel Snege.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sandro Malk na Saraiva

Sandro Malk, em foto de Daniel Snege, ontem, 6 de junho, na apresentação da rosablanca., durante bate-papo sobre Golegolegolegolegah! na Saraiva do Crystal.

Público na Saraiva



Daniel Snege registrou o público presente no bate-papo sobre Golegolegolegolegah! ontem, 6 de junho, na Saraiva do Crystal. Dary Pereira de Souza Jr., com o violão, estava lá. Ele apresentou o repertório da rosablanca.

Com Guido Viaro na Saraiva

O escritor Guido Viaro estava no bate-papo sobre Golegolegolegolegah! ontem, 6 de junho, na Saraiva do Crystal. Foto do Daniel Snege.

O comandante

O jornalista Felipe Kryminice coordenou o bate-papo sobre Golegolegolegolegah! na Saraiva do Crystal ontem, 6 de junho. Foto do Daniel Snege.

Cena na Saraiva

No bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, ontem, 6 de junho, na Saraiva do Crystal. Foto do Daniel Snege.

Clique do Daniel Snege

Clique de Daniel Snege durante o bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, ontem, dia 6 de junho, na Saraiva do Crystal.

Com Felipe Kryminice na Saraiva

Com Felipe Kryminice, jornalista, produtor e mediador, no bate-papo sobre Golegolegolegolegah! na Saraiva do Crystal, dia 6 de junho. Foto do Daniel Snege.

Dary Jr fotografado por Daniel Snege

Dary Pereira de Souza Jr., fotografado por Daniel Snege, no show+bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, ontem, dia 6 de junho, na Saraiva do Crystal.

Sandro Malk e Dary Jr na Saraiva do Crystal

Foto do Daniel Snege.

Lançamento da Saraiva desenhado por Simon Taylor


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Hoje na Saraiva. Deu na coluna do Bessa

Conto com vocês

O jornalista e escritor Marcio Renato dos Santos faz hoje o quarto lançamento de seu livro de contos Golegolegolegolegah!, às 19 horas, na Saraiva Mega Store no Shopping Crystal. Desta vez, porém, com a participação dos alunos do curso de Jornalismo da UFPR, que leram o livro em sala de aula. Além disso, haverá a apresentação da banda rosablanca. e do cartunista Simon Taylor.

Nota publicada dia 6 de junho de 2013 com destaque na coluna do Reinaldo Bessa, na Gazeta do Povo.
Leia a coluna na íntegra: http://tinyurl.com/khppk6f

terça-feira, 4 de junho de 2013

Doutor José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes estuda, lê e discute com os seus alunos do curso de Jornalismo da UFPR o meu segundo livro de contos, Golegolegolegolegah! Dia 6 de junho, quinta-feira, eles estarão na Saraiva do Crystal no bate-papo sobre a obra. A partir das 19 horas. Entrada franca.

Sandro Malk

Sandro Malk (fotografado por Luciano Schuarça) apresenta, ao lado de Dary Pereira de Souza Jr., o repertório da rosablanca. no dia 6 de junho, quinta-feira, na Saraiva do Crystal durante o lançamento+bate-papo sobre Golegolegolegolegah! A partir das 19 horas. Entrada franca.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ursa menor

                Agora o Zé Colméia chega, chegando, e diz: ocupem a floresta. Ou, então, ele grita: essa é uma floresta que se ocupa. Pode? Claro que pode. Quem vê e escuta pode escutar e ver, independentemente de aceitar. Mas os que circulam na área e na chuva, em movimento, encharcados, há duas décadas, sabem que o Urso é canalha.
                O Panda, outro nome pelo qual chamam o Zé Colméia, conseguiu enganar a todos, ou quase todos, os bichos por um longo tempo. Ocupou o posto da Águia. Liderou (liderou mesmo?) o Guepardo, o Bode Careca, a Mula, o Lobo Bobo, o Chacal, a Hiena, o Ganso, a Anta e tanto zoo, ai de nós. Não, eu não faço nem fiz parte da fauna, apenas tento narrar essa fábula.
                Mas, uma vez que invadi o enredo, aproveito para observar algo que pode ajudar a leitora e o leitor a compreenderem um pouco mais a mentalidade do Zé Colméia. No fundo, ele não passa de um burrinho viajado, com todo respeito aos nossos irmãos, os Jumentos.
O protagonista deste texto acumula inúmeros carimbos no passaporte e retratos em frente a troncos, fontes e gramados. O Panda poderia fazer economia, basicamente posicionando o seu corpanzil diante de fotos de logradouros glamurosos, e clique. Mas não. O peludo prefere gastar parte do que acumula a se deslocar até outras paisagens para, na volta, exibir o que imagina ser troféu: o seu álbum de viagens.
 Mas é tempo de retornar ao enredo. O espaço é curto e já consumimos, até aqui, mais de um terço do que nos cabe neste minifúndio. Vamos recuar, pelo menos duas décadas. Desde aquele tempo, o Urso já fazia de tudo para anular o arrulho dos pombos, o balido das ovelhas, o grunhido dos porcos, o grasnar dos jacus e, ora direis, sufocou até rugido de leão.
Sabe-se lá como – eu sei, mas não vou revelar – o nosso, nosso não, o Zé Colméia foi nomeado para divulgar o que acontecia na floresta. Mas o Panda só tinha interesse em seu bramido e não economizou energia para abafar o que não dizia respeito à própria toca.
Mais até do que ter o seu pote recheado de mel, o Urso a-do-ra hibernar. Fora isso, vê, ou anuncia ter visto, imagens projetadas na parede. O Panda tem medo da ação. Desconsidera o suor. Passa perfume em todos os seus pelos com a finalidade de disfarçar eventuais odores. Somente os que estão distantes, em outras florestas, têm – na opinião dele – o direito de agir.
Graças a um método, o toma lá, dá cá, o peludinho passou a ter acesso a informações de outras florestas e, devido ao benefício, repetiu, e segue a repetir, aqui o que dizem e pensam por lá. Há quem o leve em consideração. A Macaca, aquela, a que gosta de tudo ex-pli-ca-di-nho, ela admira o Panda. Mas, sabe, nevou, choveu, deu sol, praia, até floresta a céu aberto e, nessas duas décadas, o Urso ainda não elaborou nenhum pensamento, apesar de se anunciar sábio, quase um doutor.
Enquanto a fábula se faz, nesse último parágrafo, a situação do Urso já não é mais a mesma. A toca caiu. Hoje a Andorinha tenta controlar os holofotes neste matagal. Mas agora é quase tarde demais. Algumas aves calaram. Outros mamíferos entraram em extinção. E, revisando o que escrevi, me dou conta de que há um equívoco no enredo. Ele, na realidade, é ela. Ou seja, o Urso é uma Ursa. Mas o caráter, as ações e as conseqüências da postura maquiavélica são, de fato, as relatadas, com fidelidade, até aqui.

Publicado originalmente na página 67 da revista Ideias (Travessa dos Editores), edição 140, junho de 2013.

Lucas, Castilho e Getúlio

Dia 9 de abril de 2013, no bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação, amigos e conhecidos como Lucas, Cristiano Castilho e Getúlio Guerra. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

Com irmão e mãe na Livrarias Curitiba do Estação

No lançamento de Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação, dia 9 de abril de 2013. Atrás de mim, Guilherme, meu irmão, e Júlia, minha mãe. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

Com Fábio Campana na Livrarias Curitiba do Estação

Ao lado de Fábio Campana no bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação, dia 9 de abril de 2013. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

Foco no livro

Cena do bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação, dia 9 de abril de 2013. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

Autógrafos para Camila

Autógrafos para a jornalista Camila Petry Feiler, dia 9 de abril de 2013, após o bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

Mediador em cena

No dia 9 de abril de 2013, Felipe Kryminice mediou o bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

Dary Jr. na Livraria Curitiba do Estação

Dia 9 de abril de 2013, Dary Jr mostrou o repertório autoral, de sua nova banda, a rosablanca., durante bate-papo sobre Golegolegolegolegah!, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto: Livrarias Curitiba Divulgação.

domingo, 2 de junho de 2013

Messias Gonzaga e Eleotério Burrego

Com Messias Gonzaga e Eleotério Burrego no lançamento de Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores) dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Com Ricardo Freire

Com o historiador, prosador, ator e amigo Ricardo Freire no lançamento de Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores) dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Fernando Severo

Com o cineasta e diretor do MIS-PR, Fernando Severo, no lançamento de Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores) dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Com Osny Tavares

Com Osny Tavares no lançamento de Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores) dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Com Guilherme Magalhães

Com Guilhermes Magalhães no lançamento de Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores) dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.