sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A incrível recepção de Finalmente hoje mostra o conto em bom momento

Toda vez que alguém diz “conto não vende” ou “livro de contos não desperta o interesse do público”, é preciso desconfiar. Há inúmeros contistas em atividade no mundo e no Brasil. Alguns dos mais expressivos autores da ficção breve brasileira estão vivos e em atividade, entre os quais Rubem Fonseca, Sergio Faraco, Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna e Dalton Trevisan. Há, inclusive, autores relativamente mais jovens, mas já com obra e, neste caso, o destaque vai para o curitibano Marcio Renato dos Santos.
Os leitores da coluna acompanham os movimentos literários de Marcio, que registro desde o seu primeiro livro de contos, Minda-au (Record, 2010). No entanto, o que surpreende é a recepção do mais recente e quinto livro dele, Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), disponível desde março deste ano — o lançamento aconteceu na noite de 11 de maio na Livrarias Curitiba do Shopping Estação.

OBSERVADORES
Antes mesmo de ser lançado, “Finalmente hoje” já disse a que veio a partir do olhar de observadores atentos — inclusive, o texto de apresentação é do escritor e tradutor Ernani Ssó. Mas, no caso da recepção em sites, blogs e imprensa, a primeira notícia da obra aconteceu dia 14 de abril. Wilame Prado comentou o livro em sua coluna, no jornal O Diário do Norte do Paraná, de Maringá: “Leio há algum tempo os contos de Marcio Renato dos Santos. Há humor sim, mas é um humor que me deixa triste porque me faz lembrar do quanto somos pequenos e mesquinhos. Esse é o grande valor da literatura dele, em meu ponto de vista”.

NOVA CRÍTICA
Dia 29 de abril, Sérgio Tavares analisou o livro em seu blog A Nova Crítica: “Dando continuidade a sua marcante carreira de contista, Marcio compõe retratos da vida que, cobertos por um verniz ora caricatural ora satírico, dão a dimensão do quão complexo pode ser o que é encarado frivolamente como banalidade”. Já Aguinaldo Médici Severino resenhou Finalmente hoje no blog Livros que eu li, em postagem de 10 de maio:
“São 14 histórias, curtas, onde encontramos diálogos rápidos, informais, usualmente bem-humorados, mas que alcançam lirismo nas situações duras, que captam o ritmo frenético do cotidiano e algo do assombro que experimentamos todos, todos os dias”.

METRO CURITIBA
Posteriormente, Finalmente hoje também recebeu atenção, entre outros impressos, do Jornal Metro Curitiba (PR), do Diário do Nordeste (CE) e do Estado de Minas (MG). Cassionei Niches Petry, que vive em Santa Cruz do Sul (RS), analisou a obra e, em texto veiculado em seu blog, definiu da seguinte maneira a literatura do curitibano: “Marcio Renato dos Santos é um contista da experimentação”.
Já o escritor Antonio Cescatto escreveu uma resenha, conteúdo editado pelo Jornal Opção (GO), apresentando aspectos da ficção do contista: “Em 14 contos sintéticos e lacônicos, Marcio leva o leitor a reencontrar personagens que são familiares não pelo que fazem ou vivem, mas pelo que representam e significam em nosso imaginário. Ao mesmo tempo em que são concretos, também são fantasmas. Nossos queridos fantasmas”.

TULIPAS NEGRAS
Vale ressaltar que todas as resenhas são positivas, incluindo também “Finalmente, Marcio”, de autoria de Marco Cremasco, publicada dia 5 de julho pelo jornal O Diário do Norte do Paraná, de Maringá. E, também merece registro, o livro foi editado por uma pequena editora curitibana, a Tulipas Negras. Isso é notícia!
Não deixo de reparar que, até o momento, o livro ainda não recebeu nenhuma crítica negativa. Talvez fosse saudável a existência de um texto questionando, ou relativizando, Finalmente hoje, que tem força, qualidade e se garante. De minha parte, vou reler a obra, disponível para compra na rede da Livrarias Curitiba e também no site www.livrariascuritiba.com.br por apenas R$ 29,90.
Afinal, livro de conto vende — e tem muitos leitores.

Texto de Aroldo Murá publicado no Indústria&Comércio, 25 de agosto de 2016.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Soneto italiano

Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:

De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?

Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!

Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!

Poema de Manuel Bandeira, publicado no livro Lira dos Cinquent'anos (1940).

Entrevista com Clarice Lispector


Los Pirañas


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pimenteira

Péricles olha a pimenteira seca. Não sabe se é a quinta, a sexta ou a sétima. Há alguns anos, decidiu comprar a planta. O objetivo não era decorar a cozinha nem cultivar tempero forte. O engenheiro estava em busca de um bloqueio para o mau-olhado. Foi promovido e tinha a impressão de despertar inveja.
Há uma semana que os colegas comentam nos corredores e nos banheiros da empresa que o Bruno, o superintendente, deve deixar o cargo. Péricles tem a sensação de que pode conquistar a vaga e, para atingir o objetivo, precisa de uma nova planta, dessas que filtram energias negativas.
Bruno e Péricles se conheceram no curso de engenharia química e continuaram colegas na pós-graduação. Quase no mesmo período, foram contratados por uma empresa de biotecnologia especializada na produção de enzimas. Já nos primeiros meses de trabalho, Péricles conquistou um cargo de direção. Bruno trabalhou quase uma década até ser promovido a diretor-geral e, em seguida, a superintendente.
Apesar da proximidade, cada um avalia a relação de um jeito. Bruno considera Péricles um parceiro. Péricles enxerga em Bruno um colega, no caso, um adversário. Na universidade e nos primeiros anos de empresa, fizeram trabalhos em conjunto. Uma vez em cargos de direção, os dois davam a entender que, acima de tudo, os fins justificam os meios.
Jonas, Cícero, Thomas e outros colegas achavam que Bruno até pensava na empresa, enquanto Péricles parecia estar focado nos benefícios que ele, e apenas ele mesmo, poderia conquistar.
Após anos de competição sutilmente estimulada pelos proprietários, o que se traduziu em perda de cabelo, aumento de peso e desgaste emocional para os diretores, Péricles tem a esperança de, enfim, assumir o cargo máximo da empresa. Um dos acionistas, o doutor Cláudio, encontrou Péricles num café e comentou que, se for convocado, ele deve assumir o compromisso. Doutor Cláudio sorriu antes de seguir por um corredor e deixou Péricles com uma informação que pode ser tudo e também pode não ser nada.
Péricles não comentou sobre a situação em casa. Teme que, falando, algo dê errado. O plano é surpreender com a notícia confirmando o novo cargo. Por isso segue em silêncio. Mas está aflito e a aflição faz com que atravesse noites acordado. Dorme, no máximo, por alguns minutos. Vira de um lado pro outro na cama. A esposa, Miriam, pergunta se está tudo bem, ele diz que pode ser alguma coisa que comeu no almoço, ela sugere um remédio, Péricles responde que não precisa de nada, fecha os olhos e continua sem sono.
Começa a planejar o que fazer quando assumir a superintendência. Pretende, inicialmente, convocar a equipe para uma reunião. No discurso, vai anunciar as mudanças. A empresa terá outro ritmo em sua gestão. O Ricardo deixará o setor de logística para cuidar dos recursos humanos. A Paola assume a gerência de produção, enquanto o Tavares muda de cidade, para supervisionar os estoques do centro-oeste. O Miguel, o Borges, a Valentina e o Aguiar serão demitidos. Ainda não sabe o que fazer com o Thomáz, a Sofia e o Thiago. Pretende rever, reajustar e, dependendo do caso, diminuir alguns salários.
Péricles fica com a barriga pra cima, abre, fecha os olhos e acredita que a sua rotina será outra, diferente da atual, em pouco tempo. Não sabe quanto é o salário de superintendente. Dependendo do valor, a próxima viagem de férias com a família será para a Ásia.
Mas isso vai demorar alguns meses pra acontecer.
Antes, tem outras prioridades. A partir do momento em que sentar na cadeira da superintendência, compra um carro novo.
Está com a barriga pra baixo, suando e já tirou o cobertor de cima do corpo.
Péricles pretende fazer algo pra aliviar a ansiedade: correr na esteira, nadar ou tomar remédio. São tantas as providências que nem sabe qual é, realmente, a prioridade. Uma das metas é reformar a sala onde o Bruno trabalhou por anos. A cor das paredes, hoje azul, será branca, quer uma rede pra relaxar entre um compromisso e outro e, se não for exagero, pode até instalar uma banheira de hidromassagens.
Outro projeto de Péricles é, após receber o primeiro salário de superintendente, modificar a imagem. Está pensando em novas roupas, para o trabalho e para o fim de semana. Quer investir em tratamento de estética, cuidar da pele, das unhas, do que restou dos cabelos, da barba e toda semana aparar os pelos da orelha e a sobrancelha. Numa dessas, faz uma cirurgia plástica para remover o excesso de gordura da região abdominal.
Péricles vira de um lado pro outro na cama enquanto pensa se vai ter, ou não, tempo pra dar conta de todos os compromissos depois da mudança de cargo. Talvez tenha que dormir menos, mas isso já acontece.
Passa o dia bocejando, com vontade de deitar. Por recomendação de um colega, bebe café, chá e refrigerante para permanecer acordado. Mas continua sonolento durante as manhãs, e mais ainda à tarde.

Também tem a impressão de que está engordando, ainda mais.

Péricles sai da cama. Caminha até a sala, senta no sofá, onde fica por no máximo um minuto. Levanta e vai até a cozinha, abre a porta da geladeira, olha os produtos e não pega nada. Volta pra sala e, desta vez, deita no sofá. Olha o teto, fecha os olhos e tenta se concentrar, apenas, na respiração. Em menos de cinco minutos, já está no banheiro. Senta no vaso. Espera alguns minutos, mas não sai nada. Levanta e volta pro quarto.
Deita na cama, fecha os olhos e, após alguns minutos, de olhos abertos, volta pra sala. No corredor, tem uma ideia: se beber vinho, talvez relaxe. Vai até a cozinha, abre a porta de um balcão, onde guarda algumas garrafas de vinho e, então, repara na pimenteira.
Está seca. Completamente seca.
Tira a rolha de uma garrafa, despeja alguns mls de vinho numa taça e, ao beber, tem certeza de que é invejado pelos colegas. Ainda em pé, coloca mais vinho na taça e faz um brinde:
— Ao meu futuro! O cargo do Bruno será meu!
Após beber quase todo o vinho da garrafa, volta pro quarto. Estava com vontade de acordar a esposa e dizer pra ela que a pimenteira secou de vez pelo fato de ele ser invejado, muito invejado, pelos colegas. Mas Péricles deitou na cama e, imediatamente, dormiu.
E seguiria dormindo por horas, pela primeira vez desde que ambiciona a superintendência.

Miriam, a esposa de Péricles, acorda e lembra que gostaria de dizer ao marido que um especialista em botânica contou pra ela que a pimenteira deve ser exposta ao sol diariamente por quatro horas e, se receber água em excesso — Péricles insiste em regar todo dia –, a planta pode secar.
Mas ele estava dormindo e, por isso, ela ficou feliz, não o acordou e nem contaria o que aprendeu para manter viva aquela espécie de planta que — deve ser a quinta, sexta ou sétima vez que o marido compra — está morta na cozinha.


Conto publicado originalmente no meu livro Finalmente hoje, lançado em abril de 2015, pela Tulipas Negras.

Instant karma


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Poema de Manuel Bandeira publicado no livro Estrela da manhã (1936).

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