sexta-feira, 27 de maio de 2011

O legado tropicalista de Wilson Bueno



Wilson Bueno  tropicalizou Curitiba, o Paraná, o Brasil. Mais do que apenas um escritor, e ele foi – e é – um dos nomes de destaque da ficção contemporânea, esse sujeito irrequieto soube, como poucos, dialogar com autores e culturas variadas e ainda desenvolver uma linguagem radical.

“O que me consola é que não guardo esperanças com relação a tudo o que vai aqui registrado. Já o disse em algum logar, e o digo de novo, e senão o disse, digo-o pela primeira vez – assim que me enfade o passatempo chinfrim, pico isto tudo em pedacinhos e o fragmento do fragmento jamais dirá o que foram as partes e muito menos ainda o todo.”

O trecho, transcrito no parágrafo acima, está na página 21 de Amar-te a ti nem sei se com carícias (Planeta, 2004), obra na qual Bueno recria a dicção de Machado de Assis. O escritor paranaense conhecia a tradição. Poderia, como demonstrou em diversas oportunidades, reproduzir outras vozes marcantes do universo literário. De Machado a Guimarães Rosa, de Lewis Carroll a Franz Kafka: Bueno bebeu em muitas fontes, mas nunca se contentou em andar por caminhos percorridos anteriormente.

“Nessa história de preguiçosos, o mais interessante não são os preguiçosos, mormente do sexo masculino, mas uma preguiçosa ou para ser mais exato – uma deusa preguiçosa.” O fragmento foi retirado de A Copista de Kafka (Planeta, 2007), obra que pode ser lida como um livro de contos, uma novela ou até como um romance. Essa fluidez ou drible nos limites e definições dos gêneros literários é um dos pontos centrais da produção artística de Bueno. Entre a direita e a esquerda, ele optou pela terceira margem do rio. Ou, para ser mais claro, Bueno não queria explicar, e sim confundir.

Na realidade, o autor de Bolero´s Bar (Travessa dos Editores, 2007) queria mesmo era seduzir. Ele até flertou, mesmo que minimamente, com o discurso linear, mas a sua bossa era no desvio, no ziguezague, na curva e no aparente nonsense – aparente porque Bueno, mesmo com personagens animalescos, entre outros recursos inventivos, tratava desse assombro permanente que é a realidade.

O projeto literário de Bueno pode ser definido a partir do título de um livro de Roland Barthes: O prazer do texto. Isso mesmo. O ficcionista de Jaguapitã que se radicou em Curitiba buscava o som ainda não dito, mesmo que fosse para dizer o mais do mesmo. “Voar será sempre um exagero de predestinação, um acessório supérfluo, um luxo, e a notável convicção de que aí more – de vez – a poesia.” Ouviu? Escutou o canto de Bueno? Prosa mais do que refinada? Ou a mágica da poesia?

De desbunde em desbunde, Bueno caetaneou. O tropicalista paranaense soube colocar em prática o texto odara que Caetano Veloso canta em “O Quereres”: “Onde queres o ato, eu sou o espírito/ E onde queres ternura, eu sou tesão/ Onde queres o livre, decassílabo/ E onde buscas o anjo, sou mulher/ Onde queres prazer, sou o que dói/ E onde queres tortura, mansidão/ Onde queres um lar, revolução/ E onde queres bandido, sou herói.”

Quando o mundo exigia a linha reta, ele se assumia barroco. Se o obrigatório era o horário comercial, Bueno dormia para acordar diante do por do sol e, pela noite e madrugada acesa, tecer a ficção que, vista agora um ano depois de seu desaparecimento, evidencia uma profissão-de-fé segundo a qual a beleza, e somente ela, pode salvar o mundo.

Texto publicado na edição 116 da Revista Ideias, da Travessa dos Editores, já nas bancas. A foto, de divulgação, é de Walter Craveiro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Todas as cores de Minda-Au


O escritor Guido Viaro, que tem o mesmo nome de seu avô pintor (1897-1971, o autor da linda imagem de post), escreveu uma resenha, em feitio de texto de e-mail, sobre Minda-Au (Record). O que o Guido percebeu, sentiu e disse sobre o meu livro é de uma beleza que precisa ser compartilhada com todos vocês.

"Oi Marcio, li teu livro. Aqui vão algumas apreciações. Acho que os sete contos dialogam, e o livro chega a parecer um romance com sutis fios que os unem. Essa comunicação tem uma base comum, são os meios tons, os momentos de espera, a acidez estomacal, o tédio, o céu nublado... os tijolos que constróem o núcleo vivo da existência. Por isso o livro fala fundo. Sem apelar para clichês (fáceis quando confunde-se realidade com a realidade recriada), o livro sustenta a dúvida hamletiana do ser ou não ser. Vale à pena? Não será a vida uma sucessão de instantes tediosos sem qualquer sentido, e que sempre acaba da mesma forma? Ouvi essas perguntas enquanto lia. E não ouvi nenhuma resposta. A leitura agradável encobre camadas profundas de questionamento, e os leitores poderão optar por ir até onde lhes é confortável, ou possível. Tecnicamente gostei muito da pontuação, tanto da presença quanto da ausência, é mais um instrumento importante para tingir a tela com cores pasteis. Aliás, pensei muito em pintura enquanto lia, há algo da sutileza da aquarela em teu texto, sombras, e a liberdade de tintas que podem escorrer um pouco, e mesmo assim continuarão dizendo algo. No conto que fala de Porto Alegre, me lembrei do livro "O homem que dorme" do Georges Perec, o mesmo desapego, a mesma falta de horizonte e a mesma falta de respostas fáceis. No último conto, o mestre Jamil é pintado sem emoções baratas nem tentativas rasas de emocionar, acho que ele ficaria orgulhoso desse retrato. Parabéns, é um grande livro... e esse é só o começo... Guido."

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Minda-Au no Indústria & Comércio

A escritora Isabel Furini escreveu um texto sobre Minda-Au (Record), e o conteúdo foi publicado no jornal Indústria & Comércio, de Curitiba, confira:

Conheci Marcio Renato em 2006, quando ministrou uma palestra para a turma da Oficina de criação literária, que oriento no Solar do Rosário. Na época o Marcio havia escrito mais de 600 contos, porém ainda não queria publicá-los. Disse que esperaria até sentir que eles estivessem completamente aprimorados. Essa atitude é muito difícil de encontrar, pois nós escritores somos, geralmente, pessoas muito ansiosas e ainda com o agravante de termos compulsão por publicar. Nesse sentido, Marcio Renato dos Santos revelou uma paciência zen. Atualmente, ele já escreveu mais de 700 contos e decidiu publicar seu primeiro livro. Escolheu 7 trabalhos de seu arsenal, ou seja, 1% dos contos que escreveu, e dessa maneira nasceu a obra Minda-Au (Márcio Renato dos Santos, Ed. Record, 2010, 80 páginas).

O nome Minda-Au evoca um fato de sua vida, era uma criança de um pouco mais de um ano de idade, um dia, gatinhando pela casa, viu um quadro de um dromedário e falou: Minda-Au. Quando recebemos essa informação, o título do livro, a principio estranho, revela o seu valor. O ser humano antes de adquirir a linguagem materna tem sua própria linguagem. “Ninguém entende o que o nenê disse”, desesperam-se as mães. É isso. É a linguagem particular, a torre de Babel que separa os seres humanos. E se todo escritor procura a sua própria linguagem, sua própria voz, nada melhor do que Minda-Au para evocar esse orbe inteligível do eu, onde se misturam lembranças, imagens, sons, emoções, pensamentos, ideias, essa torrente que circula no mundo subjetivo de Marcio Renato dos Santos. Na minha opinião, quando o escritor intitulou Minda-Au ao seu primeiro livro, ele escolheu muito mais do que um título, escolheu ser fiel a si mesmo.

As histórias acontecem em Curitiba, cidade muito carismática, e um pouco desse carisma pula dos contos e apodera-se das retinas dos leitores.

Em “Teletransporte nº 2″, o personagem não sabe se está acordado ou sonhando, enquanto dirige um carro desgovernado. Renato disse que nesse trabalho fez “uma metáfora da própria vida, pois não temos controle sobre nossa trajetória no mundo”. E não temos mesmo! Talvez por isso os gregos imaginavam as Parcas tecendo a vida humana.

“A guitarra de Jerez”, um dos mais belos contos do livro, inicia com uma negação: “Nunca toquei a guitarra que está na sala do meu apartamento. Ninguém mexeu nela. As pessoas que me visitam não tiram os olhos. Músicos desejam manuseá-la. Crianças querem tocar. Não deixo.” (…)

As frases curtas marcam o ritmo, e esse “Não deixo” aguça a curiosidade do leitor. Por que ninguém pode tocar esse belo instrumento?

Marcio Renato dos Santos nos leva por caminhos sinuosos e inesperados. Esse é o primeiro livro de um experiente contista. Vale a pena conferir.

O link do texto: http://www.icnews.com.br/2011.05.11/negocios/livros-de-negocios/minda-au/