quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O Souza da Ilha

– Vai uma dose aí, patrão?
Antonio sorri.
– É a melhor batida da Ilha. Te deixa ligado, te deixa na pilha!
Antonio levanta a mão direita, faz sinal de positivo para o vendedor e diz:
– Quero uma.
O vendedor para o carrinho, pega uma garrafa de vodka, despeja por alguns segundos a bebida destilada dentro de um copo onde tem gelo, leite condensado, morango e uva e, em seguida, coloca o conteúdo dentro de um jarro acoplado a um liquidificador manual.
         Antonio recebe a batida em um copo de plástico, tira da carteira uma nota de dez reais e a entrega ao vendedor.
         – Desculpe perguntar, mas o seu nome, ou melhor, o seu sobrenome não é Silva?
         – Por que, doutor?
         – Não sou doutor. Pode me chamar de Antonio.
         – Eu sou o Souza.
         – Souza, isso mesmo. 
         – Por quê?
– Passei férias aqui na Ilha, faz tempo, e tenho a impressão de te conhecer.
– Eu vendo batida há uns 20 anos.
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         O projeto de Antonio era rever o cenário daquela que foi uma de suas, se não melhores, talvez mais suaves temporadas de descanso. Há dez ou quinze anos, alugou um imóvel de frente para o mar. Desta vez, conseguiu um apartamento no mesmo prédio, em outro andar e com vista ainda mais generosa para o oceano e para as montanhas ao redor do balneário.
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         – Vou em frente, seu Antonio.
         – Nos vemos, Souza.
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Naquela primeira estada, há dez, quinze anos (ou menos, não seria há cinco anos?), tudo foi bom, ótimo para Antonio, com exceção do contato com os nativos. Na Ilha, não tem indústria e o comércio é todo ligado ao turismo. Antonio era turista, com cartão de crédito, cheques e dinheiro pra gastar. Mesmo assim, foi hostilizado.
Ao chegar no prédio com a chave do apartamento, o síndico quase impediu a entrada de Antonio, alegando que ele deveria estar acompanhado de algum funcionário da imobiliária. Após meia hora de conversa, conseguiu descarregar a bagagem.
O caixa do mercado da esquina levantou, seguiu Antonio pelos corredores para saber o que ele procurava – era água com gás gelada, que estava em falta – e telefonou para a polícia denunciando a presença de um sujeito estranho no balneário. A pizzaria disputava com o costelão e com a lanchonete: meia hora de espera para o cliente receber o pedido e uma conta bem acima do custo real da refeição.
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Os quarenta graus na areia se apresentaram viáveis para Antonio. Embaixo de um guarda-sol, sentado em uma cadeia e a poucos passos do mar, era possível passar o dia. Havia oferta de tudo, bóias, camisetas, gelo e carne assada, frango, camarão, batata frita, cerveja, refrigerante, sorvete e salada de frutas.
Os ambulantes não se mostravam hostis e o vendedor mais popular, e bem-sucedido, era o Souza – o mesmo Souza que Antonio reencontra desta vez.
Souza oferecia doses de presente, cantava trecho das canções que faziam sucesso naquele verão (quais mesmo?) e apertava uma buzina.
– No dia dois de janeiro, vou estar aí, sentado, igual ao senhor.
Souza disse a frase, para Antonio, na véspera do Ano Novo da primeira temporada. O turista acabava de comprar uma caipirinha, olhou para o vendedor e parecia não entender nada.
– A Mega-Sena está acumulada. Joguei e acho que vou ganhar.
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Agora, dez, quinze anos depois daquele verão, Souza passa com o carro de bebidas mais uma vez por Antonio.
– Depois de amanhã quero estar de boa, sentado, igual ao senhor.
Antonio sorri.
– A Mega está acumulada. Dessa vez, eu ganho.

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Conto publicado originalmente na revista Ideias, fevereiro de 2014.


Exploradores do abismo

Cristiano Castilho enfrenta a descoberta do universo adulto a partir de um olhar que deixa de ser infantil. Mellissa R. Pitta problematiza a impossibilidade de existir. Daniel Zanella encara o medo de amar. Dédallo Neves flerta com a morte.
Castilho, Mellissa, Zanella e Dédallo sobrevoam as águas do abismo, respectivamente, nos contos “Alvorada”, “Da falta de existir”, “Noite em Antônio Maria” e “A morte crônica”
Apesar de produzirem individualmente os seus relatos inventivos a respeito do assombro que é viver, eles seguem juntos, ao lado de outros 12 autores, 16 ao todo, nas 136 páginas do Livro dos novos, coletânea de contos publicada pela Travessa dos Editores.
A obra, organizada por Adriana Sydor, reforça a tese: o Paraná é o Estado do conto – independentemente da vasta produção poética local, poucos (pouquíssimos) poetas são expressivos; romancistas nativos se impõem, mas ainda timidamente.
O Paraná, ou com mais precisão: Curitiba é reconhecida literariamente por causa da obra de quem? De Dalton Trevisan, o contista, lido e premiado na província, nacionalmente e também no exterior.
Do pioneiro Newton Sampaio (1913-1938) aos contemporâneos Jamil Snege (1939-2003), Manoel Carlos Karam (1947-2007) e Wilson Bueno (1949-2010), o conto – sobretudo por causa da obra do Vampiro de Curitiba – vingou no Paraná. Os recentíssimos Carlos Machado, Luci Collin e Assionara Souza seguem renovando o gênero.
O Livro dos novos, por sua vez, mostra – e prova – a força do conto ao abrir espaço para autores de 20 a 30 anos nascidos ou radicados no Paraná, muitos dos quais leitores de Sampaio, Snege, Karam, Bueno, Machado, Luci e Assionara. A maioria, seguramente, influenciada pela prosa do Dalton.
Um dos destaques da coletânea é Felipe Franco Munhoz. “No ringue de Hemingway” é tão bem escrito que pode sugerir que o texto se fez por si mesmo, tamanha é a habilidade de Munhoz, escritor que revela maturidade na escrita literária.
Renan Machado demonstra domínio narrativo em “Residência dos Passos”, conto no qual a tênue fronteira entre sonho e realidade se funde. Em “Como fumaça”, Rodrigo Araújo afronta o absurdo do politicamente correto com uma proposta literária que praticamente sugere o consumo do tabaco – fato que merece aplausos, não pela quase apologia ao tabagismo, mas por rir da caretice do nosso tempo.
Impressionante é a participação de Walter Bach. “Híbrida companhia” é um conto que destoa de todos os outros, principalmente por não seguir a cartilha do chamado texto bem escrito. Há um ziguezague narrativo, uma aparente falta de controle de quem narra, o que se traduz em frases incomuns e inventivas com as quais o autor trata do sobrenatural.
Os estreantes reunidos nesta antologia exploram o abismo por meio do conto e, devido à publicação – com projeto gráfico, impecável, assinado por Clarissa Martinez Menini –, se inserem no mapa literário. A coragem da Travessa dos Editores que, na contramão do mercado, investe e fomenta o conto, deve ser ressaltada, da mesma maneira que merece atenção o talento de Felipe Kryminice que, no conto “Trago”, ao invés de uma madeleine, tem no conhaque uma porta de acesso à memória rumo ao tempo perdido – momento memorável do Livro dos novos.


Serviço: Livro dos Novos. Organização: Adriana Sydor. Curitiba: Travessa dos Editores, 2013. 136 páginas. R$30. Avaliação: Ótimo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

De cenho franzido

O tão festejado e anunciado humor da realidade tupiniquim não está presente na prosa e na poesia produzida por autores brasileiros contemporâneos. O recurso, no entanto, aparece em textos literários, mas — atualmente — é quase uma exceção


Marcio Renato dos Santos


Apesar de o brasileiro ser considerado, ao menos pelo senso comum, um sujeito bem-humorado, o humor não é predominante na literatura brasileira contemporânea. Evidentemente que há humor em obras de autores em atividade, entre os quais se destacam Antonio Prata, Angélica Freitas, Dalton Trevisan, Ernani Ssó, Fabrício Carpinejar, João Ubaldo Ribeiro, José Roberto Torero, Luis Fernando Verissimo, Mario Prata, Reinaldo Moraes e Roberto Gomes. Mas eles são minoria — e não é exagero afirmar: são quase exceção.
Qual o motivo para esse fato?
Há algumas explicações. Ernani Ssó, escritor e tradutor, tem a sua tese. “Acho que, em geral, as pessoas são bem-humoradas, não só no Brasil. Basta conversar com qualquer uma num bar. O diabo é que, no momento em que a pessoa pega uma caneta ou senta diante de um teclado, baixa um santo tenebroso e ela já se imagina tomando chá na academia”, diz, referindo-se à Academia Brasileira de Letras e aos seus integrantes, conhecidos mais por atos solenes e atitudes sérias do que por quaisquer outras atividades.
José Roberto Torero observa que a maioria das pessoas considera o humor algo menor. Para comprovar o que diz, o escritor — autor de 30 livros — lembra que em qualquer lista de obras mais vendidas no Brasil não há livros de humor. “Há fábulas para adolescentes, livros de sexo, autoajuda e religião, mas raramente aparece algo bem-humorado. Uma pena”, lamenta Torero, autor de Papis et circenses, livro vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 na categoria contos — reeditado em 2013 pela Alfaguara, obra que problematiza — com humor — a trajetória dos papas.
Torero acredita que é possível tratar de qualquer assunto com humor. “Mas creio que uma nova geração [de escritores brasileiros] tenta se marcar como séria, e crê que isso se consegue abdicando do humor. Não me parece muito verdadeiro”, critica. No entendimento de Torero, ninguém é mais sério que Machado de Assis, Millôr Fernandes, Mário de Andrade e Luis Fernando Verissimo. “E os quatro têm textos muito engraçados.”
Ernani Ssó concorda com a argumentação de Torero. “Não há assunto que não possa ser visto com humor. Começando pela morte. Se a morte pode, por que não o resto, o amor, o sexo, a corrupção, a violência, a injustiça? Só precisa talento. Mais nada”, diz o sujeito que, recentemente, traduziu D. Quixote, de Cervantes. “O tema do Cervantes, o nosso desajuste com a realidade, digamos, é dos mais sérios, dos mais trágicos, e nos acompanha desde as cavernas e nos acompanhará na colonização de Marte. No entanto ele o encarou de modo jocoso, e seu romance continua de pé, depois de mais de quatrocentos anos, porque Cervantes foi o mais fundo possível e o fez de modo divertido”, afirma Ssó.


O riso é eterno, desde sempre
Se atualmente não há tanto humor nas obras de ficção e poesia do país, o professor de Literatura Brasileira e Teoria Literária da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Wilton José Marques afirma que o humor sempre esteve presente na literatura brasileira. O pioneiro foi Gregório de Matos Guerra, no século XVII. Desde então, outros autores utilizaram o recurso em suas obras, entre os quais Machado de Assis, Bernardo Guimarães, Manuel Antônio de Almeida, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Campos de Carvalho. “Acho importante reafirmar que os escritores brasileiros desde sempre recorreram ao humor, que, como se sabe, constitui-se num expediente fundamental de crítica social”, ressalta Marques.
O professor do curso de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Jacyntho Lins Brandão observa que, se for para levar em conta não apenas “textos para ler sozinho”, então há uma série de obras da produção dramática brasileira para incluir na lista, incluive o chamado “besteirol”. “Esse é um ponto interessante porque parece que o humor se presta mais a uma recepção compartilhada. É difícil imaginar um leitor, sozinho com seu livro, às gargalhadas, como acontece com o espectador de teatro ou mesmo do cinema. Então, talvez haja algo específico com relação ao humor que faz com que seja ele mais próprio e mais profícuo no gênero dramático”, opinião Brandão.
O escritor Roberto Gomes pondera que o humor, em obras literárias, nem sempre precisa provocar gargalhadas. “Muitas vezes [o humor] é amargo, ácido, mas lava a alma do leitor por exibir outras possibilidades, outras facetas, outras arrumações de palavras e frases, muitas brincadeiras com expressões consagradas. E, se pode ser impiedoso, tem compaixão pela tragédia humana”, afirma Gomes, autor, entre outros, do romance O conhecimento de Anatol Kraft. No entendimento dele, o humor parece ser certa ótica, uma torção nos olhares habituais sobre o mundo. “O humor desvenda, mas não desvenda de qualquer forma. Desvenda num nível elevado, pois tinha razão o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) ao dizer que para o humor ser possível é preciso que o sentimento dê lugar à inteligência”, acrescenta.

É difícil escrever com humor
Talvez não haja humor, em excesso, na prosa nem na poesia brasileira por uma simples razão: é difícil produzir literatura humorística de qualidade. A observação é do professor Jacyntho Lins Brandão, da UFMG. “Quando se fala de literatura, isso implica ter uma perspectiva de permanência, ou seja, não se trata de algo a ser consumido de momento e que tenha sentido só no calor da hora”, raciocina Brandão. O especialista cita os programas cômicos semanais exibidos na TV, que possuem caráter efêmero e eficaz, mas que funcionam, em sua maioria, para o consumo instantâneo. “Fazer humor sem essa vinculação tão imediata, ou seja, produzindo o riso com base num enredo e nos processos próprios da produção literária, parece ser algo mais complexo”, afirma.
Entre os escritores brasileiros contemporâneos, Brandão destaca Xico Sá e Reinaldo Moraes. O primeiro, na avaliação do professor da UFMG, segue a tendência dos escritores de humor que são jornalistas e fazem humor na forma de crônicas, apesar de ele ter publicado em 2013 o seu primeiro romance, Big Jato. Já Reinaldo Moraes elabora uma obra que, entre outras características, explora tudo de humorístico que há no sexo — isso pode ser conferido nos contos do livro Umidade (2005).
No entanto, o ponto alto da trajetória de Moraes é Pornopopéia (2009). Brandão faz uma observação a respeito do romance: “De Pornopopéia já se disse que é o nosso Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, contemporâneo. Esse livro de Moraes, sem dúvida, é um investimento de maior fôlego, que faz incursões intertextuais e, no fundo, não deixa de propor o que poderia ser uma epopeia brasileira para o século XXI.”
Em Pornopopéia, Moraes conseguiu, entre outros efeitos, fazer uma crítica ao excesso de consumo do tempo presente. O prosador tratou de um assunto denso sem perder a leveza. Isso vai ao encontro da definição de humor apresentada por José Roberto Torero: “Acho que é um modo de dessacralizar o tema e de criticar sem ser óbvio. Mas não acho que seja uma estratégia. É um modo de ver o mundo”. Antônio Marcos Vieira Sanseverino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, completa que o humor pode fazer com que o leitor abandone a “mesmice do mesmo”, deixando de olhar o próprio umbigo, para ver o mundo de uma perspectiva diferente. “O modo mais eficaz de fazer isso é rindo: de início, rindo dos outros; num estágio mais sofisticado, rindo de nós mesmos”, explica o professor da UFRGS.

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Matéria publicada na edição 31, de fevereiro de 2014, do Cândido, jornal mensal da Biblioteca Pública do Paraná. A ilustração é de Renato Faccini.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Uma nulidade da província

"Emiliano Perneta foi uma vítima da província, em vida e na morte. Em vida, a província não permitiu que fosse o grande poeta que podia ser, e na morte, o cultua como o poeta que não foi."
[...]
"Emiliano fez poesia, como se fez poesia naquele tempo, a fim de ser recitada nas sessões litero-musicais dos colégios em festa no dia da árvore."
[...]
"Como explicar, então, a admiração de tantos paranaenses, Santa Rita, Ermelino de Leão, Nestor Vítor, Andrade Muricy, Tasso da Silveira, Erasmo Pilotto, por um mau poeta? É que, poeta medíocre, Emiliano foi pessoa encantadora, personalidade imponente, conversador mágico."

"Emiliano", texto de Dalton Trevisan publicado no livro "Até você, Capitu?" (Porto Alegre: L&PM, 2013).

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Paranismo e balas Zequinha

"Resgatar a memória é isso: Emiliano, o nosso Rilke? Turin, o nosso Rodin? Dario, o Sócrates II nosso? Mossurunga, o nosso Beethoven? De Bona, o Miguelangelo nosso? Ufanismo paranista, o último refúgio dos colecionadores de figurinhas das balas Zequinha."
"Turin", página 37 do livro "Até você, Capitu?", de Dalton Trevisan. (L&PM: Porto Alegre: 2013)