sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Londrina

Em Londrina, na tarde de ontem, dia 29 de novembro, pouco antes do lançamento da revista Helena. Foto do Paulo Briguet.

Só no 603


         Walter abre os olhos, pula da cama. São três e vinte e sete. Ele pergunta por que essa mulher insiste em caminhar de salto alto? A esposa, Aline, espera alguns segundos e comenta, amor, não escutei nada.
         Escute, Aline. Escutou? Só ouço a sua voz, meu amor. Ei, Aline, preste atenção: a vizinha está batucando com os saltos, e acho que é provocação.
         Ele segue do quarto até a cozinha, pega o interfone, digita o número da portaria, diz oi, quem fala?, ah, tudo bom?, sim, aqui é o Walter, isso, isso mesmo, o do 603, é, quero fazer uma reclamação, não, não pode, agora, é que a vizinha, não, a do 703, é, isso, não, não, prefiro as morenas, não, é que ela não para de caminhar, isso, ela está fazendo barulho, o quê?, não, deve ser engano, tenho, certeza, claro que escutei, o quê?, você está brincando, o quê, ora, vá, vá trabalhar.
         Que foi, amor? Aline, o porteiro disse que a vizinha do 703 viajou. Eu não disse? O quê?, Aline, até você? Mas. Tive que xingar o sujeito. Walter, vem cá, esquece esse barulho. Esquecer?
         Vamos dormir, Walter. Eu levo a sério, Aline, é o meu direito de descansar. Eu sei, meu amor. Aquiles caminhou rumo à própria morte.
         O quê?
         É poesia, Aline, poesia. Mas a essa hora? E precisa marcar hora pra poesia? Vem cá, Walter. Por Agammêmnon, por Heitor, por Aquiles, vou à luta, contra tudo e, se for o caso, contra todos.
         Walter caminha pelo quarto enquanto Aline pede para ele deitar. Após citar Zeus, Ajax e outras personagens da mitologia grega durante trinta minutos, de um instante para outro, cede aos pedidos de Aline.
         Ei, escutou isso? O quê, amor? Essa voz. Qual? A que diz que eu sou um equivocado. Quem falou isso, Walter? Não sei. Você está passando bem, querido?
         Walter sai da cama.
         Ele segue, a correr, até a sala. Aline levanta e vai atrás do marido.
         Escuta, escuta, está ouvindo? O quê, meu amor? É o vizinho do 503. O quê? Ele ligou, escute, a furadeira. Furadeira? Não, acho que não é isso. O que está acontecendo? Já sei, ele está usando um martelo. Walter, eu não estou ouvindo nada. Nada? Meu amor, acho que você está cansado, muito cansado.
         E agora, Aline. Agora? É aquele sujeito do 602. O que ele fez? Está com alguma máquina ligada. Não ouço nenhum ruído, Walter.
         Já sei. Já sabe o quê, Walter? Você ainda não percebeu? Do que você está falando? Do fim do mundo. Fim do mundo? E o que mais poderia ser? Francamente, Walter, eu estava pensando que você está cansado, mas a situação é bem mais grave. É lógico que a situação é grave, Aline, estamos em dezembro de 2012. E o que que tem? O mundo acaba até o fim do mês.
         Ele tira a camiseta, a bermuda e a cueca. Aline olha, e começa a gritar. Ela vai até a cozinha, abre a porta, sai correndo pelo corredor vestindo camisola e desaparece na escada que dá acesso ao térreo. Walter está na sala, pelado, com desenhos no corpo feitos com caneta: várias bicicletas, imagens de selins, a frase sou cicloativista e liberal ativo, e um texto sobre as ruínas de Troia, na opinião dele, um espelho daquilo que dizem ser a sua, a nossa, a civilização do mundo contemporâneo.


Ficção publicada originalmente na revista Ideias, da Travessa dos Editores, dezembro de 2012.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Fabiano Zanin

Fabiola Mann

Fernanda Gimenez

Priscila Frehse

Andréia Costa

Ana Paula Bacchi

Marcelo Oliveira

Gabriel Della Latta

Alexandre Palma

Luciana Veiga

Flamenco no Museu

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Big bang



         Abro os olhos, meu corpo está na cama, o teto, ali em cima, e talvez o que eu sonhei tenha sido um sonho, apenas um sonho. Ontem não bebi, mas nos dias e noites anteriores, vinho misturado com cerveja fizeram eu perder a noção, agi sem controle e aqui estou.
         Ao acordar na quinta, ou foi na quarta? — ou ano passado?, pulei da cama e segui até o quarto onde fica o computador. Estava ligado e, em segundos, conferi o facebook. Não, eu não havia postado nada, nenhum comentário ofensivo, observações difamatórias nem calúnias em feitio de piada. Sentei na cadeira, suspirei.
         Semana passada, ou em agosto?, também acordei com a sensação de que eu havia feito alguma postagem que me traria problemas. Saí da cama e segui até o computador. Entrei no facebook e tinha mais de uma ofensa a um sujeito que considero pulha, outros comentários depreciativos a uma mulher com quem já tive alguma relação e mensagens agressivas direcionadas a pessoas e empresas.
         Até agora, nada. Ainda não sofri as consequências das palavras que soltei na internet, mas o que de fato me incomoda é um cheiro, do que será?, em minhas mãos. O que fiz?
         Deprimido eu não estava, talvez confuso, quem sabe, contrariado. Mais que tudo, com vontade de falar para uma repórter de televisão, ao vivo, que essas pessoas que seguem marchas, todos eles, ou a maioria, são uns ingênuos. Não. Otários. Isso mesmo, otários.
         Quase todos os que seguem marchas são otários por serem ingênuos e se deixarem enganar. Seja a da maconha, a das vadias, a da berinjela, a dos poetas sem poesia, a dos noiados a favor do contra, essas marchas têm a finalidade de promover um, dois, três, quatro sujeitos, os que as promovem e se autopromovem.
         Queria dizer na televisão, ao vivo, eu até gritaria, para esses ativistas pararem de marchar. Que cada um voltasse para a marcha dos invisíveis de todo dia, e só.
         Também gostaria de mandar um recado para os chatos que fizeram da bicicleta uma causa — evidentemente para a autopromoção. Deixem as bicicletas em paz. Bicicleta é uma bicicleta é uma bicicleta é apenas uma bicicleta. Vão ler, ouvir música, ler outra vez, fazer música, escrever, andar de pedalinho, ler de novo, raspem os bigodes, não façam nada, leiam, tomem banho, lavem suas roupas, troquem as calcinhas e parem de tentar fazer da bicicleta um tanque de guerra.
         Ainda não falei nada disso até agora. Mas fiz outra coisa. Será que fiz mesmo?
         De substâncias que podem sofrer processo de explosão liberando gás, pressão e calor em curto espaço de tempo não conheço nada. Já transei estalinho, e só. No que diz respeito à pólvora, o meu limite são os traques, esses de palito de madeira, estopim, parafina, enxofre e papel kraft.
         Mas era sonho, ou não?, e eu estava na Rua XV, quase na Boca Maldita. Um aparelho similar a um controle remoto nas mãos, aperto o botão e bum, bam, pum, pam, não lembro do som, nem se alguém morreu, se houve feridos — polícia, bombeiros, pessoas a seguir na direção do prédio que desabou. A setecentos metros, pouca gente na rua e pude estacionar a van em frente à última joalheria que permaneceu no centro, não carreguei tudo, nem foi necessário.
           Meu nome, agora, é Philip, os preços estão ótimos aqui na França e talvez eu faça uma visita a Curitiba, por que não?, se o sonho não terminar, mesmo com esse cheiro, de pólvora?, e a sensação de que, daqui a pouco, haverá outra explosão.

Ficção publicada na página 59 da edição de novembro de 2012 da revista Ideias, da Travessa dos Editores.