segunda-feira, 30 de julho de 2012

Travessa dos Editores publica livro poesia de Wellington Bujokas


A Travessa dos Editores publica o primeiro livro de poesia de Wellington Bujokas. Trata-se de Estudos. O lançamento acontece dia 7 de agosto no Museu Guido Viaro, em Curitiba.

Estudos é formado por três poemas e resulta do esforço de aprendizado sobre como criar e organizar um mundo caótico. Na opinião do autor, seus três poemas "são uma tentativa de manejar estruturas com as quais me complicava e de tratar assuntos que eu não me julgava apto a tratar; e mais do que isso, fundir tudo numa coisa só que procurasse razão de existir”. Essa busca pelo existente sem limites metodológicos ou doutrinários, mas apenas aqueles que o autor, desconfiado de si mesmo, se impõe, revela a posição única de liberdade do poeta em seu desafio de ler o mundo. Talvez por isso o professor da UFPR João Arthur Pugsley Grahl observe que "como os poetas continuam na frente de filósofos, cientistas, políticos e religiosos no quesito de como interpretar o mundo".

O primeiro estudo busca constância, estabilidade, com economia de meios – por isso, é o mais longo. É um ensaio sobre um estado de quase transe, em que concatenações imagéticas e sonoras se desenvolvem sem sentido preciso, como um “cluster” de sensações desconexas. O poema em si tem um ritmo monótono, mas o autor destaca que o imaginou acelerado, como uma Salve Rainha à maneira rezada por beatas na igreja.

Essa tendência a extrapolar o fôlego, característica que o autor encontrou na mesma época em vários dos sobre-humanos poemas de Marianne Moore, parece reforçar a sensação de transe e acabou sendo de grande importância para a concepção do segundo estudo.

Por último, no terceiro estudo, Bujokas não buscou expressar algo por meio dele, mas trazer uma forma-expressão, em que o poema não exatamente dissesse algo, mas exalasse sensações, expressões. “Evidentemente, não levei essa obsessão pela pureza abstrata tão longe, até porque ela se tornaria produto didático, longe do interesse sujo e cinzento que eu tinha”, completa.

Perfil

Nascido em Itararé, no interior de São Paulo, em 9 de dezembro de 1982, Wellington Bujokas é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPR, mas nunca se rendeu aos ofícios da profissão. Desde 2009 segue a carreira diplomática e hoje trabalha na Embaixada do Brasil em Astana, no Cazaquistão.

Serviço
Lançamento de Estudos, por Wellington Bujokas
Data: 07 de agosto de 2012
Local: Museu Guido Viaro
- Rua XV de Novembro, 1348 (esquina com General Carneiro)
Horário: 20h
Estacionamento grátis ao lado

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A day in the life

Participo da coletânea O livro branco, projeto no qual autores brasileiros escreveram contos a partir de alguma canção dos Beatles. Há mais de 1 ano, o Henrique Rodrigues me convidou. Tive a oportunidade de escolher A day in the life, a música que mais gosto da banda - a última do Sgt. Pepper's. Sai pela Record, com distribuição nacional. Em Curitiba, o lançamento terá show inédito, além do bate-papo. Em breve.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Promoção

O Gonçalves me leva até onde preciso entregar documentos. É a minha primeira semana no emprego, uma canção de uma banda inglesa toca no rádio e não trocamos palavras.
Passamos em frente a uma capela funerária, há coroas, pessoas, um caixão, e o Gonçalves diz:
– Esse foi promovido.
Os colegas evitam o Gonçalves, não posso fazer o mesmo: dependo dele para levar e trazer papeis, entregar, retirar e transportar encomendas.
Entro no automóvel, ele pergunta se conheço o França, sujeito da cidade que ganhou sozinho na Mega-Sena, digo que sim, ele ri, e comenta:
– Foi promovido.
O fato de eu demonstrar eficiência ao realizar tarefas e, mais que tudo, me relacionar sem atrito com os colaboradores, incluindo o Gonçalves, viabilizou minha ascensão na empresa. Mudei de cargo, o salário se multiplicou. Não divulguei essas informações, nem foi necessário. O meu figurino mais sofisticado do que quando fui admitido e a minha presença ao lado dos diretores devem ter chamado a atenção. O Gonçalves fez um comentário:
– Será que você ganhou uma promoção? Ainda não, mas acho que.
Durante os trajetos para levar e buscar documentos ou assinaturas, o Gonçalves seguia, na maior parte do tempo, em silêncio e com o rádio ligado a ouvir notícias. Se o locutor anunciava a morte de alguma personalidade, ele sorria, olhava pra mim, e gritava:
– Mais um que foi promovido.
O começo da semana anima o Gonçalves. Ele chega na empresa antes das sete e já sabe o número de óbitos e as manchetes dos jornais que vendem homicídio, acidentes de trânsito, furtos e roubos. Sorri, e diz:
– Teve muita promoção sábado e domingo.
O Gonçalves dirige o automóvel, olha pra mim, e pergunta:
– Quando vai sair a sua promoção?
Gargalha. Vamos em silêncio por cinco, seis, sete quadras, e ele fala:
– Eu sou o Gonçalaço, o rei dos palhaços.
Sigo a conviver com o Gonçalves por alguns anos, até que surge uma oportunidade, um salário melhor, e deixo a empresa.
Emagreci, surgiram fio brancos, casei, descasei, casei outra vez, recuperei quilos, quase os mesmos que eu tinha no período em que convivia com o Gonçalves. O acaso ou, com mais precisão, uma necessidade profissional fez com que eu voltasse até aquela empresa. Antes de me despedir, contei ao funcionário com que fiz a transação, o Michel, que há mais de uma década eu trabalhei ali.
– E, o Gonçalves?
Saí daquela empresa e não lembro para onde fui em seguida. O Michel me contou que o Gonçalves morreu há dois meses, imediatamente após se aposentar.
– Foi, enfim, promovido.
Lembro de uma única vez em que o Gonçalves contou algo a respeito de si, eu perguntei desde quando ele estava na empresa, naquele instante estávamos em frente a uma loja, ele pediu para eu pronunciar o nome, Gonçalves Móveis, é da minha família, ele disse, você é sócio?, briguei foi a resposta.
Durante uma festa de fim de ano daquela empresa, um colega, o Adilson, comentou que o Gonçalves enfrentava dificuldades financeiras, não tinha amigos e era doente.
– O Gonçalves é obcecado pela morte por que não tem vida.
A tese do Adilson pode ter alguma coerência, mas, pra mim, não dá conta de explicar o Gonçalves e a sua obsessão.
Por que lembrei disso? Estou sozinho em casa, bebo um café, e tive a impressão de escutar aquela gargalhada que surgia após o Gonçalves dizer:
– Um dia todos recebem a sua promoção.

Ficção publicada na edição julho-2012 da revista Ideias, com ilustração de Marciel Conrado.