terça-feira, 22 de maio de 2018

Um episódio na ex-quinta comarca



         O Coronel passa ao lado de Moe, Larry e Curly, e nenhum deles diz oi, bom dia ou como vai? Eles talvez nem tenham percebido a presença do Coronel que, há onze anos, saiu de cena. Perdeu trinta quilos e parte do cabelo. Hoje, ele usa tênis de corrida, calça jeans, camiseta e um casaco preto. Anteriormente, paletó e sapatos italianos eram o uniforme do Coronel, pelo menos no ambiente de trabalho. Mas as sobrancelhas pretas, os olhos verdes e o olhar, atento, são os mesmos do sujeito que, anteriormente, distribuía ordens, dinheiro, determinava o presente, reescrevia o passado e inventou o futuro para a Tulipas Negras, empresa que seu pai fundou e que ele, Coronel, transformou em um empreendimento lucrativo.
         Se Moe, Larry e Curly não perceberam a presença do Coronel, ele observou com atenção o trio. Ao caminhar por uma rua com pouco movimento, o Coronel analisa que os três envelheceram, mas fisicamente não mudaram tanto desde o tempo em que ele frequentava a empresa. Nos últimos quatro, cinco anos, o Coronel acompanhou as postagens deles no Facebook e, mesmo que por meio de uma análise superficial, não encontrou tantas diferenças entre o que Moe, Larry e Curly demonstravam ser e o que ainda querem demonstrar que são via internet: consumidores de tendência, de produtos eletrônicos à gastronomia.
         Apesar de serem o que são, esses três sujeitos podem ser úteis ao Coronel. Ele está em busca de uma oportunidade para rever Rosa. O Coronel e Rosa foram casados e, desde que ele desapareceu, nunca mais viu a mulher, a não ser por meio de fotos publicadas em jornais e revistas. O Coronel já nem lembra de que maneira ficou sabendo que Rosa casou com um sujeito chamado Gerraud. Em seguida, o novo marido começou a trabalhar na Tulipas Negras. Já Moe, Larry e Curly foram promovidos, de gerentes, a sócios.
         O Coronel está na praça Mez da Grippe e tem a sensação de ter entrado em um set de filmagem do neo-realismo italiano. Há dezenas de miseráveis. Na última vez em que esteve no local, havia poucos mendigos. Agora, o Coronel caminha e não sabe de onde surgiram tantas pessoas mal vestidas, sujas e que estendem as mãos pedindo ajuda. 
           É necessário seguir, ainda, por quatro quadras até o escritório do advogado Deville.
         O Coronel vai caminhando, passou apenas a primeira quadra e já foi abordado por três ou quatro pessoas. Há cheiro de urina e fezes na região. Mendigos estão deitados em portas fechadas, onde anteriormente funcionavam lojas que vendiam discos, livros, canetas, jóias, perfumes e outros produtos. Há pessoas deitadas, enroladas em cobertores, nos pontos de ônibus. Vendedores ambulantes, de comida e de roupas, também ocupam parte das calçadas, onde ciclistas disputam o fluxo com pedestres, entre os quais, o Coronel.
         Uma nova cidade se sobrepôs àquela em que ele nasceu e cresceu. Na principal avenida, quase só tem farmácias, igrejas e pontos que comercializam produtos chineses e comida feita para ser consumida rapidamente em troca de poucos reais.
         Mas tudo se transforma, até onde o Coronel passou os últimos onze anos. A vila de pescadores tinha quase duzentos habitantes quando ele chegou e mais de cinco mil pessoas já superlotavam o local nos últimos dias antes do Coronel retornar à cidade. Aqui mesmo, por onde ele anda agora, havia transformações operadas sutilmente, mas de efeito irreversível. Casas e prédios demolidos, empresas aparentemente eternas encerraram as atividades, pessoas que o Coronel imaginava que continuariam na cidade por tempo indeterminado, elas também saíram de cena. Só a chuva, a garoa e o cinza no céu na maior parte do ano continuaram e continuam, hoje inclusive.
         Falta uma quadra para o Coronel chegar ao escritório do advogado Deville e a proximidade representa alívio. O trajeto foi tenso. Ele teve a impressão de que seis ou sete sujeitos quase o assaltaram. Quase porque o Coronel fechou a cara, os punhos e, em uma situação, levantou o casaco, revelando que está com uma pistola.
          O Coronel agendou reunião com Deville, mas usou outro nome, Ulisses, como se fosse um novo cliente em busca de assessoria jurídica. Ao entrar na sala de Deville, o Coronel pergunta como vai?, e o advogado responde tudo bem. Após comentários sobre o tempo, a impossibilidade de caminhar relaxado pelas ruas e algumas notícias divulgadas recentemente, como reformas e protestos, eles ficam em silêncio por alguns segundos.
         — Você ainda não me reconheceu?
         — Desculpe.
         — Deville, não acredito!
         — Ulisses, o seu nome não me é estranho.
         — Meu nome não é Ulisses.
         — Não?
         — Não.
         — Mas aqui está escrito.
         — Não vale o que está escrito.
         — Como?
         — Deville, sou eu.
         — Não...
         — Sou eu.
         — Eu?
         — O Coronel.
         Inicialmente, o advogado diz não acreditar, mas o Coronel cita informações sobre a Tulipas Negras, mencionando processos para os quais Deville foi contratado, entre outros fatos em que ambos estiveram envolvidos.
         — Deville, você tem notícias da Rosa?
         — Tenho.
         — Como ela está?
         — Encantadora, como sempre esteve.
         O Coronel fica em silêncio, Deville também. Por alguns minutos, os dois permanecem sem emitir nenhuma palavra, mas se observam, até que o celular do advogado toca, ele olha o visor e deixa o aparelho em cima da mesa.
         — Exatamente, o que você quer?
         — Bom...
         — Coronel, ainda não sei o que você pretende.
         — Se eu te disser, talvez você não acredite.
         — Tente.
         — Ainda não sei exatamente o que eu quero.
         — Não?
         — Não.
         — Neste caso, não posso ajudar.
         O Coronel comenta que gostaria de retomar a própria vida, a empresa e o casamento. O advogado diz que, depois que ele desapareceu, quase tudo mudou. Deville salienta que a esposa do Coronel sofreu com a ausência do marido em um primeiro momento, mas então Gerraud entrou em cena, consolou Rosa e, em seguida, eles casaram.
         Deville também conta que continua trabalhando para a Tulipas Negras e que, já faz algum tempo, o nome do Coronel não é mais envolvido em nenhuma operação. O Coronel olha para o advogado que, lentamente, diz que Gerraud é o todo-poderoso, mas quem aparece à frente do negócio são três funcionários, Moe, Larry e Curly, sócios ou supostos sócios da Tulipas.
         O Coronel repete que pretende retomar a empresa e o casamento com Rosa, e Deville diz que o desejo do amigo não é algo simples de ser realizado.
         — Vou até o fim.
         — Coronel, você desapareceu e tem gente que te considera morto.
         — Mas eu estou aqui, porra.
         — Tudo bem, mas a Rosa e a Tulipas Negras, vamos dizer, se reinventaram na sua ausência.
         — Mas elas são minhas.
         — As coisas mudaram, meu amigo.
         — Deville, deixe eu te dizer uma coisa.
         — Por favor.
         — Faço acordo até com o diabo, se for necessário.
         — Pra quê?
         — Pra retomar o que é meu.
        

        Deville olha um quadro em que há uma figuração abstrata, atrás do qual tem uma câmera e um microfone captando  imagem e som. Ele pisca o olho direito. A algumas quadras dali, Gerraud, Rosa, Moe, Larry, Curly e outros funcionários da Tulipas Negras acompanham a conversa entre o advogado e o Coronel.
         O Coronel diz que gostaria de fazer uma proposta, Deville pergunta se ele quer beber algo, vinho, uísque, café ou refrigerante, mas o Coronel agradece e recusa.
         — Proponho o teste do arco tenso.
         — O quê?
         — Tenho um arco, que a Rosa ainda deve guardar.
         — E o que isso...
         — Deville, somente eu sabia manejar o arco.
         — E o que você está sugerindo?
         — Um desafio.
         — Com quem?
         — Com o Gerraud.
         — Qual o objetivo?
       — Quem conseguir manejar o arco, fica com a Rosa. E com a Tulipas Negras.
        Deville recebe uma mensagem no celular, confere o conteúdo e pede licença, precisa sair e, de fato, sai. Um sujeito que está no corredor, o Angel, entra no escritório e fecha a porta. O Coronel sorri, Angel também e, sorrindo, puxa uma pistola, que estava escondida dentro do sobretudo.
         — Isso é pra você.
         Angel disse a frase antes de disparar um tiro na cabeça e outro no coração do Coronel, que começa a cair da cadeira, com uma das mãos na pistola que estava escondida embaixo do casaco e, a partir de então, daqui a no máximo sete horas, ele vai desaparecer — para sempre, para nunca mais.


Conto publicado originalmente em A certeza das coisas impossíveis [Tulipas Negras, 2018], meu sétimo livro de narrativas.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A certeza das coisas impossíveis por apenas R$ 23,75 na Americanas

Meu sétimo livro de contos, A certeza das coisas impossíveis [Tulipas Negras, 2018], em oferta na Americanas. Só R$ 23,75. Compre.

sábado, 19 de maio de 2018

A certeza das coisas impossíveis na Prateleira do Rascunho 217, maio de 2018


A certeza das coisas impossíveis (Tulipas Negras, 2018), meu sétimo livro de contos, está na Prateleira do Rascunho 217, de maio de 2018.

Em seu sétimo livro de contos, Marcio Renato dos Santos elabora 11 ágeis narrativas que partem de situações banais para evidenciar o absurdo do ser humano, valendo-se de um humor peculiar para aplacar a melancolia sutil das histórias, criando personagens singulares, cada qual com suas obsessões — como a publicitária feminista Helô e seu contratante hipocondríaco e pervertido, Gerson, ou a breve empreitada sexual/existencialista de uma Penélope moderna, que, se entrou para a história como a mítica esposa do herói grego Ulisses, aparece aqui como uma predadora sexual tentando mudar de vida.

Deus é mulher