quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

De volta ao Malecón


Após dezessete anos retorno ao Malecón. Meus cabelos se movem, pelos do meu corpo estão arrepiados. Poderia dizer que um imenso ventilador funciona permanentemente, mas sei que é a brisa do Malecón, única, ininterrupta, inesquecível. Tanto tempo longe e nunca deixei de pensar neste balneário. Por despeito, tontería, duas, três, quatro, cinco, nem sei mais quantas paixões e alguns sustos, passei dezessete verões em outros endereços: San Blás, Puerto de Gallinas, Bombas, Maresias, tantos mares, pousadas e estrelas. De agora em diante nada, ou melhor, até tem o que me leve para outra beira de mar, mas vou me entregar toda, por inteira e com exclusividade aos mistérios da água salgada, da areia, das canções, do vento e do que pode acontecer, e acontece, neste remoto ajuntamento de guarás, pájaros rojos, minha, nossa, única, Guaratuba.

Guaratuba, ai! Aproveitei a juventude, mas perdi a tramontana. Não me arrependo de nada, até porque não há espaço nem tempo para me arrepender. Fiz e quero fazer mais. Pretendo transar todas as ondas dessa praia, dessa vida, quanta sede eu sinto. Também sou sedenta por imagens. Demorei mas vi Aquarius e a Sônia Braga continua um furacão – desde sempre, desde a primeira vez que enxerguei aquela mulher, aqueles olhos negros. Faz tempo, parece que foi semana passada, mas já passaram dias, anos, Dona Flor e seus dois maridosA dama do lotaçãoGabriela, cravo e canelaO beijo da mulher-aranhaTieta do agreste, quantos filmes. Sônia Braga é beleza, dignidade, força e coragem. As personagens que interpreta acho que são como ela é, corajosa, forte, digna, linda, belíssima. Sônia Braga conhece Guaratuba? Se não, algum bofe poderia convidar a deusa pra dar um rolê por aqui.

É tão bom dar um rolê no Malecón. Já dei tanto aqui, rolei e me enrolei com tanto bofe, bofe civil, militar, pescador, motorista, bofe cozinheiro, garçom, médico, dentista, bofe vagau, da universidade, da maçonaria, da umbanda e até com bofinho cultural me envolvi, mas esses, os bofinhos culturais, é indiscrição mas vou dizer: não dão no couro. Gosto dos brutos, dos fortes, não dos fofos nem dos molinhos não.

Caminho no Malecón e, sei lá, pode ser um cheiro ou a temperatura, está quente, quase quarenta graus, suo e enfim, tudo isso ou nada, quem sabe não é externo mas algo interno, alguma coisa acende e faz lembrar um bofe que me fez muito feliz. Era um danado que gostava de uma canção do Fito Paez e a cantava pra mim: “Te vi/ Juntabas margaritas Del mantel/ Ya sé que te traté bastante mal/ No sé si eras un ángel o un rubí/ O simplemente te vi”.

Ai, Nonô, Nonis, Noninho querido. Doeu, foi bom, não durou. Faz tempo e não deixo de lembrar nossos dias, noites, madrugadas acesas em Guaratuba. O mel do Nonô me envenenou, eu estava enfeitiçada, fazia tudo o que ele pedia. Nunca uma temporada de chuva rendeu como aqueles trinta dias de junho e outros de julho.

Não posso mais escutar nenhuma do Fito Paez que meu pensamento é dominado pela imagem do Nonô. Outro dia relaxava em frente à tevê quando passou um comercial da Avianca. A trilha era uma canção do Fito, “Dar es dar”. Tão lindo aquilo, chorei. Modelos infantis simulando trabalhar na companhia aérea. Mas o que me desestruturou foi a melodia e, em especial, a letra da canção: “Cuando el mundo te pregunta/ del por qué, por qué, por qué, por qué,/ por qué das vueltas la rueda/ por qué no te detenés,/ yo te digo que dar es dar”.

Dar é tão bom, me dei tanto ao Nonô e a outros bofes e, por falar nisso, os bofes estão cada vez melhores. Será que é a água? Não sei o que é, mas acredito em aperfeiçoamento dos bofes. Tenho experiência, sei o que estou falando. Eles estão maravilhosos. Cada nova geração supera a anterior, em tudo. Delícia. Ah, o verão promete. Chega verão! Que venga el toro! Pero que venga em forma del bofe!

Queria ter um pouco de paz, um dia que fosse, e paz seria não desejar, nada de desejo, nada de bofe, nem em pensamento. Mas alguma coisa aqui dentro me faz desejar. Será que é veneno? Fui envenenada ao nascer? Ou isso é o inferno? Um anjo torto pode ter dito ao me ver pequenina: vai, Mara!, ser escrava do desejo por toda a vida. Não sei se um anjo disse isso, sei que o desejo vive em mim. Ou é apenas praga de madrinha, mau olhado da vizinhança ou mala suerte? Desgracia!

Cada um carrega uma cruz. Às vezes tenho a sensação de carregar mais de uma. Mas não me queixo. Até que é bom. Um bofe do Recife me definiu como a mulher com olhos de sinal aberto. Não sei se entendi, mas que é bonito, é: mulher com olhos de sinal aberto.

Seguir o impulso e fluir aberta para as coisas da vida. Assim construí minha trajetória. Às vezes tenho a sensação de que sigo, todos seguimos, um enredo escrito previamente. Olho para a palma da minha mão, tantos riscos, um traçado curioso, dá a impressão de que tudo o que fiz, faço e farei está ali. Suerte y mala suerte. Acho que tudo já foi traçado porque às vezes ao comer, beber ou durante algum momento, sei que iria estar aqui, ali, independentemente de minha vontade. No puedo explicar, sólo se. Quando Deus quer até o diabo ajuda. Sou personagem de uma cena e, sem ensaio, conheço as falas. Maktub! Acerto o desfecho de quase todos os enredos, até quando dá ruim eu acerto, né não?

Hoje eu sabia que algo ruim iria acontecer, se bem que todo dia acontece alguma coisa que pode prejudicar alguém. Mas ao acordar tive a impressão, num abrir e fechar de olhos, como se recebesse uma mensagem sabe-se lá de onde, de que algum fato me faria mal, só não fui informada o que seria. E acho que essa adversidade chegou. Mierda! Minha cabeça está doendo. Me cago em la leche! Foi só seguir distraída pelo Malecón que os raios do sol já queimaram, sem eu perceber, meu couro cabeludo. No jodas! Até olhei para o meu chapéu, ele estava no cabide, praticamente me olhando, mas nem dei bola, saí solta, sem proteção. Que putada! Isso vai trazer desconforto pra dormir.

Mas, sabe, sempre que acontece uma contrariedade é sinal de que, em seguida, vai pintar um novo bofe. Sempre foi assim, nunca falhou, seja quando dei topada com o minguinho, ao quebrar uma unha, se um avião decolou sem me levar ou um ônibus partiu e me deixou no ponto. Estou com o couro cabeludo queimado e, tenho fé, um bofe vai surgir. Só não sei quando, onde nem como. Preciso me distrair, esquecer até a dor que me incomoda. Relaxada, tudo pode mudar. Azar de dia, sorte no amor à noite.

Ainda faltam algumas horas pra anoitecer, talvez eu devesse descansar meu corpo. Mas estou sem sono, dificilmente vou dormir e o meu couro cabeludo está doendo. Vejo o Morro do Cristo e hesito. Faz décadas que pisei pela primeira vez aqui e nunca estive no Cristo. Já disseram que a vista é linda lá em cima, talvez eu devesse enfrentar as escadas, mas estou bem aqui no Malecón. Malecón é tudo, daqui não saio, daqui ninguém me tira, ou melhor, só um bofe pra me tirar daqui e estou sentindo que a noite vai trazer um novo bofe. La noche venga y traga un bofe. Ole!


Narrativa publicada em A certeza das coisas impossíveis (Tulipas Negras, 2018), o meu sétimo livro de contos.

Aluga-se


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A noite está velha

Claudio desce as escadas do Bar Bashô e no palco uma figura com bigode diz:

– Berinjelas/ voam/ pelas janelas.

Mais de cinquenta pessoas aplaudem. Os gritos podem ser ouvidos na rua, onde um sujeito parecido com o Ignatius J. O'Reilly vende cachorro quente.

O concurso semanal de imitadores do Paulo Leminski reúne dezenas de pessoas. Em algumas noites mais de cem lotam o espaço subterrâneo onde é possível beber vinho, consumir sopa e flertar.

– Ananias/ come até mesmo/ melancias.

Palmas para a performance verbal de outro sujeito com bigode, que pula do palco, pisa em cima de uma mesa e desaparece.

Claudio pede uma Serra Malte, bebe dois goles, olha ao redor e se dá conta de que no Bar Bashô todos usam bigode, até as mulheres.

Uma mulher está com o microfone nas mãos, mas ela não declama:

– Agora é a segunda fase. Não basta declamar. É necessário dar provas multimídias, transar duas ou mais artes ao mesmo tempo. Let's go.

Aplausos.

A maior parte do público começa a gritar:

– Paco, Paco, Paco.

Fãs do Leminski entram, saem de cena, e a performance com mais duração, que parece não ter fim, é a de Paco.

Entra no palco gritando nhoque, queijo, rolmops, churras, churros, alcaparras. Em uma das mãos, um frango assado, que o artista devora em pouco mais de um minuto.

Aplausos.

Paco sorri, e as luzes mostram que a sua barba está ensopada de gordura, além de restos de comida.

Faz polichinelos. Aplausos. Para. Aplausos. Liga um aparelho de som e canta uma canção em que faz referência à comida. Aplausos. Gesticula como se fosse um rapper. Aplausos.

Claudio está na terceira Serra Malte e não sabe se Paco faz menção ao Leminski ou parodia com nonsense O Artista da Fome, do Kafka.

– Se bobear, como até rolha/ misturada com kiwi/ em meio a plástico bolha.

O público aplaude e Paco sai de cena carregado.

A ficha de consumação de Claudio tinha anotadas 5 Serra Maltes quando ele subiu ao palco. Se era pelo fato de não ter bigode ou devido a sua estreia no porão do Bar Bashô, ele não sabia o motivo, mas houve estranhamento traduzido em silêncio.

– Boa noite.

Silêncio.

– Amar-te a ti nem sei se com carícias.

Ninguém se manifesta após Claudio declamar a frase.

– Viver é prejudicial à saúde.

Silêncio.

Claudio escuta ruídos, e tem a impressão de que alguém vaiou.

– Comendo bolacha maria no dia de são nunca.

Após verbalizar a palavra nunca, Claudio escuta, de fato, uma vaia.

O ruído aumenta.

Ele retira-se do palco sem olhar para trás, segue por uma das portas que dá acesso à lateral do porão, conversa com os seguranças e, antes de sair do Bashô, percebe que dezenas de sujeitos com bigode que estavam no concurso semanal de imitadores do Paulo Leminski caminham em sua direção.

Claudio aproxima-se do Ignatius J. O'Reilly, e diz:

– Acho que estou encrencado.

Ignatius J. O'Reilly, ou o sujeito que se parece com o Ignatius J. O'Reilly, termina de mastigar um pedaço de cachorro quente, e pergunta:

– Qual o problema?

Os cinquenta, ou mais, sujeitos com bigode saem do Bar Bashô e um deles vê Claudio ao lado do carrinho de cachorro quente:

– Olhe ali.

Ninguém tem certeza sobre o que aconteceu. A versão da dona do Bashô é diferente do que foi relatado por um oficial da polícia. Miguel Bakun, vizinho do bar, conta que Ignatius J. O'Reilly defendeu um sujeito sem bigode de uns cinqüenta ou mais bigodudos. “O homem que vende cachorro quente bateu com as suas patas em alguns frequentadores do bar, mas ninguém saiu ferido”, repete Bakun em entrevistas.

Em meio ao confronto, Ignatius J. O'Reilly abre uma lata de salsichas e joga o conteúdo em cima dos bigodudos. Os frequentadores do concurso semanal de imitadores do Paulo Leminski começam a comer as salsichas, que eles chamam de vina, mesmo as que estão na calçada.

– Estão com os bigodes encharcados de vina.         

Quem disse a frase foi Ignatius, convidando Claudio para seguir em direção ao centro da cidade. No caminho, o vendedor de cachorro quente afirmou, mais de uma vez, para Claudio:

– Você é o verdadeiro leminskiano. O leminskiano de verdade não imita o Leminski, não usa bigode nem pratica trocadilhos. O leminskiano verdadeiro é o anti-Leminski.

Variações dessas frases foram enunciadas por Ignatius. Após agradecer a ajuda e a companhia, Claudio despede-se com uma frase que ele deveria ter pronunciado no porão do Bashô:

– Mano, a noite está velha.


Narrativa publicada no meu terceiro livro de contos, 2,99 (Tulipas Negras, 2014).

Eu quero mesmo


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Teletubbie punk


Entra no prédio onde funciona a fundação de cultura e segue até o departamento de recursos humanos. Está em frente ao balcão de informações.

– Pode me ajudar?

– A respeito do quê?

– Preciso agilizar a minha aposentadoria.

– Qual o seu nome?

O sujeito, conhecido como Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio), diz o seu nome.

– Onde você trabalha?

– Como assim?

– Em qual órgão você trabalha?

– Você só pode estar brincando!

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) pede um tempo para a funcionária, acessa o Facebook no celular e escreve: Uma barnabé quer saber quem eu sou. Era o que me faltava.]

– Minha senhora...

– Sim.

– Qual o seu nome?

– Suzana.

– Suzana, sem querer ofender, mas em que mundo a senhora vive?

– Como assim?

– Não me conhece?

– Não.

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) pede mais um tempo para Suzana e digita no Face: A barnabé as-su-me que não me conhece! O post anterior tem 8,9 likes.]

– Eu sou o [...] – o Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) diz o seu nome.

– Sim.

– Como assim sim?

– Desculpe, não estou entendendo.

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) pede mais um tempo e posta outro comentário: Estamos perdidos. Os comentários anteriores já haviam sido compartilhados.]

– Como eu vinha dizendo, estou aqui por que preciso agilizar a minha aposentadoria.

– Onde você trabalha?

– Sou artista.

– Artista?

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) digita no Face: Ela, a barnabé, está espantada por eu ser artista. Paizinho de merda, hein?]

– Suzana, é isso?

– Esse é o meu nome.

– Sou artista sim.

– Sim.

– Como sim?

– Você está dizendo que é artista.

– Sim.

– E daí?

– Como e daí?

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) posta no Face: Vagaba. Va-ga-ba!]

– Minha senhora, eu sou o líder da banda punk da cidade.

– Banda punk?

– Sim. Da banda punk.

– Funk?

– Recebi cachê da fundação por mais de duas décadas.

– Sério?

– É por isso que estou aqui.

– Cachê? Por mais de duas décadas?

– Isso mesmo.

– Não entendi.

– Claro que você não entendeu.

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) confere as postagens anteriores, todas com likes e comentários. Então, digita: Acho que eu vou perder a cabeça!]

– Desculpe, o senhor quer...

– Quero me aposentar.

– Não estou entendendo.

– Quero me aposentar.

– Mas o senhor trabalha na fundação?

– Não. Mas é como se eu trabalhasse. Entendeu?

– Se o senhor não trabalha...

– Recebi cachê da fundação por mais de duas décadas, está entendendo?

– É que...

– Então, tenho o direito de me aposentar.

[O Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio) faz a seguinte postagem: Acho que vou espancar essa imbecil!]

– Mas o senhor não trabalha na fundação. Ou trabalha?

– Escute aqui, sua barnabé!

– Peço que o senhor me respeite.

– Você é que não está me respeitando!

– Vou ser obrigada a chamar os seguranças.

– Você está me ameaçando? É isso?

[Suzana tira o telefone do gancho e digita quatro números.]

– Pra quem você ligou, sua...


– Responda, energúmena!


[Quatro seguranças entram na sala e Suzana aponta com uma das mãos em direção ao Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio).]

– Queira nos acompanhar.

– O que está acontecendo?

– Por gentileza, não grite.

– Vocês não sabem com quem estão falando!

– Por favor, queira nos acompanhar.

– Eu sou o cantor da banda punk da cidade!

– Se não nos acompanhar, vamos te levar arrastado, à força.

– Eu canto letras de poetas, estão entendendo?

[Dois seguranças imobilizam e arrastam o Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio), que segue gritando que é o porta-voz dos poetas da cidade, é amigo de empresários, publicitários, de traficantes, diz conhecer o presidente da fundação de cultura, e que...].

Conto publicado originalmente com o título “Teletubbies (Que Canta o Discurso Alheio)” em Mais laiquis (Tulipas Negras, 2015), o meu quarto livro de contos.

Há 10 mil anos atrás


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O homem-pássaro


Conto os degraus, mas esqueço ou – sei lá – me sinto perdido. Vim pelas escadas, o elevador estava parado e além do mais o apartamento para onde vou é no primeiro andar, perto do térreo, da portaria e da rua.

Vendi seguro de vida, fui balconista em farmácia, gráfico, pintor de parede, escrevente, segurança, consultor imobiliário, fiz tanta coisa que já nem sei o que estava fazendo quando num começo de tarde entrei naquele prédio. Lembro que precisava falar com um sujeito chamado Orací.

Olho o papel onde está escrito o nome, confiro uma, duas, três vezes. Não seria Itacy ou Odair? Não, é Orací mesmo. Só falta eu apertar o botão da campainha. Ou bater com uma das mãos na porta. Ele pode conferir quem está no corredor pelo olho mágico e decidir se abre ou não. Também pode abrir a porta imediatamente, depois de alguns segundos ou me fazer esperar. Se estiver fora ou dormindo ficarei esperando alguns minutos antes de descer as escadas e seguir pela rua. Então, escuto passos e o som da chave girando na fechadura.

A sala era ampla, com janelas grandes e as cortinas estavam fechadas. Sentei num sofá distante dois ou três metros do senhor Orací, que se acomodou em uma cadeira de balanço. Ele pediu para eu não usar o senhor, apenas Orací. Contei ter dificuldade ao falar com pessoas mais velhas que eu sem usar o senhor. Fique à vontade, comentou o Orací e em seguida entreguei algum produto, realizei um serviço ou contei algo, não lembro, não consigo lembrar o que fui fazer lá, naquele apartamento, naquela tarde.

Se eu te falar que conheço um homem-pássaro você acredita? Não? Nem precisa. Faz dias que não conversamos, mas nos encontramos todo mês, em geral, no apartamento dele. Somos amigos. Há lealdade entre nós e não cobramos nada um do outro, a não ser discrição, principalmente da minha parte. Afinal, não convém falar a respeito dele. Até porque seria difícil alguém acreditar que conheço um homem-pássaro chamado Orací.

Ele disse que gostou de mim e por causa da empatia decidiu contar parte de sua história – parte porque tudo não seria possível. Não fiz nenhuma pergunta, apenas escutei o Orací falar e ele revelou que nasceu em uma ilha no Oceano Índico. Lá, ainda pequeno, soube que poderia voar. Começou sobrevoando poucos metros, treinou decolagem, descida e venceu quilômetros voando.


Estou a mais de dez mil metros de altura, sentado, num voo em direção ao Oceano Índico. Vou conhecer a ilha onde Orací nasceu ou diz ter nascido. Não, ele nasceu em uma pequena e pouco conhecida ilha. Só não digo o nome por ter feito um acordo de silêncio para preservar o Orací. Acredito no meu amigo, mas quero ver para crer. Antes tem escalas, vai demorar e após algumas horas, não sei quantas, chego lá. Meu plano é aparentemente descansar por uns dias, como se estivesse em férias.

Orací precisava de dinheiro e atuou como professor. O meu amigo disse que se dedicava à profissão, mas os alunos não demonstravam interesse. Insistia, a atividade era desgastante, mas não desanimava, estava trabalhando. Começou a se decepcionar quando alguns dos aprendizes que não voavam passaram a ser reconhecidos e festejados na comunidade como homens-pássaros.

Olho a janela, vejo as nuvens e é inevitável lembrar do Orací. Ele diz ter desistido de voar. O homem-pássaro quer permanecer próximo da terra até o fim de sua vida.

Demorei para perceber que os sofás do apartamento do Orací estavam revestidos com plástico, procedimento utilizado em mudança ou por aqueles que pretendem preservar os móveis. Me dei conta daqueles plásticos em um dos encontros, quando ele contou que, inicialmente, não se incomodava com a visibilidade de seus alunos que não sabiam voar. Mas após alguns meses e anos teve a impressão, e posteriormente a suspeita se confirmou, de que algo estava acontecendo – e esse algo era uma sequência de ações que, em conjunto, faziam dele um sujeito quase inexistente ou invisível.

Bebo um gole de vinho aqui no avião, fecho os olhos e lembro da narrativa do Orací. Até parece que ele está ao meu lado, em seu apartamento, dizendo que – desanimado – desiste de ser professor e vai trabalhar no comércio. Dedica-se ao novo ofício e, longe do circuito de badalação de homens-pássaros que não voam, no caso, os seus ex-alunos, ele volta a voar. Tem convicção de que, mais que tendência, voar é o seu destino. Trabalha e voa, voa e trabalha, está tranquilo. Então, o proprietário da empresa diz que vai promover eventos com homens-pássaros e ele será o responsável pela divulgação do projeto.

Bebemos duas ou três garrafas de vinho quando o Orací me contou que, definitivamente, desistiu de voar ao fazer o trabalho de divulgação. Afirmou que promover os ex-alunos mexeu com ele. O homem-pássaro quase chorou, mas segurou as lágrimas diversas vezes enquanto me dizia que, mesmo recebendo dinheiro, não seria possível fazer o que estavam pedindo. Naquela tarde em que bebi alguns copos e ele, talvez duas das três garrafas de vinho, já embriagado, confessou uma transgressão, um crime, citou nomes, dos quais não lembro e repetiu que depois daquele fato deixou a ilha para sempre.

O avião está na pista faz alguns minutos. Há poucos passageiros e ninguém levanta. Todos esperam a sinalização para soltar os cintos, abrir os bagageiros, retirar malas e, então, caminhar pelo corredor. Posso estar errado, mas sinto que é necessário pesquisar a vida do Orací. Não estou traindo o meu amigo, nada disso. Ele é gente boa, acho, e, apesar de boa gente, talvez seja o responsável pela morte de cinco, seis, sete pessoas – ou mais. Agora só falta aquela porta, a de saída, abrir, mas a minha intuição diz que aquela porta vai permanecer fechada.

Conto publicado em Outras dezessete noites (Tulipas Negras, 2017), o meu sexto livro de narrativas.