sábado, 28 de março de 2020

Vertigo [passo a passo]


Rômulo entra na loja que conserta sapatos. O estabelecimento funciona há meio século e é frequentado por pessoas que, ao invés de comprar produtos novos, trocam a sola ou encomendam conserto. Mas algo deve estar errado. Rômulo não costuma usar esse serviço. Ele é consumidor de sapatos italianos. Quando seus produtos estragam ou gastam devido ao uso, ele compra novos, muitas vezes durante as temporadas que passa no exterior.

Esse personagem, o Rômulo, permanece algumas horas de segunda a sexta em um imóvel de duzentos metros quadrados. Quem passa em frente à casa não desconfia que ali está instalado um escritório que, em alguma medida, mantém o equilíbrio da sociedade. O negócio é sigiloso, envolve diretamente menos de dez pessoas e funciona. Mais que tudo, movimenta dinheiro. E dinheiro é o que define e justifica a presença de Rômulo neste e em outros enredos.

Já o sujeito que está dentro da Sapataria Central se chama Fulano. Ele e Rômulo são parecidos fisicamente, os dois têm mais de sessenta e menos de setenta anos, o peso deles coincide, cento e vinte e cinco quilos, denunciados pelas barrigas proeminentes que às vezes passam despercebidas por causa dos mais de um metro e noventa de cada um. Usam óculos, mas o Rômulo é míope, enquanto o Fulano tem hipermetropia. Fulano sabe da existência de Rômulo pelo fato de ler jornal e Rômulo nem desconfia que uma pessoa parecida com ele circula até mesmo na região onde funciona seu escritório.

Rômulo poderia ter se tornado Fulano, ou parecido com ele, se não tivesse algumas oportunidades, as quais aproveitou. Já Fulano é um funcionário.

Fulano é funcionário e, por causa da condição, a partir do dia vinte sobrevive usando cartão de crédito. Divorciado, tentou viver com três ou quatro mulheres, mas depois da ex-mulher, a Suzana, nunca mais encontrou companhia para dividir a insônia, as contas e as horas antes e depois do trabalho. Rômulo também está sem companheira fixa, mas por opção: há mulheres interessadas nele. O empreendedor, no entanto, prefere variar e está envolvido com três jovens.

Se fosse possível, Fulano também teria relacionamento simultâneo com três ou mais mulheres, mas não tem renda para isso. Consegue transar com três garotas de programa antes do dia vinte. Nos últimos dez dias do mês, aluga filmes pornô.

Fulano passa alguns dias de suas férias em apartamentos alugados a menos de cem quilômetros da cidade, em um balneário atualmente em baixa, mas que já teve glamour. As férias de Rômulo são nos Estados Unidos ou em países da Europa, com hospedagem em hotel, ingressos para espetáculos e consumo em endereços inflacionados. Fulano não tem passaporte e gostaria de ter as experiências internacionais de Rômulo, enquanto este já está cansado de horas de espera em aeroporto, do jet lag e ambiciona passar o próximo verão no litoral frequentado por Fulano e por outros fulanos funcionários.


Aconteceu, enfim, uma situação que envolveu os dois, com diferença de duas horas e meia entre o que se passou inicialmente com Fulano e depois com Rômulo. Eles agendaram sessão de massagem tântrica e foram atendidos pela mesma profissional, uma mulher de pouco mais de vinte anos, parecida com a Lívia Andrade, que se apresenta com o nome de Nisha. Fulano foi atendido às quatorze horas, enquanto o Rômulo usufruiu do serviço a partir das dezesseis horas e trinta minutos daquele mesmo sábado, onze de março.

Na realidade, nenhum dos dois usufruiu plenamente do serviço. Eles foram  em busca de sexo ou, no mínimo, masturbação. Rômulo e Fulano ouviram falar dos benefícios da massagem tântrica, de acordo com amigos, feita por meio de toques com a finalidade de despertar sensações orgásticas. Um conhecido do Fulano, o Beltrano, disse que a experiência é inesquecível, uma vez que as profissionais sabem usar as mãos para provocar prazer. Juliano, um colega do Rômulo, garantiu que essas massagistas dominam a arte das preliminares e, às vezes, a penetração é desnecessária.

Logo nos primeiros minutos da sessão, Fulano perguntou se ela estava a fim, Nisha quis saber a respeito do quê, e ele pediu um beijo. Ela não sorriu e continuou massageando o corpo do cliente, que teve meia ereção. Situação similar aconteceu com Rômulo, que também pediu beijo e teve uma quase ereção. Ambos foram convidados a sair da sala pelo segurança da empresa, o Hermes, depois que a massagista apertou a campainha de emergência.


Fulano caminhava por uma rua, e passou ao lado de Rômulo, que tinha descido do carro para seguir, por poucos passos na calçada, até uma clínica. Fulano sabe que tem de marcar uma consulta porque sofre do mesmo mal que afeta Rômulo: vertigem. Mas Fulano está adiando o encontro com o médico. Rômulo tem consciência do problema e busca uma solução ou, pelo menos, remédios para reduzir as tonturas.

O efeito das tonturas vai fazer Rômulo cair em sete situações – Fulano também desmaiará algumas vezes e, em uma delas, vai bater a cabeça no chão e, em minutos, morrer.

Em menos de vinte e quatro horas após a morte de Fulano, Rômulo contrata uma garota de programa parecida com a Nisha, a profissional de massagem tântrica, e com a Lívia Andrade. Após a relação sexual, Alda abre a porta da casa e Daniel e Jonas entram para matar o empresário, que defeca na cueca ao receber o primeiro tiro para em seguida rodopiar com os seus cento e vinte cinco quilos antes de tocar o chão.


As duas mortes, a de Fulano e Rômulo, não são divulgadas da maneira como aconteceram. O atestado de óbito de um registra parada cardíaca, enquanto o do outro, AVC.

Fulano e Rômulo são atendidos pela mesma funerária e entram em caixões com sapatos que pertenceram a pessoas que, em vida, eles não conheceram.

O par italiano de Rômulo vai ser usado pelo proprietário da empresa, Bonasera, enquanto o sapato de Fulano, consertado na Sapataria Central, estará nos pés de um funcionário, o Clemenza.


Conto publicado em A certeza das coisas impossíveis [Tulipas Negras, 2018], o meu sétimo livro de narrativas.

Murder Most Foul


sexta-feira, 27 de março de 2020

Deu ruim (Vendetta)



Já perdeu a chave de casa? Ruim, né? E um voo? Pode ser complicado. Esqueceu a carteira em cima de um balcão? Acontece. Milagre se alguém a devolvesse com todos os cartões e o dinheiro, mas não devolveram. Uma foto sumiu e a primeira edição de um livro do Campos de Carvalho que você emprestou ano passado ninguém sabe onde foi parar. Aquele vinil da sua coleção, um Lou Reed raro, e o DVD do Fritz Lang também desapareceram. Deu ruim. Mas, sabe, tem coisa pior, bem pior.

Perdi uma coisa.

Pense em algo valioso, inestimável, insubstituível – aquilo que pra você não tem preço, apesar do valor. O seu carro. O apartamento. A grana economizada durante anos. Os vinhos da adega. A boneca inflável, aquelas gramas de pó ou o quase meio quilo de fumo que estavam guardados no armário. O iate, o videogame, uma bike, a casa da praia, o relógio de pulso ou a sua coleção de gravatas.

Imagine algo que, de fato, tem importância.

Uma pessoa. A filha? A amante. Ou então o gato, o pônei, a iguana, o furão, o cãozinho, quem sabe até o seu hamster.

E aí?

Já pensou perder o que você tem de mais valioso, o que a vida te deu aparentemente de graça ou aquilo que você, enfim, lutou para conquistar?

Pois eu perdi, caros interlocutores, vocês mesmos, sete leitores e leitoras. Perdi. Perdi algo de valor inestimável e insubstituível.

Vou até o banheiro, levanto a tampa do vaso e, antes de mijar, penso no inimigo. Olho no espelho enquanto lavo as mãos planejando vingança. Fecho a mão direita e dou um soco na palma de minha mão esquerda. Seco as mãos com a toalha, saio do banheiro e grito: deu ruim pra você!

Se estou no trabalho, na sauna, comprando um produto qualquer no shopping, até quando transo ou me masturbo, ao correr no parque e mesmo dirigindo o carro a ideia-fixa se manifesta e faz com que eu visualize alguma cena em que me defronto com o sujeito que me prejudicou.

Faz sete meses que, embriagado em um churrasco, disse que se alguém viesse a me prejudicar faria o que fosse necessário pra me vingar. Bebia e, após cada novo gole, anunciava possíveis retaliações: daria um tiro no joelho, arrancaria as unhas, amarraria o indivíduo em um poste para aplicar chicotadas ou descargas elétricas e introduziria besouros vivos na garganta de quem ousasse fazer algo comigo.

Faz menos de sete dias que um indivíduo fez algo realmente ruim pra mim, e só penso em vingança.

Mas agora há outra questão: o sujeito é perigoso.

Não é um pobre-diabo, é um caramunhão que possui dinheiro e acumula no currículo centenas de maldades praticadas e continua circulando como se nunca tivesse prejudicado nenhuma pessoa.

A minha situação é difícil, gostaria de dormir e acordar em outra realidade, mas a cada novo dia acontece algo ainda pior do que ontem. O Zamiel divulga a ação que me causou contrariedade e não tenho como reagir. O Asmodeu ri da minha desgraça. O capiroto, anjo dos abismos insondáveis, sinaliza que não basta massacrar – para ele é necessário seguir batendo, literal e simbolicamente na vítima. De diversos modos e sem descanso esse súcubo, Arimã, taneco, manfarrico, porco-sujo e espírito imundo me esfola.

Recebo uma chamada no celular e fico preocupado. É ele? O som do interfone também me deixa apreensivo. O Adolf Hitler pode estar na portaria.

Pela janela vejo alguém caminhando na rua e desconfio.

Antes da desgraça, gostava de ficar com o rosto na janela observando. Não entendia o motivo de moradores de prédios não permanecerem, como eu, por horas nas janelas ou nas sacadas, mas agora eu compreendo. É perigoso. No meu caso a exposição realmente representa um risco. Nem se eu fosse a moça feia, daquela canção, que se debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela, nem assim facilitaria.

Estou quase paralisado.

Deixei até de caminhar no bairro. Vai que estou na rua e o meu algoz aparece? Mentalmente planejo matá-lo, mas infelizmente não possuo nenhuma arma.

Para complicar ainda mais a minha situação, o Rodapé, o Gordinho Sinistro 1, o Gordinho Sinistro 2, o Esfinge, Paulette, a Gorda Loca, a Tia Lola, o Sandrinho Bauru, Pulga e o Camaleão, desafetos que cultivei durante anos, agora estão de olho em quase tudo o que faço.

E foi o tranca-rua quem os escalou.

Violam as correspondências, monitoram meus e-mails, escutam o que digo e o que dizem pra mim, até nas ligações telefônicas – se eu me confessasse talvez o apedrejador plantasse um espião vestido de padre.

Não bastava ter me prejudicado? O que mais o encarniçado quer? O desavindo sabe que sou mequetrefe, mero pica-milho, um borra-botas, bisbórria, samango, totó piruleta, Zé-prequeté e, principalmente, anódino, infortificado, imbele, nugatório e marasmático.

Meu plano é fugir disfarçado de velhinha. Com a fantasia, sigo pela rua, pego um táxi e vou até o aeroporto. Lá, compro passagem para qualquer destino. Talvez assim, em outra cidade, eu me liberte mesmo que apenas por um tempo de meu inimigo e de seus lacaios.

Se não der certo, há uma alternativa, difícil mas não impossível de realizar, que é distrair o narrador. Posso esperar ele reler este conto torcendo para que o computador trave ou, se eu tiver sorte, para o arquivose corromper fatalmente durante uma queda de luz. Quem sabe rezando, com pensamento forte, o autor desista de finalizar esta narrativa e nem a selecione para o livro.

E, ainda, tem um detalhe que o autor não se deu conta e o narrador ainda não sabe: o meu algoz sou eu, eu mesmo, esse eu sem nome – um eu insubordinado que agora, por decisão pessoal, independentemente de autor ou de narrador, se liberta e pode se reinventar em outra narrativa, quem sabe na realidade da internet.


Conto publicado em Outras dezessete noites (Tulipas Negras, 2017), o meu sexto livro de narrativas.

Lou Reed | New York Album | Live on TV 1990


quinta-feira, 26 de março de 2020

O segredo do casamento


O táxi segue e uma televisão, quase ao lado do volante, está ligada, mas Jonas não escuta as notícias. O passageiro observa o movimento fora do carro, nas calçadas. Então, o motorista diz:

– É por isso que eu sempre digo.

– O quê?

– Casar com mulher bonita.

– O que é que tem?

– É vacilo.

O taxista continua falando, mas o passageiro presta atenção no movimento fora do táxi.

– Não tem jeito!

– Ah?

– Mulher bonita é treta!

– É...

Jonas responde, muitas vezes monossilabicamente, em alguns casos sem perceber o que diz, enquanto o taxista comenta a reportagem exibida na tevê.

– É sempre assim.

– É?

Um repórter conta a história de Jean e Luana. De acordo com parentes e vizinhos, foi crime passional. Jean desconfiava que Luana o traía, inclusive, com mais de um colega de trabalho.

– E quer saber?

– O quê?

– Tenho certeza que ela pulava a cerca.

– Ela quem?

– Essa aí.

– Essa?

– A que morreu.

O repórter entrevista parentes de Luana e de Jean. Eles confirmam o depoimento dos vizinhos. Jean sentia ciúme da esposa desde que o tempo em que eles eram namorados.

Por algumas quadras, Jonas ainda vai responder, quase sem pensar, outras perguntas do taxista. Está distante, distraído e não acompanha a reportagem sobre a morte de Luana.

Até que o motorista pergunta:

– Você é casado?

– Sim.

– Faz tempo?

– Por quê?

– Ela é...


Viviane, a esposa de Jonas, atrai o olhar de homens e até de mulheres. Alguns amigos dele dizem, com todo respeito, mas a sua mulher é uma gata. Parentes da Viviane falam, pro Jonas, que ele tem sorte de ter casado com uma linda mulher.

Jonas já sentiu ciúme de Viviane, desde que a conheceu, mas o ciúme nunca se transformou em palavras ou ações. Pelo menos até hoje, até entrar nesse táxi, ciúme nunca foi uma questão pra ele.


– Desculpa perguntar...

– O que foi?

– Mas a sua patroa...


Jonas não cogita, considera impossível, a hipótese de ser traído.


– É bonita?


Jonas fecha os olhos e surge uma cena inédita em seu imaginário. Ele vê um filme, como se, ao invés de seguir no banco de trás de um táxi, estivesse sentado na poltrona de uma sala de cinema.

Viviane está no corredor de um prédio. Caminha, olha para um lado, depois para o outro e, então, para. Um homem abre uma porta. Os dois se olham, sorriem, se abraçam, se beijam e entram no apartamento.

Jonas range os dentes, estala o pescoço e as mãos, mas não deixa de ver o que jamais pensou que iria presenciar, mesmo que, aparentemente, talvez só em pensamento. Os amantes já estão sem roupa, na cama, ela beija a boca e outras partes do corpo dele. O homem desliza as mãos pelo corpo de Viviane. Ela geme. Jonas tapa os ouvidos, não quer escutar nenhum som – e a sua esposa continua gemendo. Tem uma ideia: talvez, de olhos abertos, essas imagens podem desaparecer. Será?

Abre os olhos.

Agora, o filme está projetado na janela do táxi. Jonas não sabe se apenas ele ou as outras pessoas, por exemplo, as que caminham na calçada, também conseguem ver Viviane transando com aquele homem. Ela está de olhos fechados, repete isso, isso, isso, geme, e pede mais, mais e mais. Jonas tapa os ouvidos e fecha os olhos.

– A minha mulher é feia.

A voz do taxista interrompe a projeção do filme.

– Ela é feia, muito feia.

A frase do taxista acalma o passageiro.

Jonas abre os olhos e não vê a imagem de sua esposa transando com aquele desconhecido. Tira as mãos dos ouvidos e só escuta a voz do taxista.

– O segredo da vida é casar com uma mulher feia.

Jonas fecha os olhos e a cena de Viviane deitada com outro homem desaparece. Abre, fecha, novamente abre os olhos e só vê o interior do táxi, a rua por onde o carro segue, alguns pedestres na calçada e outros carros que passam.

– Vou ficar aqui mesmo.

O taxista para o carro, Jonas paga o valor.

Ele está na calçada e não pensa em nada, não há conflito em seu imaginário, também não está sentindo nenhuma sensação, não lembra de Viviane, nem do que pensou ou pensou que viu dentro do táxi, não sabe para onde vai e nem o que está fazendo, agora, caminhando numa calçada.


Conto publicado em Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), o meu quinto livro de narrativas.

O Menino Velho da Fronteira


quarta-feira, 25 de março de 2020

Mágica no absurdo


Gerson coloca a pílula na boca e engole a seco. Bebe café e, alguns minutos depois, tem a impressão de estar preparado para a reunião. A equipe da agência de propaganda vai apresentar a proposta de uma campanha sobre empoderamento feminino. A empresa de Gerson, ligada a frigoríficos e logística, não tem – em sua opinião – necessidade de investir na causa. Mas um distribuidor e outro acionista pediram apoio, e esses parceiros são fundamentais para o negócio.

Helô já apresenta a proposta quando Gerson, até então distraído, olha a publicitária e se dá conta de que todos os convidados para o encontro estão sala. “Eu tive que me empoderar para assumir o meu lugar no mundo”. De acordo com Helô, a frase deve ser dita por uma diretora de empresa e repetida por uma cantora, uma profissional de mídias sociais, uma terapeuta, uma enfermeira e uma advogada.

Gerson tem vontade de falar que a ideia é fraca. Acredita que empoderamento é consequência, principalmente, de estudo, repertório, cultura enfim. Mas, sua intuição sugere, não pega bem dizer o que está pensando. Além do quê, se criticasse a proposta da Helô, teria que apresentar outra sugestão. E, no momento, não tem uma alternativa para a campanha.

A publicitária explica em que canais de televisão o vídeo poderá ser exibido, possivelmente até em redes sociais. Gerson contratou a agência em que Helô trabalha não exatamente pelo fato de ela ser uma publicitária competente e premiada. Helô gesticula ao falar, sabe interromper o discurso para, em seguida, apresentar um exemplo comentado por ela mesma com piadas pertinentes, pausas e um gestual que tende a convencer o interlocutor. A publicitária sabe utilizar argumentos.

Mas, na realidade, o que Gerson admira nela é a beleza física.

– Linda.

– O que você falou?

– Linda.

– O quê?

– A campanha.

– Linda?

– Sim, Helô. Se puder, por favor, continue.

Helô explica qual linguagem pode ser usada no vídeo – na opinião dela, uma edição dialogando com o cinema de Woody Allen seria ideal. A publicitária diz que, além de outras profissionais, ela mesma poderia repetir aquela frase: “Eu tive que me empoderar para assumir o meu lugar no mundo”. Há silêncio, de alguns segundos, ninguém reage à proposta e Helô afirma que a campanha prevê desdobramentos, se possível, em material impresso.

Gerson observa o movimento dos lábios de Helô. Gostaria de beijar a publicitária. Não apenas a boca. O empresário tem uma ereção. Precisa de uma desculpa para dizer se for necessário levantar da cadeira.

Ele gostaria de se declarar para Helô. Mas, a intuição sugere outra vez, pode ser algo precipitado ou, mais precisamente, uma intervenção inapropriada, fora de tom e contexto. O silêncio pode ser, pelo menos momentaneamente, a solução, como ter silenciado já se revelou, para Gerson, sabedoria em reuniões nas quais estavam em debate temas como maioridade penal, casamento entre pessoas do mesmo sexo, eleição nos Estados Unidos, impeachment no Brasil, linchamento de criminosos, pena de morte, visitar Dubai e a qualidade dos produtos chineses.

Gerson não sabe se deseja Helô ou se o pau está duro por causa da necessidade de expelir urina do corpo. Há alguns minutos deixou de prestar atenção no discurso. Agora, ele percebe, Helô fala sobre o custo da campanha, prazos e questões técnicas, contato com uma produtora e seleção de elenco.

O empresário deixa uma das mãos em cima da coxa direita e, rapidamente, toca em seu próprio pau, duríssimo. Talvez a braguilha estoure. Durante os últimos trinta minutos, ingeriu seis ou sete pílulas. Já não sabe se usou, ou não, o Viagra que trouxe no bolso da camisa. Enfia a mão esquerda no bolso e tira o comprimido. O Viagra está lá. Coloca a pílula em um dos bolsos da calça. A necessidade de mijar é fato, mas aconteceu depois de ficar com o pau duro, não tem mais dúvida, excitado e com vontade de transar, imediatamente, com Helô.

Uma alternativa é esperar a publicitária dar uma pausa, pedir licença, levantar e ir ao banheiro. Mas Gerson teme que a movimentação se revele um desastre. A sua ausência iria interromper a reunião e a Helô poderia se incomodar.

O empresário está atento, ela fala com entusiasmo que não basta ser mulher. Sem feminismo, afirma Helô, não há política para mulheres. As leis, o discurso veiculado na televisão, as piadas repetidas em escritórios, as instituições, ela continua falando, são sexistas e machistas. A sociedade obedece a uma estrutura patriarcal e, a publicitária enfatiza, é necessário alterar isso.

Gerson já não sabe o que vai dizer para Helô, se é que vai falar com ela.

Teme chegar e ser rechaçado. Vai que a mulher não gosta da atitude e reage dizendo que o empresário é um assediador? E se ela gravar o encontro e publicar o vídeo e o áudio nas redes sociais? Numa dessas, Helô posta uma mensagem no Facebook anunciando que o sujeito que a contratou para fazer uma campanha sobre empoderamento feminino não passa de um machista.
  
O tesão que sente por Helô quase substituiu outro desejo de Gerson. Quando recebeu a solicitação para fazer a campanha, o empresário analisou alguns fatores e investimentos, e só se convenceu, de fato, a apoiar o projeto levando em consideração uma possibilidade. Cogitou contratar uma das atrizes por quem sente atração. Não era nenhuma em especial, poderia ser uma parecida com a Jean Seberg, aquela que lembra a Jeanne Moreau ou talvez uma terceira, a atriz que – para ele – é quase um clone da Ingrid Bergman.

A ideia ainda não foi descartada. Gerson pretende apresentar a sugestão para Helô, se possível, na próxima pausa que ela fizer. Mas a publicitária segue falando e, neste instante, ressalta que atualmente ainda há mulheres dispostas a sacrificar projetos profissionais para colocar a família como prioridade. Não podemos mais, diz elevando o tom de voz, carregar a culpa de dividir nosso tempo entre o pessoal e o profissional. As outras mulheres presentes na sala aplaudem Helô, que, enfim, para de falar: ela está chorando.

Gerson já não tem mais controle e a urina escorre pelas suas pernas enquanto Helô chora. Rebeca, uma assistente, oferece um copo de água para a publicitária. O empresário caminha em direção ao banheiro, passa a mão na maçaneta, a porta está fechada, ele insiste, uma voz avisa que tem gente e Gerson sente mais urina escorrer pelas pernas. O celular dele começa a tocar, não um som convencional, mas uma canção de Lamartine Babo: “A... E... I... O... U... Dabliú, dabliú/ Na cartilha da Juju, Juju”.

Otto, secretário de Gerson, olha o empresário e pergunta se está tudo bem. Quatro ou cinco pessoas que vieram com Helô, incluindo um produtor chamado Bob, começam a rir. Otto também ri. O celular de Gerson continua tocando: “A Juju já sabe ler, a Juju sabe escrever/ Há dez anos na cartilha”. Jacques, um parceiro comercial de Gerson, também é contagiado pela gargalhada coletiva.

O empresário olha para as pernas e a calça, branca, está molhada com urina e não esconde a ereção. Gerson teme que até fora da sala estejam rindo dele, enquanto a canção do Lamartine Babo soa por meio do alto-falante do seu celular: “Sabe conta de somar, sabe até multiplicar/ Mas na divisão se enrasca/ Outro dia fez um feio/ Pois partindo um queijo ao meio/ Quis me dar somente a casca!”.

Gerson coloca a mão em um dos bolsos da calça, pega uma pílula e a engole sem água. As pessoas que estão na sala olham para ele, a maioria está rindo e Helô ainda não parou de chorar. Por menos de um minuto, o celular do empresário fica em silêncio, mas quem deseja falar com ele insiste e o aparelho toca novamente a canção do Lalá: “Sabe história natural, sabe história universal/Mas não sabe geografia/ Pois com um cabo se atracando/ Na bacia navegando, foi pra Ásia e teve azia”.

As pessoas que estão na sala deixam de gargalhar. O celular de Gerson fica em silêncio e o som que se impõe é o choro de Helô. Em menos de um minuto, não ao mesmo tempo, mas em sequência, como se houvesse um roteiro a ser seguido, todos choram – até o empresário, ainda com ereção, chora.

E, por um tempo que ninguém contou, todos eles choraram, soluçando e abraçados.



Conto publicado em A certeza das coisas impossíveis (Tulipas Negras, 2018), o meu sétimo livro de narrativas.