domingo, 26 de setembro de 2010

Aquilo que viaja do avô para o neto

Entrar em Baú de Ossos é viajar pelo mundo de Pedro Nava (1903-1984) e ao mesmo tempo rumo ao nosso próprio passado. O livro de memórias desse autor mineiro chegou às minhas mãos em 2003 e, nesses sete anos, não consegui ultrapassar nenhuma página. Primeiro, era um compromisso inadiável. Depois, uma ideia-fixa que me afastava da leitura. Isso quando no andar de cima não acontecia uma performance de saltos altos a batucar ou um show de rock-and-roll seguia, em moto-contínuo, com toda distorção possível dentro de mim.

Foi apenas nesta primavera de 2010 que, sabe-se lá como, entrei, e sigo diariamente, pelas páginas da obra. Nava recupera os seus ancestrais e é difícil abandonar a leitura. Inclusive, neste momento, a fruição do livro é tão esperada, por mim, como já foi, em tempos recentes, a expectativa por todo capítulo da novela Caminho das Índias.

Entre a lembrança de um bisavô e de outra avó, Nava apresenta aos leitores algumas constatações, que fizeram com que ele carimbasse o passaporte para o primeiro time da literatura. Na página 32 do livro publicado pela Ateliê Editorial em 2002, a narração aponta para uma das belezas da vida: o jeito hereditário com que vemos os vivos repetindo o retrato meio apagado dos parentes defuntos. “Pode-se tentar a recomposição de um grupo familiar desaparecido usando como material esse riso de filha que repete o riso materno; essa entonação de voz que a neta recebeu da avó; a tradição que prolonga no tempo a conversa de bocas há muito abafadas por um punhado de terra”, escreveu o memorialista mineiro.

Fecho o livro e olho para o meu filho Vitor, de 1 ano e 11 meses, e me vejo nele. Os pés, chatos, viajaram do meu avô materno, Francisco, passaram por mim, e chegaram até o neto. De onde veio esse meu jeito reservado? Sei que do meu avô Francisco, que a terra engoliu há duas décadas, herdei um silêncio sem fim, que só desmancha diante de pouquíssimas pessoas.

Volto ao Baú do Nava e lá encontro o que cada novo abril, que me traz mais fios brancos à cabeça, confirma: é aquilo que viaja do avô para o neto que parece dizer mais e pode explicar quase tudo. Não tem jeito, repetimos o jeito torto de pisar de nossos antepassados, por mais que tentemos negar.

Chego à página 46 e paro. O que o Nava escreveu me fez seguir acordado da terça rumo à última quarta-feira. “O conjunto familiar jugulado por várias regras, mandamentos, cânones, convicções, tradições, preceitos, normações e complexos, para não rebentar também, precisa do antagonista. (...) Qual a floração de homens integérrimos, de cidadãos exemplaríssimos, de varões retíssimos, de mulheres fortíssimas, de virgens prudentíssimas que não sai de um tronco cujas raízes mergulharam na lama consanguínea de uma catraia, de um ladrão, de um bandalho, de um homicida ou de um falsário?”.

O que Nava fala, a respeito de si mesmo, vale para todo mundo: se em nosso álbum de família não figura um transgressor, para falar o mínimo, é porque escondemos a foto. Não estou, agora, em busca de meu parente blasfemador esquecido em passado mais do que imperfeito, mas bem que gostaria de saber daqueles que, mais do que cabelos loiros que se tornaram castanhos (e que um dia ficarão como a neve), me legaram esse jeito contemplativo, gauche e lento.

Há quem diga que é o exemplo, a influência direta fruto do convívio, que faz de nós o que somos e nos tornamos. Prefiro pensar, mesmo que seja o maior absurdo, que esse meu quase voto de silêncio diante da vida é um legado via DNA.

Evito afirmações, desvio de certezas, mas garanto que vou reduzir ainda mais a velocidade da leitura para adiar, ao máximo, chegar ao fim de Baú de Ossos (mesmo sabendo que há outros volumes de memórias do Nava à minha espera).

E, como ainda há espaço disponível, desejo um dia possível, suave e desacelerado a você que me lê (e, me lendo, em alguma medida, me inventa).

Essa crônica foi publicada na página 5 da edição do dia 25 de setembro de 2010, no Caderno G, suplemento de cultura da Gazeta do Povo, jornal curitibano, onde escrevo desde 2007.

domingo, 12 de setembro de 2010

Meu amigo dá nome a uma linda e risonha cidade



Pois é, eu a desembarcar no Salgado Filho, caminhava pisando em ovos ou astros um tanto desligado e, ora direis, ouvir o som do aeroporto, vem a mensagem: bem-vindo a Sergio Napp! Ora, tchê, o que seria isso? Um, dois, três, passos, nenhuma ficha caiu, apenas a informação a se confirmar: Porto Alegre não se chamava mais Porto Alegre, a capital gaúcha tinha novo nome: Sergio Napp.


Bah! Gritei. Bah! Exclamei. Bah! Me esganei. E saí a correr, correndo. Amo Porto Alegre, adoro a cidade, gosto do povo, das ruas, do Guaíba e, finalmente, o meu amigo havia sido reconhecido. O meu grande amigo, a minha primeira amizade gaúcha construída ao acaso lá pela rabeira de 2002, pouquinho antes do nascer de 2003.

Entro em um táxi e peço para seguirmos rumo ao sul da cidade, onde fica a casa do Sergio Napp. Mas não digo onde pretendo ir, uma vez que a cidade, agora, se chama Sergio Napp, e talvez o condutor do veículo não acreditasse, sei lá.

Napp e a sua mágica, suas caixas de guardados, a sua memória das águas, a sua travessia, ele e as suas delicadezas do espanto, tanto sentimento, dias de verão, madrugadas acesas, ele, o letrista genial, autor da mais gaúcha de todas as canções do Rio Grande do Sul, Desgarrados, mais que hit, hino, prece, profecia, síntese de um povo, de uma alma, oh, ora direis, ouvir Sergio Napp.

Segui, dentro do táxi, janela aberta, vento no rosto, a ouvir o som da cidade Sergio Napp, mas tudo de repente se fez luz intensa demais e não pude mais perceber nada por meio da visão, apenas dos outros sentidos, e o táxi começou a voar; voando estava eu sobre o Guaíba, a me lembrar de tudo, de tanto, do dia em que o Sergio Napp me visitou, pegou o meu filho Vitor no colo, aqui no apartamento onde escrevo este texto e agora ele, o Sergio Napp, é nome da cidade, uma das que mais amo no mundo e, então, o motorista do táxi disse: aqui chegamos, na casa do seu amigo, na casa do Napp, o nome novo de Porto Alegre. Nem precisei pagar pela corrida, já estava acertado, tudo, tudo escrito, todo o destino previamente combinado e, com o cachorro a seus pés, com a esposa ao lado, ele abriu um sorriso e disse: Marcito, então, finalmente, voltou para cá, hein?

Chorar eu não chorava, mas em silêncio caminhei com lágrimas retidas pensando que, finalmente, esta cidade havia reconhecido o talento de um de seus mais ilustres habitantes. Se era 2087 ou 3086, não lembro, mas fazia calor de 23º e um por do sol a nos esperar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Toda vez que eu ouço o Solda, tenho vontade de ler Jimi Hendrix



O que veio primeiro? O som do Hendrix ou o traço do Solda? Não lembro e prefiro que assim seja: pouca ou nenhuma precisão e mais nebulosidade na memória. Mas que os dois se parecem, sabe: poderiam até ser gêmeos, se é que não são. Se não são gêmeos, gênios certamente ambos são. Fecho os olhos e sei que no aparelho de som é o Hendrix a solar. Da mesma maneira: é bater os olhos em um desenho e identificar que o traço é do Solda, mesmo que ele não assine. É isso: Hendrix e Solda não precisam assinar. O solo de Solda é inconfundível em All Along The Watchtower, da mesma maneira que a pegada do Hendrix é inconfundível naquele Almanaque do Professor Thimpor. Não é isso? O Solda, ao fazer versões de Bob Dylan, se apropriou das canções. Hendrix também: se ele ilustra um livro, por exemplo, de um cronista, bye bye prosa – o que fica para quem lê são aqueles traços, aquela maneira de mostrar o ser humano com as suas contradições, conflitos e delírios de todo santo dia, desde as cavernas. Se o Solda me deixasse tocar na banda dele, mesmo que fosse apenas uns minutinhos em uma jam, ai que bom seria experimentar a eternidade, encontrar um pote de ouro em um sorriso e beber Malbec sem sentir os efeitos do álcool. Viajo até Pasárgada quando leio os textos do Hendrix, ainda mais quando ele escreve sobre horóscopo ou lembra que coleciona listas telefônicas. Fui até a Lua ontem, e já voltei, claro, ouvindo o Solda solar em Little Wing. Mas, sabe, é segredo, portanto, não conte pra ninguém (por que ninguém mesmo iria acreditar): eu já estive na casa do Hendrix e nós conversamos durante horas: ele me contou e eu acreditei, sigo acreditanto: "um poeta sentado é um poeta em pé de guerra."

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A capa



Olá, eis a capa de meu livro, que a Record disponibilizará a partir de outubro. Arte da Carolina Vaz. Viva!

sábado, 4 de setembro de 2010

No Rascunho



Na edição de setembro de 2010 do jornal Rascunho foi publicado o conto "De Teletransporte Nº 2", que estará no livro Minda-Au, a minha estreia na ficção, a partir de outubro, disponível nas livrarias brasileiras, em edição da Record.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Minda-Au(zinho)


No Rio de Janeiro, em junho deste 2010, meu filho, Vitor, com pouco mais de 1 ano, a mesma idade que eu tinha quando pronunciei Minda-Au, a primeira, no máximo segunda palavra que saiu de minha boca nesta vida, e que agora dá nome ao meu primeiro livro.