sábado, 17 de setembro de 2016

É um táxi que chega inesperadamente


A Rua XV é um palco iluminado. Não! Não é isso que pretendo dizer. A Rua XV é mais. A Rua XV é uma passarela rumo ao infinito. Isso. Agora sim. Acertei uma frase, ganhei o dia. Já posso entrar no Face e começar a dar likes nas postagens dos meus amigos, os escritores. Ah, nós, os escritores. Que vida!
É importante dar likes nos posts dos amigos, mas, sabe, estou com uma vontade de passear. Sentir o movimento da cidade.
Boa ideia!
Vou colocar o meu manja, o meu novo Ray-Ban, e sair pela Rua XV. Daí, posso olhar tudo e todos sem dar muito na cara que estou manjando. Coisa boa o óculos escuro. Bela invenção da humanidade!
Mas, ultimamente, estou mesmo manjando aves. Outro dia, até escrevi sobre isso. Todos param na praça, olhando pra cima e o que é?, o que é?, quem é?, quem é?
— Raimundo Nonato!
Não. Isso não funciona. Preciso fazer um texto sem gracinha. Assim, não pega bem.
Nós, os escritores, pensamos em coisas sérias.
E, como eu ia dizendo, estou de olho em aves.
Beija-flor, gaivota, urubu, corruíra, jacu, pintagol, sabiá, pardal, balança-rabo, canário, coleirinho, tiziu, sanhaço, caturrita, araraponga, rola, pomba-rola e, principalmente, rolinhas.
Aqui na cidade, em plena selva de pedra, consigo observar pássaros.
Se não fosse escritor, seria ornitólogo. Boa, outra frase pruma crônica: se não fosse escritor, seria ornitólogo!
Mas a vida me fez escritor.
Que coisa, hein?
Sou, digamos, um catalogador de acasos. Outra frase inspirada, até mesmo título, pruma crônica autobiográfica: catalogador de acasos. Só que não apenas catalogo, eu edito. Isso. Sou um editor de acasos! Outra frase matadora: o escritor é um editor de acasos!
Estou inspirado, coisa boa.
Na realidade, sou inspirado. Vivo inspirado. Sabe, nós, os escritores, somos, mais que inspirados, uns iluminados!
Por falar em luz, adoro um palco. E qual escritor não gosta? Nem todos confessam, mas nós, os escritores, somos uns vaidosos.
Agora, já estou na Rua XV.
Que rua, que lugar!
Caminho, já andei alguns passos, mas, curioso!, ninguém me reconhece. Deve ser por causa do óculos. Sim. Só pode ser por causa desses óculos.
E então? Será que guardo no bolso?
Melhor não. Sem o óculos, não vou mais poder manjar à vontade. E aqui na Rua XV tem tanta gente e tanta coisa pra ver.
Sigo num trecho onde, no passado, funcionavam cinemas e cafés. Hoje tem, principalmente, fast-food e lojas de roupa.
Passa muita gente neste lugar, ninguém olha pra mim, até parece que sou invisível. Mas, na realidade, acontece outra coisa.
Fingem não notar minha presença pra eu poder circular à vontade!
Posso ir e vir sem ser assediado. Que beleza! Que privilégio.
Entro numa livraria. Vou até a estante onde, faz sete meses, colocaram quatro exemplares do meu livro mais recente. Encontro, quase no mesmo lugar, os mesmos quatro exemplares. Mais de meio ano e ninguém se interessou. Como pode?
Mas, desconfio, a situação é outra!
Os vendedores não deixam meus livros saírem da loja. É pra manter a minha presença no local por meio da presença física das obras que escrevi.
Ah, nós, os escritores! Somos mesmo muito protegidos!
Não fossem os amigos vendedores, meus livros já teriam sido vendidos e, se uma pessoa entrasse hoje na loja, não encontraria nenhum exemplar. Coisa boa!
Acho que vou entrar naquela agência bancária e conferir meu saldo. Numa dessas, faço um saque e sigo pela rua com dinheiro na carteira.
Nós, os escritores, não precisamos trabalhar, pelo menos não da maneira tradicional.
Por isso, é possível entrar num banco fora do horário de pico, agora, às 15h49, quando a maior parte dos trabalhadores está nos escritórios, nas fábricas, nas lojas, cumprindo as oito horas diárias.
Não, não vou entrar no banco. Prefiro seguir, parar num outro banco, desses de sentar, e não fazer nada. Posso não fazer nada. É um privilégio, uma conquista, a vantagem de ser escritor.

Sabe, a matéria-prima do escritor é o impalpável.
Que frase! Preciso lembrar e incluir isso numa crônica.
Nós, os escritores, produzimos textos pra jornais e revistas.
É um conteúdo fundamental para a imprensa. Sem dúvida, bem mais importante que as notícias, as fotos e as outras informações.
É a palavra, escrita e impressa, de nós, os escritores, o que, no fundo, garante a verdadeira credibilidade dos veículos de comunicação.
Ah, nós, os escritores!
Somos os responsáveis por elaborar os pilares invisíveis do tempo em que vivemos.
Outra bela frase!
Nós, os escritores, também ganhamos dinheiro ensinando escrever. Curso de criação literária é uma fonte de renda.
Mas, preciso confessar, acho esses eventos entediantes.
Tem uns que entram só pra fazer contato, outros por não ter ocupação. A maior parte precisa de noções gerais do idioma e há uma quantidade, maior do que se imagina, a fim apenas de namorar, principalmente, o professor.
Bom, se os alunos lessem, tudo seria mais fácil, mas poucos estão interessados em leitura.
Prefiro participar de mesas de bate-papo. O público desses eventos literários está mais a fim de ver do que ouvir o escritor. E basta enunciar seis, sete frases, até menos, que o cachê está garantido.
Ah, nós, os escritores, somos, realmente, uns privilegiados!
Nesses encontros, chego com algumas frases que valem pra qualquer tema.
Por exemplo, vou pensar em uma.
Vamos lá, vamos lá, vamos lá. Já sai, está saindo Daqui a pouco sai. Opa, estou quase lá. Já vai. Deu.
— É um táxi que chega inesperadamente.
Com essa frase, é um táxi que chega inesperadamente, posso responder praticamente qualquer pergunta.
Se me perguntam o que é a vida?, respondo: é um táxi que chega inesperadamente.
Posso usar a frase pra definir o que é a morte, o amor ou a inspiração pra escrever: é um táxi que chega inesperadamente.
Maravilha!
Vou anotar essa frase: é um táxi que chega inesperadamente.
Numa dessas, uso pra finalizar algum texto, qualquer um.
Ou coloco no título.

[Conto publicado no meu quinto livro de contos, Finalmente hoje, pela Tulipas Negras, já em 31 de março de 2016].

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Paulo Polzonoff Jr resenha Finalmente hoje

Paulo Polzonoff Jr leu e não gostou de Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), o meu novo e quinto livro de contos. A resenha foi publicada na revista Ideias, 179, de setembro de 2016, com o título "O maldito gosto do sabão":

“Seu livro é ruim”. “Seu livro tem defeitos”. Imagino como deve ser desagradável para um escritor ouvir esse tipo de coisa. Sobretudo numa época em que autor e obra tanto se confundem, fazendo da literatura (e de outras expressões artísticas) tão-somente uma expressão do eu infantil, isto é, do narcisismo.

Conheço o contista Márcio Renato dos Santos de outras épocas, outros cafés e cervejas. Sempre me pareceu um homem dedicado e esforçado, com um riso fácil. Não tenho motivo algum para denegrir o trabalho dele como escritor. Pelo contrário. Ao abrir Finalmente (Tulipas Negras, 2016), meu encantamento anterior à leitura era claro. Sempre me fascina a ideia de ter amigos talentosos.

Na tentativa de encontrar algo que se salve a coletânea de contos, fiz algo que me é raro: li o livro três vezes. Quis, queria e quero aqui usar de toda a generosidade possível. Mas às vezes os fatos (neste caso, as frases, as histórias e as muitas vírgulas desnecessárias) se impõem para além da boa-vontade do leitor. É uma pena. Sempre é.

O conto que abre a coletânea, Pimenteira, é um vislumbre desse potencial não aproveitado. Há nele um quê de A Morte de Ivan Ilitch, o que não é pouca coisa, como sabem aqueles que já tiveram contato com a obra-prima de Tolstói. O autor (Márcio, não Tolstói) capta bem a capacidade humana de ampliar problemas banais e conferir ao cotidiano simples ares de batalhas épicas, com um quê de sobrenatural.

Seria bom, ou melhor, seria ótimo, não fossem as falhas técnicas que pontuam toda a narrativa, bem como a completa ausência de pathos. As frases se acumulam e se amontoam sem levar o leitor a qualquer tipo de transcendência estética. Parece o relato de um cartorário com inclinações literárias. Um cartorário que também precisa dominar a técnica narrativa, sobretudo no que diz respeito aos tempos verbais. Porque há uma diferença entre confundir tempos narrativos propositadamente, fazendo a história avançar, retroceder e parar, e confundi-los por descuido ou desconhecimento, o que só revela um louvável mas estéril esforço de se comunicar com o leitor.

O problema dos tempos verbais pontua todo o livro. A narrativa começa no presente, passeia pelo passado e, ao voltar para o presente, continua no passado. Ou está no passado e, do nada, flerta com o presente. É algo tão recorrente que, a certa altura, achei que pudesse ser algum toque de genialidade à la Nolan. Não é.

Assim como não é nenhuma genialidade a tentativa fracassada de retratar o banal usando, para tanto, uma narrativa também banal. Principalmente em narrativas curtas, todas as frases importam e precisam ter relevância, fazer sentido na história. Aqui, muitas vezes se tem a impressão de que, mais uma vez, o narrador é apenas um cartorário tentando preencher páginas de um relatório que por acaso chama de conto. A banalidade e irrelevância das informações (e o problema dos tempos verbais) podem ser exemplificados neste parágrafo de “Com Açúcar, Com Afeto”:
“Lembro que ela costumava oferecer coxinha de frango. Casca crocante, feita e frita na hora. Com um recheio de tempero que nunca mais encontrei em nenhum bar, restaurante ou feira livre. O bolinho de carne também é inesquecível”.

Não há, pois, densidade, apesar de as narrativas bem curtas pressuporem justamente isso. O conto proposto pelo autor não é uma “short story”; é conto no sentido mais brasileiro do tempo, algo que em muitos casos se aproxima, ainda que indevidamente, da prosa poética. E, no entanto, não há nenhuma sugestão elevada ou mesmo bela nas frases de Finalmente. Que, em muitos casos, parecem somente um amontoado de informações que qualquer editor um pouco mais exigente cortaria do texto final. A questão é: em fazendo isso, o que sobraria do texto final?

Arriscaria dizer que sobrariam… vírgulas. Algum professor mal-intencionado deve ter dito ao autor que ele deveria usar vírgulas para separar quaisquer advérbios que estivessem fora de lugar. O resultado é algo gramaticalmente correto, vá lá, mas que interrompe o ritmo das frases – que já não é dos melhores. É, sobretudo, algo que não passa em nenhum teste de oralidade, como se vê nesta frase do conto “Um a Um”:

“A sensação de que a vida está acelerada para todos Benício percebe, realmente, por contraste, agora, em dias de jogos da seleção”.

Aliás, uma boa forma de submeter qualquer texto ao teste da oralidade é analisar diálogos. Tarefa supostamente fácil em Finalmente, já que alguns contos são compostos basicamente por diálogos. No que, para minha decepção, o livro também fracassa. Os contos-diálogos são marcados por um monossilabismo constrangedor que, mais uma vez, revela apenas a banalidade e a irrelevância narrativa. São diálogos rápidos, sim, mas estéreis. Cadê o humor, o wit? Ou, por outra, cadê aquela constatação fatídica que nos faz querer ficar de cama a semana inteira?

Pior ainda é constatar que, nos poucos momentos em que o contista tenta beber em águas mais profundas, acaba caindo no lugar-comum e na escatologia. O humor autodepreciativo e autorreferente de “É Um Táxi Que Chega Inesperadamente”, ainda que seja um suspiro de vitalidade na coletânea, nada mais é do que a velha e ensimesmada narrativa do escritor vivendo a literatura cotidianamente. E “Bem-Estar, Poucos Passos” e “Simeticona” recorrem à dupla Fezes & Flatos que, sinceramente, já não despertam nem nojo no leitor minimamente experiente.

Por fim, não posso deixar de mencionar o trecho em que se lê “duzentas gramas de queijo e de presunto”. Com todo o respeito, um escritor (e editor e revisor) não pode deixar passar algo assim.
É com tristeza e decepção que fecho Finalmente. Ao lê-lo, e diante da impossibilidade de aplaudi-lo, por mais que realmente quisesse, me senti como uma criança que abocanha o pudim só para descobrir que, na verdade, era uma barra de sabão. Não vou abdicar do pudim, claro. Mas sempre me lembrarei do maldito gosto do sabão.

Can't find my way home