sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Conduzidos por Minha Pequena Eva

            Enzo enxerga, enfim, Lara no desembarque do aeroporto, e ela parece, para ele, outra. Aquela, ali, a poucos passos, não é a mesma das fotos postadas no Facebook. Ou é? Ele se aproxima e tem a impressão de que ela entrou no hall, retornou para o setor onde se retiram as malas e, novamente, voltou para, pela primeira vez, encontrar com ele.
Eles se cumprimentam com apertos de mãos e dois beijos, um em cada face do rosto.  Enzo se oferece para levar a mala de Lara, e os dois caminham até o ponto de táxi do aeroporto. No trajeto até o táxi, ele faz comentários sobre o clima, está mais quente do que eu esperava, pergunta se ela fez boa viagem, Lara só balança a cabeça, afirmativamente e, então, ele faz sinal de positivo com o dedo polegar para um taxista, que repete o sinal, e Enzo abre uma das portas do Doblô para ela entrar.
O carro segue, Enzo colocou a mala no banco da frente, ao lado do motorista, e está sentado ao lado de Lara, no banco de trás. O taxista perguntou para onde?, Lara olhou para Enzo, que perguntou para ela, você quer jantar? Lara balançou a cabeça, afirmativamente, e Enzo disse para o motorista seguir em direção ao centro, no caminho eles decidiriam onde seria a refeição.
Enzo permanece em silêncio. Lara quase não falou desde que eles se encontraram. O que está acontecendo?, Enzo se pergunta. Será que essa é a mesma Lara com quem venho conversando há meses no Facebook? Trocamos mensagens quase todos os dias. E agora? O que aconteceu?, ele segue a se perguntar.
Estou desconfiado de que ela está com algum problema nos dentes, pensa Enzo. Vamos numa churrascaria?, ele pergunta. Vamos, Lara responde. O senhor pode nos levar até a Espeto na Chuleta? O taxista diz que sim. O teste da carne é infalível, raciocina Enzo.  Vou testar os dentes dela com carne em uma churrascaria de terceira, ou quarta, qualidade, segue a refletir o administrador de empresas.
Se estivéssemos na minha cidade, levaria o Enzo para a beira do mar. Lara gostaria de submetê-lo ao teste da praia. Acho que ele está fora de forma e, apenas de sunga, não tem como esconder uma barriga que, se existir, vai me desanimar – a frase se passa no imaginário da decoradora de interiores.
Lara está cansada. Não teve sábado nem domingo nas últimas três semanas: finalizou a reforma de um apartamento. Lara também está confusa. E não quer falar, pelo menos agora, não pretende dizer nada, apenas olhar para Enzo e ouvir a voz dele. Eles trocaram mensagens pela internet, ela viajou para conhecê-lo, imaginou como seria esse encontro e, pela primeira vez ao lado de Enzo, quase não fala e nem sorri.
Jonas, o taxista, observa o casal. Por que ele ainda não chegou na moça? Jonas supõe que, se fosse ele, já teria baixado nela. É bonita e tem um jeito de ser chegada, mas o sujeito não chega. Assim o taxista pensa enquanto dirige o carro, e não se conforma que o cliente fique quieto e deixe a moça desamparada.
Será que esse cara é boiola? A pergunta surge para Jonas quando o Doblô passa em frente a um motel. Se fosse eu, não levava a moça pra churrascaria nenhuma. Ia direto pro abate.
Enzo está com vontade de falar algo que faça Lara rir. E se eu perguntar se ela está a fim de um espeto em sua chuleta? Ele pensa nessa pergunta e também em outra: gosta de linguiça? Sim? Quer experimentar a minha? Ela poderia, raciocina Enzo, não dar risada, pedir para voltar para o aeroporto e retornar pra casa.
O administrador de empresas queria mesmo era ver o sorriso de Lara e os dentes dela.
Lara está, mesmo, com vontade de ver Enzo sem roupa. Se ele tiver muitos pelos, pensa a decoradora de interiores, não vai dar certo. E, de acordo com o que está supondo, se ele estiver com sobrepeso, talvez o flerte virtual não tenha desdobramento na realidade.
Ela é uma pessoa que acredita que o homem é aquilo que come. Devido à crença, começa a raciocinar que, se Enzo está indo com ela a uma churrascaria, ele deve gostar e provavelmente consome carne assada e, sem dúvida, gordurosa com frequência – o que faz do administrador de empresas um sujeito detentor de potenciais índices de gordura acima da média e que, se ele for sedentário, também é candidato a morrer vítima de enfarto ou AVC.
Enzo só pensa em comer, carne e a Lara.
Jonas percebe movimentação de policiais na avenida que dá acesso à churrascaria Espeto na Chuleta. O taxista para o carro, diz que tem uma blitz logo ali e pede aos passageiros para descerem do táxi. Enzo pergunta por quê? Lara quer saber o que está acontecendo. Jonas repete o pedido, por favor, desçam do táxi, não precisam pagar a corrida e não esqueçam de levar a mala.
Enzo segue na calçada com a mala de Lara em uma das mãos, ela está de cara fechada, ainda mais do que estava dentro do táxi. Amanhã, ou no outro dia, depois de amanhã, os dois vão ler no jornal da cidade a notícia do falso taxista que foi preso com carga de explosivos no porta-malas. O nome não era Jonas, mas era o mesmo sujeito que os levou do aeroporto até o centro. Ele se chamava Tony e no futuro será conhecido como Minha Pequena Eva.
E nós dois dentro daquele carro, hein?, comentará amanhã, perguntando, Enzo, espantado pelo fato de ele e Lara terem vivido uma situação de risco real. Ela, com o sorriso que retornou ao rosto ainda naquela primeira noite, dirá que tudo é acaso nesta vida, não é, Enzo?
Ainda naquela primeira noite, depois que o taxista os deixou na rua, eles caminharam por uma, duas, três quadras e desistiram de ir até a churrascaria Espeto na Chuleta. Enzo e Lara enxergaram, quase ao mesmo tempo, o letreiro luminoso do restaurante Todo Recheio.
Conhece esse?, perguntou Lara. Enzo disse que não. Vamos experimentar?, ela sugeriu. Ele falou por que não? E os dois entraram.
Todo Recheio oferece rodízio de bolachas recheadas. Por R$ 19,90, cada cliente tem direito a comer pelo tempo que quiser, e conseguir, as 32 opções. Há bolachas com recheio de morango, limão, chocolate, leite condensado, goiaba, requeijão, queijo cheddar, rabanete, entre outras possibilidades.
Logo que o casal se acomodou nas cadeiras em uma mesa, um de frente para o outro, Lara riu pela primeira vez desde que chegou na cidade onde Enzo mora. O que foi?, ele perguntou. Nada, ela respondeu, olhando mais uma vez para uma das mesas, no máximo dez metros distante de onde os dois estavam.
A decoradora de interiores ria do Vinícius Queiróz Torres. O engenheiro, conhecido em quase todo o país, pedia três, quatro unidades de cada sabor e enfiava uma ou duas dentro da boca ao mesmo tempo. Em cima da mesa, uma garrafa de 3 litros de Coca-Cola.
Enzo nem sabe que existe um sujeito chamado Vinícius Queiróz Torres e que é por causa dele, Vinícius Queiróz Torres, que Lara está rindo. O administrador de empresas também começa a rir, principalmente, toda vez que um garçom oferece uma bolacha recheada, sabor morango, aceita?
Lara mastiga bolachas recheadas olhando para Enzo e para o Vinícius Queiróz Torres. Ela não o conhece pessoalmente, mas leu num jornal que o vizinho de mesa no restaurante já foi processado por copiar projetos de outros engenheiros e, devido ao uso ilegal do trabalho alheio, pagou mais R$ 960 mil.
Enzo e Lara pedem a conta, ele paga, carrega a mala dela e os dois caminham em direção à rua enquanto Vinícius Queiróz Torres segue a comer duas ou três bolachas recheadas ao mesmo tempo.
Lara e Enzo se tornaram namorados e viveram juntos por alguns anos. O que aconteceu com eles, depois, não é interessante e será omitido deste enredo. Vinícius Queiróz Torres se tornou unanimidade e é considerado gênio, apesar de apenas copiar, com mínimas alterações, obras de profissionais de outros países, as quais críticos e especialistas locais não têm acesso. Jonas, ou melhor, Tony passou sete anos preso e, nesse período, começou a escrever e a declamar poesia. Se alguém diz oi, ele responde, no instante, boi. Ao som da palavra laringe, Tony reage com esfinge. Recentemente, conseguiu sair do presídio, onde recebeu o apelido de Minha Pequena Eva. Criou e mantém um blog e anuncia que vai publicar um livro. Por enquanto, apenas fala mal de quem escreve e publica obras literárias.

Era isso.

Ficção inédita publicada originalmente nas páginas 20 e 21 da edição de setembro de 2013 do jornal RelevO.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

No Leblon

Entro no prédio e a mulher da portaria pergunta onde vou. Ela ainda não me conhece.
– Vou no 30.789.
Também digo, e nem precisava ter tido, que vou levar um arquivo.
– De que tamanho?
Tiro um pen drive do bolso e mostro pra ela.
– Esse aqui.
Sigo até o elevador.
Entro, aperto o número 3.
O elevador sobe e em segundos estou no terceiro andar.
Caminho sete, oito passos, tiro a chave do bolso, abro a porta.
Pronto.
Estou dentro do meu apartamento.
Só consigo ficar em pé aqui.
Mas realizei um sonho antigo. Agora, moro no Leblon. Sim. Na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Adquiri um espaço. Comprei um metro quadrado por R$ 21 mil. Vinte e um mil reais.
Investi nesse projeto quase o todo o dinheiro que economizei em vinte e um anos de trabalho.
Quer mandar uma carta pra mim? Agora meu cep é vinte e dois mil.
De onde moro, basta seguir por duas quadras e já estou de frente pro mar. A água é gelada. Mas é a orla do Leblon.
Desde que pisei nesse calçadão pela primeira vez, isso foi em 1992, decidi que um dia eu deixaria Curitiba no passado pra viver aqui.
E demorou.
Estive outras vezes no Rio e, em toda passagem pela cidade, eu refazia a promessa: morar no Leblon.
É praia com opções urbanas. As bancas de jornal são a prova de que o Leblon é cosmopolita. Tem revistas europeias, jornais norte-americano, argentinos e livros. Tanta porta comercial, sapateiro, chaveiro e bancos.
Almocei em um restaurante, não veio muita comida no prato, e paguei uma conta que levou mais dinheiro do que gasto em um mês.
Em geral não almoço – mastigo uma coxinha, um pastel e bebo um refri de 300 ml.
O importante, o que importa mesmo é essa paisagem – é respirar essa maresia.
Vejo tanta gente e enxergo uns famosos. Pessoal da televisão, apresentadores, cantoras, atrizes, modelos, figurantes. Eles passam e não me veem, mas os outros, os não famosos, também não percebem a minha presença. Sorriem uns para os outros, menos pra mim. Nunca me convidaram pra ir na casa deles, nunca me convidarão, mas parecem simpáticos – e essa simpatia quase me comove.
O dinheiro que sobrou da compra do imóvel me garante comida e bebida e sobrevivência até a Copa. Depois? Não sei. Mas até lá quero fazer o que mais gosto, que é seguir na cidade.
 Antes da mudança, imaginava que, aqui, eu iria beber o tempo todo. Mas parei com cerveja, chope e vinho desde o dia em que me instalei nesse um metro quadrado da Aristides Espínola.
Agora só bebo água e tomo um, dois, três banhos por dia – apenas no mar.
Pego umas ondas, esses jacarés eu pego, só não peguei nenhuma mulher aqui no Rio. E são tantas. Na areia, na calçada, na Delfim Moreira, na Pizzaria Guanabara, no Fratelli.
Ainda não visitei o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar nem o Maracanã. Talvez, na Copa, quem sabe?
Por enquanto, sobrevivo – vou em frente. Toda quarta e sábado aposto na Mega-Sena. Vai que eu ganho? Daí eu compro uma cobertura, com piscina, quatro quartos e vista pro mar por R$ 30 ou 40 milhões.
Já pensou?
Eu com grana, no Leblon, na Copa?

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“No Leblon” foi publicado originalmente na página 65 da revista Ideias (Travessa dos Editores), edição 142, de agosto de 2013.