sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma canção para você

Noturno foi o cenário onde nossos olhares se encontraram pela primeira vez, lembra? Pál­­pebras a piscar, brisa a 17 graus, e a ventura de beber em seu copo e descobrir segredos a cada dose ingerida gota seguida de gota.

Quarenta rosas vermelhas, sete garrafas de malbec, setenta ligações, milhares de palavras, e nossos corpos passam a atravessar as mesmas madrugadas. Todos os galos que tecem as manhãs não conseguem interromper nossas viagens oníricas – e em algumas quartas e quintas-feiras os lábios despertariam insinuando uma alegria até então desconhecida naquele primeiro outono de nossa era.

Um maremoto no Oceano Índico iria provocar tanto vendaval em nossa rota, e nem estávamos em alto-mar, nem mesmo dentro de um barco seguíamos quando um nevoeiro quase interrompeu a viagem a dois.

Em terra, nem tão firme, nossos passos entravam em sintonia, apesar de eu caminhar quase parando. O seu balé fluente acelerou o meu tropeçar em pedras e mesmo na estrada toda em linha reta e plana.

Talvez devido àquele incidente em um mar distante de nós, a poucos metros antes de chegarmos à Pasárgada, a ponte ruiu e um precipício instransponível sinalizava ponto final, ou talvez uma espera de povoar com fios brancos as nossas cabeleiras.

Em vigília nos demos conta que somente em silêncio poderíamos nos entender. Depois disso reparamos, um no outro, que nossas asas estavam quebradas. As cicatrizes de guerras passadas também nos aproximaram.

Um, dois, três passos e pulamos no precipício – ou foi de um avião? – e não havia paraqueda e, se tinha, não abriu. Foram as nossas asas, das quais nem lembrávamos da existência, que nos conduziram por cima de rochedos, prédios, manadas, nuvens carregadas, mas havia uma pista de pouso a nos esperar nas imediações de uma serra, e foi ali que aterrissamos.

O perambular ziguezagueante e não pouco repetitivo em busca da água, do pão e do vinho iria fazer das labaredas monumentais mera fagulha, dessa que um palito provoca ao roçar a superfície lateral de uma caixa de fósforos. Mas não foi essa nem outras mudanças que colocariam um ponto final em nosso enredo. Me dei conta disso em meio a outras quedas, quando as minhas asas já haviam derretido e também ao não me reconhecer mais diante de espelhos, seja em águas transparentes ou na voz de quem passa na estrada.

Um dia, encontramos nossa morada no alto da planície, e uma porta fechada fez com que uns cem metros quadrados se tornassem o nosso mundo, onde a infância pode renascer em qualquer momento, e um segundo depois já somos esses humanos envelhecidos que um dia serão folhas secas.

Tudo o que calo na rua, é comício em casa, mas ainda não subi no telhado, nem abri a janela às três e dezoito da manhã ou durante um feriado para dizer, com um microfone ligado em volume trinta, que gosto tanto de você, e acho até que te amo, por que esse bolero não tem jeito de ter eco na esquina, quem dirá na primeira página do jornal, mas, sabe, está saindo, aqui, veja, leia, neste recanto do Ca­­derno G.

Crônica publicada no sábado 29 de janeiro de 2011 no Caderno G, suplemento de cultura da Gazeta do Povo.