quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Tem Finalmente hoje na Livrarias Curitiba

Ainda tem exemplares de Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), o meu quinto livro de contos, nas lojas e no site da Livrarias Curitiba. Apenas R$ 29,90!

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Tem Mais laiquis na Livrarias Curitiba

Ainda tem exemplares de Mais laiquis (Tulipas Negras, 2015), o meu quarto livro de contos, nas lojas e no site da Livrarias Curitiba. Apenas R$ 40!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Salve o compositor popular

Com a Adriana Sydor no lançamento de Salve o compositor popular, livro publicado pela Travessa dos Editores com projeto gráfico do Miran. Foto do Felipe Kryminice.

Ainda tem 2,99 na Livrarias Curitiba

Ainda tem exemplares de 2,99 (Tulipas Negras, 2014), o meu terceiro livro de contos, nas lojas e no site da Livrarias Curitiba. Apenas R$ 30!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Ainda tem Golegolegolegolegah! na Saraiva

Ainda tem Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores, 2013), o meu segundo livro de contos, na Saraiva. Apenas R$ 25,50!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Lançamento de A palavra algo

Com o Chacal e a Luci Collin na noite de 8 de dezembro de 2016 durante o lançamento de A palavra algo (Iluminuras, 2016), no Jokers, em Curitiba.

Finalmente hoje em Guaíra (SP)

Maria José e Katia, leitoras e funcionárias da Biblioteca João Augusto de Melo, em Guaíra (SP), onde Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), o meu quinto livro de contos, está disponível para leitura. Obrigado, Alex Tomé!

Hoje tem A palavra algo


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Finalmente hoje


Alex Tomé lê Finalmente hoje

O escritor Alex Tomé leu Finalmente hoje e escreveu o seguinte:

Bom dia, Marcio. Escrevo para "falar" do seu livro. "Finalmente Hoje" sangra e nos faz sangrar. Parece haver dois movimentos paralelos nos contos que compõem esse fascinante volume. Um movimento interno em que as coisas acontecem e um externo absurdamente mundano. Em "Pimenteira" há uma promoção que só ocorre na cabeça de Pericles, ele elucubra, sonha, agoniza. De real mesmo apenas uma pimenteira que seca por motivos alheios ao que ele tanto delira. E assim outros contos vão na mesma toada como "O segredo do casamento". Esse movimento contrário de forças percorre a obra como em "Feliciano" em que Jair (Bolsonaro?) à medida que sacaneia colegas de trabalho é traído pelo chefe e a amante. Seu livro é demasiadamente humano, portanto, doloroso, engraçado e visceral. Por fim destaco "Não dá pra segurar" que tem uma fluência narrativa perfeita e quando estamos íntimos do personagem e da narrativa, o conto termina em abrupto com uma espiral de possibilidades e questionamentos. Um conto e tanto de um livro memorável.

Obrigado, Alex, pela generosidade. Grande abraço.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Um pouco mais ao sul

Neste sábado (19), Luiz Rebinski autografa o romance Um pouco mais ao sul no Bar Ornitorrinco (R. Benjamin Constant, 400, centro, Curitiba). A sessão de autógrafos tem início às 18h30 e, a partir das 19 horas, Fábio Elias interpreta canções autorais, de sua banda Relespública e clássicos do rock and roll. Entrada franca Mais informações: (41) 8834-9308.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Com Valter Hugo Mãe

Com o Valter Hugo Mãe na Livrarias Curitiba do Shopping Palladium, na noite de 10 de novembro de 2016.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Enviar uma carta


O plano era enviar a carta antes de entrar no trabalho. Então, dois senhores, por causa do benefício da idade avançada, são atendidos com prioridade. Anderson tem vinte minutos pra despachar a correspondência. Uma mulher, com mais de sessenta anos, entra na agência e também é atendida antes dele. Anderson confere o horário e pensa que, se aparecer mais um idoso, tudo pode atrasar.
Outras pessoas iriam entrar na agência — pelo menos, dez ou vinte, pouco mais novas, pouco mais velhas que Anderson, naquela manhã, com quarenta e cinco anos. Essas dez ou vinte pessoas, alguns homens, outras mulheres, ficaram atrás dele na fila. Outros, idosos, também chegaram e foram atendidos antes de Anderson e daqueles que não tinham carteira de idoso ou mais de sessenta anos.

Então, após ficar em pé durante trinta, quarenta minutos, caminha até uma cadeira, e senta. Não lembra de ter retirado senha. Talvez, pensa, já não faz diferença perder a vez. Suspira. Fecha, abre os olhos e tem a impressão de não estar na agência do correio. Há caixas eletrônicos, escadas rolantes, parece um banco.
Sentado, Anderson se dá conta de que já deve ter passado o horário de entrar no trabalho e, como não encontra o celular, não pode avisar os colegas. Mas, lembra, adiantou tarefas e, portanto, mesmo presente, não teria o que fazer no escritório.
E a carta que iria enviar? Onde está?
Anderson procura nos bolsos da calça, da camisa e do blazer. Nada.
— O próximo?
Segue até o guichê. Está numa agência bancária.
— Senhor Anderson, tudo bem?
— Tudo.
— Em que posso ajudar?
— Sabe...
Anderson conversa com a funcionária do banco, Mônica, o nome está escrito no crachá. Faz um comentário a respeito da economia, arrisca uma piada sobre si mesmo, pergunta as horas, diz estar satisfeito com o atendimento e se despede.
Senta na mesma cadeira onde estava antes de ser chamado e tem a impressão de que esta foi a primeira vez em que não percebeu a passagem do tempo ao esperar e, coincidência, nesta vez não tinha nada a fazer nem o que falar com a pessoa do atendimento.
Já entrou numa agência bancária para pagar uma conta, recebeu a senha 117, o painel eletrônico anunciava a vez para a senha 32 e esperou por mais de quatro horas — idosos chegavam e a preferência era deles. A situação, com algumas variáveis, se repetiu, não lembra quantas vezes.
Anderson saiu do banco e está em pé. Agora, espera para atravessar uma rua. Mas o movimento não para. São carros, motos, ônibus, caminhões, vans, até bicicletas. Não há faixa de pedestre. É preciso aguardar. Mais um pouco. Talvez não por segundos, e sim por minutos, muitos minutos. Uma hora?
Está, faz quase uma hora, na padaria. Apenas uma pessoa atrás do balcão, idosos são atendidos com prioridade e a vez de Anderson não chega. Pretende levar sete pães, duzentas gramas de queijo e de presunto.
— O pão de queijo é fresco?
— Saboroso!
Quem está na fila conversa.
Às vezes, sem interlocutor.
— Hoje o dia foi pesado.
Há quem cante.
— Hoje é amanhã, e amanhã ninguém sabe.
Anderson segue em silêncio. Saliva, olha pras coxas de uma mulher, pra bunda de outra, pros peitos de uma terceira, e ainda falta muito?
Há mais de dez, vinte, pelo menos trinta pessoas na frente de Anderson. Já despachou a bagagem, duas malas e, daqui a pouco, o avião decola.
— Não poderia entregar a carta pessoalmente?
Anderson não sabe, mesmo, onde deixou a carta, nem para quem escreveu. Se o endereço do destinatário coincidisse com o ponto de chegada do voo, resolveria, enfim, aquilo que pretendia fazer quando acordou.
Saiu dos sonhos do mesmo jeito que vai agora, sem saber para onde está indo. Os passos não são firmes, indecisos, apenas tocam o chão e o impulsionam pra frente.
Tem início o serviço de bordo, Anderson bebe água, olha pela janela e está azul, e não cinza, como estava no momento em que o avião decolou. Se fosse escrever uma carta, quando o avião ainda estava no aeroporto, confessaria estar com medo, medo do avião não subir. Agora, a dez ou doze mil metros de altura, está mais calmo. Talvez, no momento do avião aterrissar, volte a sentir medo. Mas, até lá, pretende pensar em outras coisas.
Não pensa em nada e o avião já aterrissou. Anderson não sentiu medo, talvez estivesse pensando em algo ou, então, se distraiu. Levanta e tem uma fila pra sair. Depois, outra espera, pela bagagem. Em seguida, olha pro chão enquanto não chega o táxi que o levará até um endereço que ele não sabe ao certo onde é.
Seguindo a sugestão de um desconhecido, caminha até uma sala e senta em uma cadeira. Anderson olha pros lados, abre e fecha os olhos. Está, de novo, na agência do correio onde foi enviar uma carta antes de entrar no trabalho. Mas, tem a impressão, há outras pessoas no atendimento e, uma delas, uma mulher, olha pra ele e diz:
— Pode vir, senhor.
Anderson olha pros lados, pra trás.
— É o senhor mesmo, pode vir. É a sua vez.
Sente dificuldade pra levantar e, enquanto caminha, vê a imagem refletida num espelho. As roupas parecem de outra pessoa. O rosto também. Os cabelos estão todos brancos, usa óculos e segura, em uma das mãos, um envelope com a carta que pretendia despachar. Na outra mão, há uma bengala.


Conto publicado no meu no livro Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), que em março deste ano já circulava.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Seis anos de Minda-au

Publiquei há 6 anos, em 2010, Minda-au, o meu primeiro livro de contos, pela Editora Record.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ele não mora mais aqui

 
A convite do Jorge Ialanji Filholini, escrevi um texto sobre o Antonio Carlos Viana, que nos deixou na última sexta-feira, 14 de outubro de 2016. Conteúdo publicado no site Livre Opinião — Ideias em Debate.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O bom espírita

Ai, Boneco!
Que foi, Boneca?
Está doendo.
Mas você gosta, não gosta?
Assim não.
Que nada!
O quê?
Tá fazendo manha!
Você está me machucando!
Nada a ver.
Está sim.
Mentira.
Boneco se movimenta com mais intensidade e ejacula. Sai da cama, vai no banheiro e pega o celular.
Tudo bem, Boneca?
Estou sangrando.
Sério?
Machucou!
Isso passa.
Você...
Vou postar uma foto do nosso gatinho.
O quê?
Sim, no Face.
Está louco?
Não, postar foto de gatinho rende likes.
Não acredito.
Também preciso postar umas frases.
Frases?
Sim.
Por quê?
É a minha missão.
Missão?
Já sei. Vou escrever que aquele que pratica o bem coloca em movimento as forças da alma. E que, quando os espíritos recomendam a prática do bem, eles estão nos orientando no sentido da própria evolução.
Porra, Boneco.
Ei, controle a língua!
Que merda.
Não fale palavrão, Boneca.
Por quê?
Atrai coisas ruins!
Que bobagem.
O quê?
Você me machuca e fica posando de gente boa.
Mulher pouco evoluída...
Vá à merda!
Já sei. Vou postar um recado pra você.
Pra mim?
Durante uma suposta crise, não se deixe abater. Suporte a provação sem reclamar. Aceite!
Cínico!
Não grite. Antes, abençoe. Fique em silêncio e deixe estar.
Seu merda!
Você deveria agradecer por todas as dificuldades.
Agradecer?
Não fossem os obstáculos, você estaria na mesma.
Boneco, quer saber de uma coisa?
O quê?
Vá pra puta que te pariu!
Você vai ver o que é bom!
Boneco pula em cima da Boneca. Ela não quer, diz que não, mas ele insiste.
Após alguns minutos, Boneco ejacula e sai de cima da Boneca. Boneco tem um metro e noventa e cinco centímetros, usa tênis 44, a calça é 46, a camisa, GG, mas o pau tem menos de oito centímetros. Menos de oito centímetros quando atinge uma ereção.
Boneca contaria pras amigas que as relações sexuais com ele, Boneco, sempre foram mais ou menos.
O Boneco, quem diz é a Boneca, fazia sexo com violência, mas ela quase não sentia.
Um dia, ele disse que ia colocar só a cabecinha. Daí, enfiou.
Pedi pra colocar mais, meter tudo. E não é que ele tinha colocado tudo e parecia ter enfiado apenas a cabecinha?
A Boneca, depois do fim da relação, analisa que ficou com o Boneco por comodismo.
Trabalhavam na mesma empresa, a Boneca era chefe e ganhava mais que o Boneco. Fora isso, ele estava livre, ela também e, uma noite, saíram. Ela bebeu vinho, ele, água.Transaram e, em seguida, começaram a se encontrar fora do trabalho.
Ficamos por não ter coisa melhor pra fazer.
Mas ela sempre enfatiza que casar, ter filhos, não estava em seus planos.
A trepada era ruim. A conversa mais chata ainda.
Depois de um tempo, tudo se desmanchou.
Só não lembro exatamente quando.
Ele casou com outra colega de trabalho, batizou o filho com nome de um papa e continua postando no Face fotos de gatinhos e mensagens espíritas.
Boneca se arrepende do envolvimento. E repete que nunca o elogiou.
O pau dele foi o menor que conheci.
Boneco diz que a ex era, e ainda é, apaixonada por ele, e que a trocou por uma mulher de verdade.


Conto publicado originalmente no meu livro Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), em março deste ano.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

No lançamento de Vozes do Paraná 8

Participei do lançamento de Vozes do Paraná 8, livro do Professor Aroldo Murá, na noite de 6 de outubro de 2016. Eis a matéria sobre o evento.

sábado, 17 de setembro de 2016

É um táxi que chega inesperadamente


A Rua XV é um palco iluminado. Não! Não é isso que pretendo dizer. A Rua XV é mais. A Rua XV é uma passarela rumo ao infinito. Isso. Agora sim. Acertei uma frase, ganhei o dia. Já posso entrar no Face e começar a dar likes nas postagens dos meus amigos, os escritores. Ah, nós, os escritores. Que vida!
É importante dar likes nos posts dos amigos, mas, sabe, estou com uma vontade de passear. Sentir o movimento da cidade.
Boa ideia!
Vou colocar o meu manja, o meu novo Ray-Ban, e sair pela Rua XV. Daí, posso olhar tudo e todos sem dar muito na cara que estou manjando. Coisa boa o óculos escuro. Bela invenção da humanidade!
Mas, ultimamente, estou mesmo manjando aves. Outro dia, até escrevi sobre isso. Todos param na praça, olhando pra cima e o que é?, o que é?, quem é?, quem é?
— Raimundo Nonato!
Não. Isso não funciona. Preciso fazer um texto sem gracinha. Assim, não pega bem.
Nós, os escritores, pensamos em coisas sérias.
E, como eu ia dizendo, estou de olho em aves.
Beija-flor, gaivota, urubu, corruíra, jacu, pintagol, sabiá, pardal, balança-rabo, canário, coleirinho, tiziu, sanhaço, caturrita, araraponga, rola, pomba-rola e, principalmente, rolinhas.
Aqui na cidade, em plena selva de pedra, consigo observar pássaros.
Se não fosse escritor, seria ornitólogo. Boa, outra frase pruma crônica: se não fosse escritor, seria ornitólogo!
Mas a vida me fez escritor.
Que coisa, hein?
Sou, digamos, um catalogador de acasos. Outra frase inspirada, até mesmo título, pruma crônica autobiográfica: catalogador de acasos. Só que não apenas catalogo, eu edito. Isso. Sou um editor de acasos! Outra frase matadora: o escritor é um editor de acasos!
Estou inspirado, coisa boa.
Na realidade, sou inspirado. Vivo inspirado. Sabe, nós, os escritores, somos, mais que inspirados, uns iluminados!
Por falar em luz, adoro um palco. E qual escritor não gosta? Nem todos confessam, mas nós, os escritores, somos uns vaidosos.
Agora, já estou na Rua XV.
Que rua, que lugar!
Caminho, já andei alguns passos, mas, curioso!, ninguém me reconhece. Deve ser por causa do óculos. Sim. Só pode ser por causa desses óculos.
E então? Será que guardo no bolso?
Melhor não. Sem o óculos, não vou mais poder manjar à vontade. E aqui na Rua XV tem tanta gente e tanta coisa pra ver.
Sigo num trecho onde, no passado, funcionavam cinemas e cafés. Hoje tem, principalmente, fast-food e lojas de roupa.
Passa muita gente neste lugar, ninguém olha pra mim, até parece que sou invisível. Mas, na realidade, acontece outra coisa.
Fingem não notar minha presença pra eu poder circular à vontade!
Posso ir e vir sem ser assediado. Que beleza! Que privilégio.
Entro numa livraria. Vou até a estante onde, faz sete meses, colocaram quatro exemplares do meu livro mais recente. Encontro, quase no mesmo lugar, os mesmos quatro exemplares. Mais de meio ano e ninguém se interessou. Como pode?
Mas, desconfio, a situação é outra!
Os vendedores não deixam meus livros saírem da loja. É pra manter a minha presença no local por meio da presença física das obras que escrevi.
Ah, nós, os escritores! Somos mesmo muito protegidos!
Não fossem os amigos vendedores, meus livros já teriam sido vendidos e, se uma pessoa entrasse hoje na loja, não encontraria nenhum exemplar. Coisa boa!
Acho que vou entrar naquela agência bancária e conferir meu saldo. Numa dessas, faço um saque e sigo pela rua com dinheiro na carteira.
Nós, os escritores, não precisamos trabalhar, pelo menos não da maneira tradicional.
Por isso, é possível entrar num banco fora do horário de pico, agora, às 15h49, quando a maior parte dos trabalhadores está nos escritórios, nas fábricas, nas lojas, cumprindo as oito horas diárias.
Não, não vou entrar no banco. Prefiro seguir, parar num outro banco, desses de sentar, e não fazer nada. Posso não fazer nada. É um privilégio, uma conquista, a vantagem de ser escritor.

Sabe, a matéria-prima do escritor é o impalpável.
Que frase! Preciso lembrar e incluir isso numa crônica.
Nós, os escritores, produzimos textos pra jornais e revistas.
É um conteúdo fundamental para a imprensa. Sem dúvida, bem mais importante que as notícias, as fotos e as outras informações.
É a palavra, escrita e impressa, de nós, os escritores, o que, no fundo, garante a verdadeira credibilidade dos veículos de comunicação.
Ah, nós, os escritores!
Somos os responsáveis por elaborar os pilares invisíveis do tempo em que vivemos.
Outra bela frase!
Nós, os escritores, também ganhamos dinheiro ensinando escrever. Curso de criação literária é uma fonte de renda.
Mas, preciso confessar, acho esses eventos entediantes.
Tem uns que entram só pra fazer contato, outros por não ter ocupação. A maior parte precisa de noções gerais do idioma e há uma quantidade, maior do que se imagina, a fim apenas de namorar, principalmente, o professor.
Bom, se os alunos lessem, tudo seria mais fácil, mas poucos estão interessados em leitura.
Prefiro participar de mesas de bate-papo. O público desses eventos literários está mais a fim de ver do que ouvir o escritor. E basta enunciar seis, sete frases, até menos, que o cachê está garantido.
Ah, nós, os escritores, somos, realmente, uns privilegiados!
Nesses encontros, chego com algumas frases que valem pra qualquer tema.
Por exemplo, vou pensar em uma.
Vamos lá, vamos lá, vamos lá. Já sai, está saindo Daqui a pouco sai. Opa, estou quase lá. Já vai. Deu.
— É um táxi que chega inesperadamente.
Com essa frase, é um táxi que chega inesperadamente, posso responder praticamente qualquer pergunta.
Se me perguntam o que é a vida?, respondo: é um táxi que chega inesperadamente.
Posso usar a frase pra definir o que é a morte, o amor ou a inspiração pra escrever: é um táxi que chega inesperadamente.
Maravilha!
Vou anotar essa frase: é um táxi que chega inesperadamente.
Numa dessas, uso pra finalizar algum texto, qualquer um.
Ou coloco no título.

[Conto publicado no meu quinto livro de contos, Finalmente hoje, pela Tulipas Negras, já em 31 de março de 2016].

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Paulo Polzonoff Jr resenha Finalmente hoje

Paulo Polzonoff Jr leu e não gostou de Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), o meu novo e quinto livro de contos. A resenha foi publicada na revista Ideias, 179, de setembro de 2016, com o título "O maldito gosto do sabão":

“Seu livro é ruim”. “Seu livro tem defeitos”. Imagino como deve ser desagradável para um escritor ouvir esse tipo de coisa. Sobretudo numa época em que autor e obra tanto se confundem, fazendo da literatura (e de outras expressões artísticas) tão-somente uma expressão do eu infantil, isto é, do narcisismo.

Conheço o contista Márcio Renato dos Santos de outras épocas, outros cafés e cervejas. Sempre me pareceu um homem dedicado e esforçado, com um riso fácil. Não tenho motivo algum para denegrir o trabalho dele como escritor. Pelo contrário. Ao abrir Finalmente (Tulipas Negras, 2016), meu encantamento anterior à leitura era claro. Sempre me fascina a ideia de ter amigos talentosos.

Na tentativa de encontrar algo que se salve a coletânea de contos, fiz algo que me é raro: li o livro três vezes. Quis, queria e quero aqui usar de toda a generosidade possível. Mas às vezes os fatos (neste caso, as frases, as histórias e as muitas vírgulas desnecessárias) se impõem para além da boa-vontade do leitor. É uma pena. Sempre é.

O conto que abre a coletânea, Pimenteira, é um vislumbre desse potencial não aproveitado. Há nele um quê de A Morte de Ivan Ilitch, o que não é pouca coisa, como sabem aqueles que já tiveram contato com a obra-prima de Tolstói. O autor (Márcio, não Tolstói) capta bem a capacidade humana de ampliar problemas banais e conferir ao cotidiano simples ares de batalhas épicas, com um quê de sobrenatural.

Seria bom, ou melhor, seria ótimo, não fossem as falhas técnicas que pontuam toda a narrativa, bem como a completa ausência de pathos. As frases se acumulam e se amontoam sem levar o leitor a qualquer tipo de transcendência estética. Parece o relato de um cartorário com inclinações literárias. Um cartorário que também precisa dominar a técnica narrativa, sobretudo no que diz respeito aos tempos verbais. Porque há uma diferença entre confundir tempos narrativos propositadamente, fazendo a história avançar, retroceder e parar, e confundi-los por descuido ou desconhecimento, o que só revela um louvável mas estéril esforço de se comunicar com o leitor.

O problema dos tempos verbais pontua todo o livro. A narrativa começa no presente, passeia pelo passado e, ao voltar para o presente, continua no passado. Ou está no passado e, do nada, flerta com o presente. É algo tão recorrente que, a certa altura, achei que pudesse ser algum toque de genialidade à la Nolan. Não é.

Assim como não é nenhuma genialidade a tentativa fracassada de retratar o banal usando, para tanto, uma narrativa também banal. Principalmente em narrativas curtas, todas as frases importam e precisam ter relevância, fazer sentido na história. Aqui, muitas vezes se tem a impressão de que, mais uma vez, o narrador é apenas um cartorário tentando preencher páginas de um relatório que por acaso chama de conto. A banalidade e irrelevância das informações (e o problema dos tempos verbais) podem ser exemplificados neste parágrafo de “Com Açúcar, Com Afeto”:
“Lembro que ela costumava oferecer coxinha de frango. Casca crocante, feita e frita na hora. Com um recheio de tempero que nunca mais encontrei em nenhum bar, restaurante ou feira livre. O bolinho de carne também é inesquecível”.

Não há, pois, densidade, apesar de as narrativas bem curtas pressuporem justamente isso. O conto proposto pelo autor não é uma “short story”; é conto no sentido mais brasileiro do tempo, algo que em muitos casos se aproxima, ainda que indevidamente, da prosa poética. E, no entanto, não há nenhuma sugestão elevada ou mesmo bela nas frases de Finalmente. Que, em muitos casos, parecem somente um amontoado de informações que qualquer editor um pouco mais exigente cortaria do texto final. A questão é: em fazendo isso, o que sobraria do texto final?

Arriscaria dizer que sobrariam… vírgulas. Algum professor mal-intencionado deve ter dito ao autor que ele deveria usar vírgulas para separar quaisquer advérbios que estivessem fora de lugar. O resultado é algo gramaticalmente correto, vá lá, mas que interrompe o ritmo das frases – que já não é dos melhores. É, sobretudo, algo que não passa em nenhum teste de oralidade, como se vê nesta frase do conto “Um a Um”:

“A sensação de que a vida está acelerada para todos Benício percebe, realmente, por contraste, agora, em dias de jogos da seleção”.

Aliás, uma boa forma de submeter qualquer texto ao teste da oralidade é analisar diálogos. Tarefa supostamente fácil em Finalmente, já que alguns contos são compostos basicamente por diálogos. No que, para minha decepção, o livro também fracassa. Os contos-diálogos são marcados por um monossilabismo constrangedor que, mais uma vez, revela apenas a banalidade e a irrelevância narrativa. São diálogos rápidos, sim, mas estéreis. Cadê o humor, o wit? Ou, por outra, cadê aquela constatação fatídica que nos faz querer ficar de cama a semana inteira?

Pior ainda é constatar que, nos poucos momentos em que o contista tenta beber em águas mais profundas, acaba caindo no lugar-comum e na escatologia. O humor autodepreciativo e autorreferente de “É Um Táxi Que Chega Inesperadamente”, ainda que seja um suspiro de vitalidade na coletânea, nada mais é do que a velha e ensimesmada narrativa do escritor vivendo a literatura cotidianamente. E “Bem-Estar, Poucos Passos” e “Simeticona” recorrem à dupla Fezes & Flatos que, sinceramente, já não despertam nem nojo no leitor minimamente experiente.

Por fim, não posso deixar de mencionar o trecho em que se lê “duzentas gramas de queijo e de presunto”. Com todo o respeito, um escritor (e editor e revisor) não pode deixar passar algo assim.
É com tristeza e decepção que fecho Finalmente. Ao lê-lo, e diante da impossibilidade de aplaudi-lo, por mais que realmente quisesse, me senti como uma criança que abocanha o pudim só para descobrir que, na verdade, era uma barra de sabão. Não vou abdicar do pudim, claro. Mas sempre me lembrarei do maldito gosto do sabão.

Can't find my way home


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A incrível recepção de Finalmente hoje mostra o conto em bom momento

Toda vez que alguém diz “conto não vende” ou “livro de contos não desperta o interesse do público”, é preciso desconfiar. Há inúmeros contistas em atividade no mundo e no Brasil. Alguns dos mais expressivos autores da ficção breve brasileira estão vivos e em atividade, entre os quais Rubem Fonseca, Sergio Faraco, Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna e Dalton Trevisan. Há, inclusive, autores relativamente mais jovens, mas já com obra e, neste caso, o destaque vai para o curitibano Marcio Renato dos Santos.
Os leitores da coluna acompanham os movimentos literários de Marcio, que registro desde o seu primeiro livro de contos, Minda-au (Record, 2010). No entanto, o que surpreende é a recepção do mais recente e quinto livro dele, Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), disponível desde março deste ano — o lançamento aconteceu na noite de 11 de maio na Livrarias Curitiba do Shopping Estação.

OBSERVADORES
Antes mesmo de ser lançado, “Finalmente hoje” já disse a que veio a partir do olhar de observadores atentos — inclusive, o texto de apresentação é do escritor e tradutor Ernani Ssó. Mas, no caso da recepção em sites, blogs e imprensa, a primeira notícia da obra aconteceu dia 14 de abril. Wilame Prado comentou o livro em sua coluna, no jornal O Diário do Norte do Paraná, de Maringá: “Leio há algum tempo os contos de Marcio Renato dos Santos. Há humor sim, mas é um humor que me deixa triste porque me faz lembrar do quanto somos pequenos e mesquinhos. Esse é o grande valor da literatura dele, em meu ponto de vista”.

NOVA CRÍTICA
Dia 29 de abril, Sérgio Tavares analisou o livro em seu blog A Nova Crítica: “Dando continuidade a sua marcante carreira de contista, Marcio compõe retratos da vida que, cobertos por um verniz ora caricatural ora satírico, dão a dimensão do quão complexo pode ser o que é encarado frivolamente como banalidade”. Já Aguinaldo Médici Severino resenhou Finalmente hoje no blog Livros que eu li, em postagem de 10 de maio:
“São 14 histórias, curtas, onde encontramos diálogos rápidos, informais, usualmente bem-humorados, mas que alcançam lirismo nas situações duras, que captam o ritmo frenético do cotidiano e algo do assombro que experimentamos todos, todos os dias”.

METRO CURITIBA
Posteriormente, Finalmente hoje também recebeu atenção, entre outros impressos, do Jornal Metro Curitiba (PR), do Diário do Nordeste (CE) e do Estado de Minas (MG). Cassionei Niches Petry, que vive em Santa Cruz do Sul (RS), analisou a obra e, em texto veiculado em seu blog, definiu da seguinte maneira a literatura do curitibano: “Marcio Renato dos Santos é um contista da experimentação”.
Já o escritor Antonio Cescatto escreveu uma resenha, conteúdo editado pelo Jornal Opção (GO), apresentando aspectos da ficção do contista: “Em 14 contos sintéticos e lacônicos, Marcio leva o leitor a reencontrar personagens que são familiares não pelo que fazem ou vivem, mas pelo que representam e significam em nosso imaginário. Ao mesmo tempo em que são concretos, também são fantasmas. Nossos queridos fantasmas”.

TULIPAS NEGRAS
Vale ressaltar que todas as resenhas são positivas, incluindo também “Finalmente, Marcio”, de autoria de Marco Cremasco, publicada dia 5 de julho pelo jornal O Diário do Norte do Paraná, de Maringá. E, também merece registro, o livro foi editado por uma pequena editora curitibana, a Tulipas Negras. Isso é notícia!
Não deixo de reparar que, até o momento, o livro ainda não recebeu nenhuma crítica negativa. Talvez fosse saudável a existência de um texto questionando, ou relativizando, Finalmente hoje, que tem força, qualidade e se garante. De minha parte, vou reler a obra, disponível para compra na rede da Livrarias Curitiba e também no site www.livrariascuritiba.com.br por apenas R$ 29,90.
Afinal, livro de conto vende — e tem muitos leitores.

Texto de Aroldo Murá publicado no Indústria&Comércio, 25 de agosto de 2016.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Soneto italiano

Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:

De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?

Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!

Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!

Poema de Manuel Bandeira, publicado no livro Lira dos Cinquent'anos (1940).

Entrevista com Clarice Lispector


Los Pirañas