quarta-feira, 24 de abril de 2013

Na marcha dos invisíveis


O meu tataravô abandonou a Europa e, durante a viagem de navio, enunciou algo que passou de avô para mãe e chegou até os meus ouvidos: “Não quero que ninguém da família volte para aquele lugar [a Europa]. Passei fome lá. A vida de vocês será nesse mundo novo”.

Meu passaporte é quase virgem. Mas as páginas de Enrique Vila-Matas me transportam para a Espanha. Balzac me revela a França. Conheço até a asiática Rússia, não devido aos vermelhinhos daqui, mas nas 2.528 páginas de Guerra e Paz. Estou satisfeito. Deixo a vaga em hotéis, restaurantes e filas no continente europeu para os mais animados.

A minha avó Francisca viveu 95 anos e, antes do penúltimo suspiro, me revelou: “Marcio, o segredo da longevidade é não fazer nenhum exercício físico. E comer todo dia três colheradas de açúcar”. Respeito a orientação dos antepassados, e nem cogito desobedecer. Caso contrário, uma maldição se deflagrará e posso vir a sofrer um AVC, um infarto ou, ai de mim, sair pedalando por aí.

Não é necessário se ausentar de Curitiba e, de avião (de bicicleta?), atravessar o Atlântico para, enfim, descobrir que a Europa é diferente daqui. As baitacas que aqui chalreiam não chalreiam como lá. Chalreiam? Lá, o mundo é outro. Sim, aqui não é lá.

Basta ler dois, três, quatro romances para se dar conta de que o homem e a mulher são os mesmos, lá e cá. É a ficção, talvez mais que o deslocamento físico, que pode iluminar. Tudo. Os hooligans e os intolerantes de lá não diferem tanto dos prepotentes e dos equivocados de cá. Sigo, seguirei sedentário em Curitiba, e pelo interior do Paraná. Não gostaria de impor o meu comportamento e as minhas opções para outras pessoas.

Faz sete dias que querem que eu circule com martelo e foice, ou melhor, de selim e guidão em punho. Também pretendem mostrar como são cosmopolitas ao citar cases de sucesso de Londres, Copenhague e Estocolmo – exemplos de lá que poderiam ser implementados aqui. Ninguém respondeu se é possível sair do Sítio Cercado e pedalar 17 quilômetros até o Centro de Curitiba e, depois do trabalho, ativar sobre duas rodas de volta para casa – entre outras questões. Os sofistas só querem, com retórica vazia, a polêmica pela polêmica e – pior – linchar quem tem outro ponto de vista.

Vocês vão por ali? Não, obrigado. Pedestre, vou por aqui. Inclusive, a desviar de algumas Marchas, da Marcha do Orégano e da Marcha das Piriguetes. Tem alguém capitalizando em cima desses ativistas inoperantes e movimentos sociais inócuos. Vou sozinho. Na marcha dos invisíveis. Tchau!
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Publicado na página 11 da Gazeta do Povo na edição de 24 de abril de 2013, eis o link: http://tinyurl.com/bwbnuaq

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Na Tuboteca

O meu segundo livro de contos, o Golegolegolegolegah!, publicado pela Travessa dos Editores, está à disposição na Tuboteca da Estação Central, em Curitiba. Qualquer pessoa pode emprestar e ler. Sem custo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Chatos sobre duas rodas


Quem é o sujeito mais chato da cidade? Não sei, mas tenho a impressão de que é o Poeta Sem Poesia e Sem Obra. Esqueci o nome, alguém sabe? Toda vez que um livro é publicado, o sujeito entra nas redes sociais e, sem ler a obra, tenta desconstruir o autor. Não, o Poeta Sem Poesia e Sem Obra é o ser mais invejoso da capital do Paraná.

Talvez a chatice se revele plenamente na Banda da Internet, a que lançou a canção de uma frase só, e depois sumiu. Esqueci o nome do projeto, chato, muito chato.

O sujeito mais chato da cidade são vários. É uma legião. São os chamados cicloativistas.

Eles são chatos por serem equivocados. Em primeiro lugar, pelo óbvio ululante. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que tem chuva a cada dois dias em Curitiba. Como o sujeito que pedala poderá se deslocar? Vai chegar encharcado e sujo aos compromissos?

Além da onipresente chuva, há uma outra questão. Vamos supor que o cicloativista more no Sítio Cercado e trabalhe no Centro. Vai sair de casa e suar 17 quilômetros antes de bater o cartão?

O cicloativismo é farsa. É fraude, sobretudo, porque quem se diz cicloativista mora perto. De tudo. São pessoas que podem caminhar, poucos passos, até o trabalho, a escola, o bar e o evento. Mas não.

Cicloativismo é proposta de uma minoria mimada e chata que, a exemplo de um candidato a ditador latinoamericano, engrossa a voz para – autoritariamente – enunciar ordens e equívocos.

O que caracteriza o cicloativista, além da chatice, é – de fato – o autoritarismo. Qualquer pedestre sabe que nas calçadas e, pior, nas ciclovias, cada passo é uma África. Os sujeitos que circulam sobre duas rodas, com capacete e ideologia, são tão agressivos como os motoristas descontrolados. Querem se impor e, em ação afirmativa, quase atropelam – diariamente – bípedes com polegar opositor que apenas caminham.

O ciclativista é como o Poeta Sem Poesia e Sem Obra: reclama que o mundo deve algo a ele. Mas não faz nada para mover a roda viva. Ou melhor, faz sim. O ativista de bike quer circular em meio aos carros, mas segue na contramão, sobre calçadas, fazendo tudo errado, inclusive a desrespeitar sinais de trânsito.

Nem motorista, nem pedestre, o cicloativista é, além de chato, o equívoco social contemporâneo. Quer causar. Busca autopromoção. E, ora direis, consegue holofote e até ocupa espaço no jornal. Hoje, invadiu até esta coluna.

Há sujeito mais chato? Sim. Talvez, eu.

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Texto publicado originalmente na página 11 do caderno Vida e Cidadania do jornal Gazeta do Povo no dia 17 de abril de 2013. Link: http://tinyurl.com/bpo75pe

terça-feira, 16 de abril de 2013

Relespública: Live at Leeds

O Rony Cócegas foi amigo e baterista do Raul Seixas. A frase surgiu dentro de uma van no último sábado. A Relespública tinha compromisso: apresentação no Leeds, um pub em Ponta Grossa.
           
Os 114 quilômetros entre Curitiba e o segundo planalto foram de prosa, “trocando papos e risadas, no intervalo da sessão”. Não lembro se foi o Fabio Elias, o Emanuel Moon ou o Ricardo Bastos quem falou que o meu ator favorito, que se tornou célebre com o personagem Galeão Cumbica, também era músico – dos bons.

Quando me dou conta, já estamos na Rua Dr. Paula Xavier, 1.070, em Ponta Grossa. O Lauro é o técnico que acompanha a banda. Ele conhece todo grave e cada agudo, e acerta o som. Havia alguma apreensão. Agora, há algumas horas de não fazer nada.

“Não sou músico profissional. Sou baterista da Relespública”, disse, ao recuperar fragmentos dos 24 anos da banda, o Emanuel Moon. Durante intervalo recente, quando o Fabio Elias deixou a Reles para flertar com um repertório romântico, o Moon fez concurso e se tornou bancário. Além de baixista, o Ricardo agora também é representante comercial. Só o Fabio sobrevive tocando e cantando.

A noite está velha. Nós que acompanhamos o percurso do trio, madrugada acesa por anos, estamos chegando aos 40. “Já não dou mais nada”. A frase é repetida por fãs e amigos da Reles que – por causa de filhos ou emprego na manhã seguinte – não podem mais estar nos shows deles em noites de dias úteis.

Mas veja só: estamos em Ponta Grossa. O sábado, 13 de abril, vai acabar. O domingo está por vir, e a Relespública entra no palco. Imagine: o pub tem instalações aconchegantes. Se quiser, há cervejas especiais e doses de outras bebidas. Mas hoje não preciso de nenhum anteparo.

Fabio, Moon e Ricardo são amigos. Com diferenças, silêncios, não ditos e uma força que os aproxima há mais de duas décadas. O porão está cheio. Mais de 300 pessoas. Então, todos sentem as asas de volta. Para alguns, elas foram extirpadas há anos. Em outros, estão apenas quebradas.

Mas bastam duas, três, quatro canções, e decolamos. Sobrevoamos os Campos Gerais por duas horas e, quando a Reles toca “Nunca Mais”, atingimos, enfim, Pasárgada: “Se há uma luz, quero tocar/ Antes de nunca mais”.

O Daniel para a van em um ponto entre a Serra de São Luis do Purunã e Campo Largo. Descemos, inclusive o Frederico Neto, que filmou o show e fez a foto que acompanha este texto. Não era nada. O veículo segue. Era domingo ainda, entre 4 e 5 horas. Pela janela, o céu escuro e a luz das constelações.

E alguns ecos da apresentação da banda que, de fato, se fez por si mesma.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O mediador

O Felipe Kryminice mediou o bate-papo no dia 9 de abril de 2013. O assunto era o meu segundo livro de contos, Golegolegolegolegah!, publicado pela Travessa dos Editores. O encontro aconteceu na Livrarias Curitiba do Shopping Estação. A foto é do Daniel Snege.

Getúlio Guerra e Matheus Duarte

O Getúlio Guerra e o Matheus Duarte acompanharam o bate-papo a respeito do Golegolegolegolegah! na Livrarias Curitiba do Shopping Estação dia 9 de abril de 2013. Foto do Daniel Snege.

Eu e Golegolegolegolegah!

Durante o bate-papo realizado dia 9 de abril, na Livrarias Curitiba do Estação, o público se distraiu e consegui conversar com o meu livro Golegolegolegolegah! Foto do Daniel Snege.

Dia 9 de abril de 2013

No bate-papo realizado na Livrarias Curitiba do Estação, o público riu quando falei de uma viagem ao Caribe. Ou foi no momento em que comentei a obra do cantor Naldo? Foto do Daniel Snege.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Carne é carne


Hoje o Fabrício Carpinejar nem me responde e-mail. Mas na década passada a situação era diferente. Em uma das primeiras visitas que o poeta gaúcho fez a Curitiba, caminhamos conversando por horas pelas ruas do Centro. Antes de seguirmos para o almoço na casa do Fábio Campana, o Carpinejar quis saber de que maneira eu resolvo a minha agressividade. “Bebendo água com gás”, respondi.

Era mentira. Evidentemente que não diluo impulsos agressivos ingerindo água, e sim comendo.

A esposa do Luiz Rebinski Júnior, a Daiane, me telefona para saber se estou envolvendo o marido dela em um programa de engorda. O Luiz e eu almoçamos juntos quase todos os dias. “O Marcio é o meu nutricionista”, disse, há algumas semanas, o Luiz para a Daiane.

Poderíamos fazer avaliações do que é servido nos restaurantes do Centro. Mas aí lembro de uma frase do Omar Godoy: “Substituíram a análise e o interesse cultural pelo ensaio gastronômico”. O Omar, um ser atento e moderado, sabe o que diz. O mundo contemporâneo exclui críticos de livro e cinema para dar vez aos sommeliers de coxinha e pastel.

Não. O Luiz e eu não vamos produzir resenhas gastronômicas. Trabalhamos com não pouca intensidade durante seis, sete, oito horas todo dia e durante o almoço queremos apenas comer. “Teremos alguma memória desse período, e não apenas lembranças do tempo na enxada”, comenta o Luiz, referindo-se às refeições.

No trajeto do trabalho ao restaurante, lembro do Carpinejar. Ou da resposta que dei a ele. Na realidade, canalizo meus impulsos agressivos com garfo e faca nas mãos. Há uma churrascaria no entorno da Praça Santos Andrade. Duas vezes por semana, peço ao atendente para descer todos os corações do espeto. Também corto e engulo vorazmente nacos de chuleta, maminha, fritas e três ou quatro bifes de alcatra.

Se na ida reclamo do dia nublado, da gordura do texto de algum livro ou de que minhas roupas estão apertadas, na volta – o Luiz a caminhar, eu rolando – tudo se modifica. Pondero que cinza é a cor da cidade, excessos são bem-vindos em prosa inventiva e nem sinto a pressão da calça, principalmente na cintura.

Durante horas, em meio à digestão, sigo leve, apesar do peso. E esqueço as batalhas que não lutarei. No dia seguinte, o estômago volta a reclamar, mas tudo se resolve. Se houver racionamento de ração? Tornar-me-ei o atirador de Curitiba? Acho que não. Beberei água, muita água com gás, como disse ao Carpinejar, até apaziguar isso, aquilo que parece não ter paz nem repouso.

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Publicado dia 10 de abril de 2013 na página 13 do Vida e Cidadania, primeiro caderno da Gazeta do Povo: http://tinyurl.com/d88omzq

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Florência


            O editor solicitou resenha do livro Supercool. Trinta dias. Li. Reli. Li uma terceira vez. E me sinto sem condições de comentar a obra. O que vocês vão ler, isso se alguém passar os olhos nessas linhas, é mais uma evidência do meu fracasso, da minha inaptidão para entender e analisar o que chamam de literatura.
            Não sei se é romance, novela ou conto extenso. Cento e dez páginas e na ficha catalográfica a palavra ficção. De modo que deixo em aberto o gênero deste livro publicado pela Uqbar Edições em março de 2013.
            Supercool trata do percurso de Florência, portenha, filha de argentinos, que fez a vida no Brasil. Não está escrito o nome da cidade, mas não é megalópole como São Paulo ou Rio, e sim outra capital com características de província, distante das decisões políticas e de onde o dinheiro circula no país.
            Não sei se isso é recomendável, mas como falar do livro sem resumir o enredo? Peço, desde já, perdão, desculpas, a você, eventual leitor, leitora, mas vou revelar o que está escrito em Supercool.
            O livro, de Jorge Hernandez – outro erro meu, só agora, no quinto parágrafo da resenha, me lembrei de mencionar o autor; mas vamos em frente. A obra, enfim, mostra a ascensão de Florência em um contexto letrado. Mesmo sem nunca ter lido um único livro, ela se apresenta como leitora, e os outros, quase todos os muitos personagens, acreditam em seu discurso.
            A protagonista de Supercool consegue emprego em uma emissora de televisão e em uma revista para comentar livros, os quais não leu. Florência se torna referência no que diz respeito à literatura: é convidada para escrever em um jornal.
            Evidentemente, não sei se está evidente, mas – então – saliento: não gostei de Supercool. O entorno de um meio literário de uma cidade provinciana, foco do autor, não me interessa. A leitura sugere, pelo menos para mim, que Jorge Hernandez dedicou energia em excesso para retratar e, mais que isso, desmascarar uma – para ele – farsante.
            O equívoco maior do autor, entre tantos erros, foi temperar a sua escrita com raiva, ódio e ressentimento. Não sei se a protagonista foi construída a partir de características de alguém do mundo real. Tudo levar a crer, tenho quase certeza disso, que Hernandez tentou se vingar de uma pessoa – sublimada em personagem literária. E, não sei se uma resenha comporta tanta confissão, mas confesso que simpatizei, demais, com a Florência.
            A personagem vinga, apesar de não ter, em tese, conhecimento nem aparente chance de prosperar. E, isso é hipótese que elaborei, não algo que está dito, no máximo insinuado no livro: Florência vence no meio letrado provinciano porque os escritores, os jornalistas, os editores e os supostos leitores daquele contexto não leem. Afinal, ela comenta livros que não lê, inventa enredos, linguagem e cenários, e nenhum outro personagem contesta o que a heroína de Hernandez diz e escreve.
            Florência é, no mínimo, ousada.
            Eu não devia, sei disso, mas devo acrescentar algo a respeito do enredo – o que vai sabotar a surpresa de quem eventualmente seguir pelas páginas do livro. O desfecho de Supercool faz da obra, na minha opinião, um projeto literário imprestável. O narrador informa que Florência só conseguiu êxito por ter feito pacto com uma entidade sobrenatural e, em troca de fama e dinheiro, teria cravos no nariz e halitose incuráveis até o final da existência. Mais. Teria de usar roupas de aqualoucos e chapéu da Oktoberfest.
             Não entendi por que usar roupa de aqualouco e chapéu de Oktoberfest. Tenho a impressão de que Jorge Hernandez quis fazer alusão a alguma pessoa que ele conhece, e que usa roupa e chapéu semelhantes. Com isso, reforço, caros leitores: evitem a obra, é uma perda de tempo, semelhante ao ato de ler esta resenha.

Texto publicado na página 63 da revista Ideias (Travessa dos Editores), edição de abril de 2013.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Em expansão



O botão da calça pula. Está no chão. Olho ao redor, ninguém viu. Será? Meus olhos seguem pelas páginas da revista, mas não leio nada. Uma mulher sorri para mim, no anúncio que promete eliminar até 10 quilos do corpo em um mês. O plano com quatro refeições diárias custa R$ 450.

“O que o nosso bisavô e a nossa bisavó que fugiram da Eu­ro­pa em ruínas e sem comida diriam? Pagar para perder peso?”

Interrompi uma vocação de fumante em 2009 e recuperei o fôlego. E o paladar também. Desfilo no Parque São Lourenço, na Vieira Souto, na Travessa Tupinambá e na Praça Benedito Calixto com esses 25 quilos que não tinha. Correr, eu corro. Caminho. Bebo água. Faço abdominais. E evito alface, outros verdes e a balança. Conheci Paranavaí, a cidade poesia do Brasil, terra do Amauri Martineli, conhece? Voltei encantado. Com o talento dos declamadores. E com uma calça nova que comprei em um shopping. A que eu vestia rasgou. Meu corpo está em expansão.

“Será que o programa funciona? Tem motivadores, assessoria nutricional e promessa de emagrecimento descontraído.”

O Roberto Gomes diz que estou parecendo o Antonio Maria. Abro um sorriso. Caminhamos pela Rua Cecília Meirelles. Pergunto se faz tempo que acompanha o que escrevo. Ele desconhece a minha prosa. O Roberto não se refere ao estilo que imagino ter, que poderia se aproximar – em um desejo delirante de minha parte – do cronista que namorou a Danuza Leão. “Você está com a silhueta do Antonio Maria, Marcio. É um dublê físico perfeito daquele imenso mulato genial”, comenta, já no café do MON, o autor do romance O conhecimento de Anatol Kraft.

“Reparei que um renascentista curitibano, que canta, dança, estrebucha no palco e ainda escreve, esse mesmo sujeito faz continuamente referência à comida. Se eu o conhecesse, o cumprimentaria da seguinte maneira: como vão? Ele é muitos, não é possível dizer apenas ‘como vai?’. E, em todas as áreas nas quais atua, menciona alimentos. Sempre.”

Não sei se alguém repara na minha expansão corporal. Eu reparo. Tenho a impressão de que não há mais controle. Ou há? Fato é que mudei todo o guarda-roupa. Nada que era antigo serve mais. Aquela camiseta com um poema do Paulo Leminski ficou pequena. Também deixei no passado o par de sapatos que me levava até auditórios para eu aplaudir toda apresentação. E abandonei as calças que escondiam minhas pernas nos shows de rock and roll.

“Talvez eu tenha de entrar em dieta, dispensando canapés, videoclipes lançados diariamente, churros, manifestos audiovisuais, lamentos no Facebook, rolmops, teorias de Vladimir Propp e outras sobremesas. Algo me diz que, daqui para a frente, é melhor dizer ‘não, obrigado’. Talvez todos os dias.”

Ou quase.
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Texto publicado na página 11 da edição de 3 de abril de 2013 no jornal Gazeta do Povo.

Eis o link: http://tinyurl.com/bo2mozz