domingo, 31 de julho de 2011

E la nave va




– Vamos marcar um encontro pra gente lembrar daquele tempo? – isso é uma voz ao telefone.

Estou, agora, na casa de meus avós maternos, tenho 14 anos, o corredor é extenso, da cozinha até a sala há quatro ou cinco portas – são quatro ou cinco quartos. A lâmpada, no teto do corredor, parece inalcançável. Atravessar o corredor leva algum tempo, muitos passos. Mas, quando chego na cozinha, e atravesso a porta, há um quintal com árvores, grama verde, um paiol, um muro e vejo o sol se pôr no fim da tarde. Tudo é possível, eu com 14 anos e os ponteiros do relógio da parede se movem lentamente.

– Vamos lá, toda a turma vai estar de novo, será int... – é uma outra voz, desta vez, na minha frente.

Caminho, passo seguido de passo, tenho espinhas e sorriso no rosto, 16 anos, e a Catedral de Brasília é infinita por dentro; se seu dissesse que aqui cabe uma multidão, não seria exagero. O sol desta manhã atravessa os vidros, e a luminosidade me faz sorrir ainda mais: a minha oração, aqui, é silêncio. Há uma sensação de que o futuro promete, tudo me espera, as coisas estarão no meu caminho, basta eu seguir, assim, do jeito eu que eu sei, seguindo. Isso aqui é uma igreja mas até parece uma nave e sinto que estou a viajar no tempo.

[Numa manhã de névoa, neblina, cerração eu segui, não enxergava nada, e fui, sem conhecer as ruas, apenas a ouvir, e assim atravessei, uma, duas quadras, décadas e quando encontrei um espelho já havia fios brancos na cabeleira daquele que eu fitava, do outro lado do espelho, e não sabia quem poderia ser].

– Tem tanta coisa pra te contar, precisamos marcar um encontro – insiste uma voz que eu não quero mais escutar.

Já tenho, então, trinta e poucos anos e estou, novamente, dentro da Catedral de Brasília. Agora, o teto parece próximo, tenho a sensação de que, se eu esticar os braços, poderei tocar nos vidros através dos quais a luz do dia invade o interior da igreja. Não escuto mais o eco que, na década de 1980, a minha voz fazia aqui dentro. Saí da Catedral por que, há alguns minutos, uns meninos e meninas sorridentes entraram, lá, e ficaram a repetir um mantra, que sugeria ser a “última oração”, e eu não gosto desses meninos e meninas, e me recuso a rezar, e a cantar, a oração que eles, teletubies, propõem. Estou na Esplanada dos Ministérios, mas poderia estar em qualquer outra rua e, confesso, há alguns anos, só consigo rezar quando estou a ler Pedro Nava, Drummond, Proust, Reinaldo Moraes, Mirisola, Vieira ou quando ouço Bach, Mozart e Hendrix.

– Ei, vamos lá, precisamos nos... – insiste uma voz que já não consegue mais dizer nada para mim.

Estou na casa de minha avó materna e, agora, atravesso o corredor com menos de sete passos. Por que isso aqui parecia infinito? Os quartos são menores do que eram há três décadas. Sinto um cheiro, não sei exatamente do quê, mas, a partir desse aroma, retorno a uma daquelas manhãs quando eu saía da cozinha, entrava no quintal e o meu avô ainda estava por ali. Eu dormia sem medo na sala, na mesma sala que, a partir do momento em que ele foi velado, se transformou em um lugar no qual eu não consegui mais fechar os olhos. A casa de minha avó perdeu as cores, e não encontro mais nada lá; o sótão, onde se hospedava uma tia surda e muda, está trancado. O futuro chegou. Olho e a cada passo fica mais evidente: pontes ruíram – não é possível mais pisar naquele jardim.

Crônica publicada na revista Ideias, da Travessa dos Editores, edição de agosto de 2011. Ilustração de Marciel Conrado.

sábado, 2 de julho de 2011

Na ponta dos dedos


Estamos no consultório médico ou em uma poltrona de avião. Ainda há tempo. O médico se atrasou, o voo decolará em breve, e temos um jornal ou uma revista nas mãos. Já lemos outros jornais e outras revistas, mas seguimos com esses papéis diante de nossos olhos. O time mais cotado da cidade perdeu o jogo. O bairro mais glamuroso do balneário alagou com as chuvas. Lemos as notícias, nem todas até o fim, e nos perdemos, entre as linhas, nas fotos, nossos olhares são seduzidos pelos anúncios e, principalmente, pelas nossas unhas.

Sim. Eu, tu, ela, nós, vós eles, todos passamos a maior parte do tempo olhando, não para estrelas, mas para as nossas unhas.

Ao caminhar, na esteira da academia, ao redor do lago do parque, da cama até a cozinha, quantas vezes uma pessoa olha para as mãos, para as unhas? Pesquisa recente, realizada por um instituto de reputação inquestionável, garante que, em um minuto, ou seja, durante 60 segundos, uma pessoa pode olhar pelo menos seis vezes para as unhas. Seja homem ou mulher, jovem ou não, principalmente se a pessoa estiver calma. Durante uma crise ou diante de um problema que exige solução rápida, o sujeito é capaz de passar os 60 segundos olhando e, dependendo do caso, roendo as unhas.

Por que eu, tu, ele, nós, vós, elas olhamos tanto para as unhas?

Para analisar se já cresceram? Estão limpas? É necessário ir à manicure?

Semana passada começou a ser exibido um documentário, de 120 minutos, a respeito da importância das unhas para a vida em sociedade. A voz do narrador afirmava que a atração entre as pessoas, da amizade ao amor, depende, mais do que qualquer outro detalhe, das unhas. “Não há lógica, há sim atração, como se fosse um aroma, e tem muito a ver com a percepção visual. Pessoas se atraem, e se afastam, por causa das unhas”, dizia o narrador.

Em uma obra de antropologia, que não cito o título por que a capa e a folha de rosto foram rasgadas, e perdidas, está escrito, no segundo parágrafo da página 17, o seguinte: “No passado, durante a evolução do homem, as unhas eram fundamentais, inclusive, usadas como armas em confrontos tête-à-tête”. Já no início da página 256, o texto, que analisa a realidade brasileira, faz saber que: “Durante o século 20, homens, sobretudo os que nasciam em áreas rurais, quando deixavam o campo e se fixavam em regiões urbanas, passavam a cultivar unhas, de até dez centímetros, com a finalidade, simbólica, de mostrar que não usavam mais a enxada.”

Um professor aposentado caminha todas as tardes no Parque Barigüi e, durante o exercício a céu aberto, o acadêmico costuma dizer, em voz alta, que as unhas não têm nenhuma importância. “Olhamos tanto para as unhas porque, na verdade, prestamos atenção em coisas irrelevantes. Eis uma prova de como perdemos tempo na vida”, repete, diariamente, o paulistano, de 69 anos, radicado em Curitiba.

Eu, de minha parte, não tenho opinião a respeito do assunto; apenas registro o que vi, li e escutei. Mas a missão exigiu muitas horas. Esta crônica, confesso, foi escrita durante 21 dias. Não, necessariamente, por que eu tivesse problemas para juntar as palavras (só um pouquinho), mas, como o leitor e a leitora já deduziram, pelo fato de que, nas últimas três semanas, estive hipnotizado por aquilo que está na ponta de meus dedos.

Crônica publicada na edição 117 da Revista Ideias.