sábado, 7 de abril de 2012

É fácil

É o telefone a tocar. Tem a construção de um prédio ao lado. Chega uma carta, que não é para mim, foi engano, mas o porteiro usa o interfone e me tira da cadeira. Ouço a vizinha, do andar de cima, ensaiar um baile flamenco. Embaixo, o namorado da viúva pretende assoprar o trumpete com maestria, mas ele começou a treinar faz duas semanas. Manifestantes jovens e rebeldes de camisetas vermelhas, que se tornarão recatados com trajes neutros no futuro, protestam em cima de um carro de som na praça a poucos metros daqui.
Preciso alugar outro imóvel. Aqui está difícil, apesar de a sorte ter sido generosa comigo. No prêmio 1.346, da Mega-Sena, acertei as seis dezenas. Por acaso, ainda na fila da loteria, eu fui pagar uma conta atrasada, decidi jogar e escolhi os números 12, 32, 40, 47, 48 e 59. E não é que me dei bem? Desde então não preciso fazer nada. Só fico aqui, neste apartamento. Mas tem tanto barulho que, mesmo não fazendo nada, me canso. De tudo.
Anteriormente eu tinha de passar oito horas, ou mais, dentro de escritórios e, devido a isso, nem sabia dos sons do entorno do meu prédio durante o horário comercial. Mas isso, o barulho, não é problema. Não tenho mais problemas. Agora, tenho 24 milhões.
Posso, mais do que alugar, comprar outro imóvel. Mais de um até. E será um apartamento com isolamento acústico. No silêncio, futuro, vou poder me concentrar e, então, dar início ao meu sonho, que é escrever.
Sim. Quero escrever. Já faz tempo que tenho esse projeto, mas o trabalho me impedia. As oito horas não permitiam que eu me dedicasse e, depois, em casa, já estava cansado. Ligava a tevê, e adormecia no sofá.
Mas, antes de lançar meu livro, vou buscar espaço em algum jornal ou revista. Tenho de me tornar conhecido. Meu nome precisa circular, e em jornal e revista o nome circula, sabia?
Vi, dia desses, uma revista chamada Ideias. Já leu? Pois eu li. Até as cartas. E gostei. Muito. Meu sonho é escrever na Ideias.
Penso, agora, em uma questão. E os assuntos? Sobre o que eu escreveria? O tempo presente? As tendências para 2013? Ou o que aconteceu ontem e antes de ontem? Há possibilidades, inclusive comentar a cena local.
Mas não. Gostaria mesmo é de imitar, ou melhor, fazer o que o Marcio Renato dos Santos faz. Já leram os textos dele? Pois o sujeito é um tremendo de um malandro. Folgado. Ao invés de refletir ou pesquisar sobre algum tema, ele inventa. Pode? Bom, se deixam publicar é porque pode. Quero fazer o mesmo.
É fácil. Vou dar um exemplo. Eu poderia começar uma crônica, para a revista Ideias, da seguinte maneira: “É o telefone a tocar. Tem a construção de um prédio ao lado.” Depois, é só completar o texto com palavras, vírgulas e, no fim, colocar um ponto.
Percebe?
Escrever uma crônica é fácil. Afinal, se o Marcio faz, eu também posso fazer, não é mesmo?
Bom, depois de alugar, ou comprar, um apartamento novo, vou dar um jeito de escrever na Ideias. E, em seguida, pretendo publicar meus livros e viver meu sonho literário.
O sucesso é fácil, realmente muito fácil, não acha?

Publicado na revista Ideias, publicação mensal da Travessa dos Editores – abril de 2012. Ilustração de Marciel Conrado.