quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Inconveniente

O falsificador desistiu de me vender suas produções. Inclusive, não há mais espaço para quadros nas paredes do meu apartamento.
Recentemente, o sujeito — entre outras solicitações — passou a pedir dinheiro emprestado. Emprestei mais do que deveria, ele disse que paga quando puder, mas sei que dificilmente vou recuperar aqueles dezesseis, dezessete mil. E ainda sugere outras transações.
Mês passado, ou retrasado?, o falsificador me encontrou em um café, e disse: Que surpresa boa! Desconfiei que estava me seguindo, atento a hábitos, entre eles o de eu frequentar um café após às dezoito horas. Desconfiei porque imediatamente após me cumprimentar, o sujeito tirou uma fotografia de dentro de um envelope e perguntou o que eu achava.
A foto era de uma mulher sorrindo.
Ele queria saber se eu pegava. Respondi que não sabia. Perguntou uma terceira, uma quarta, uma quinta vez, insistiu até eu dizer se a mulher era interessante e eu confirmar que, sim, pegaria a mulher. Então, contou que a mulher da foto era a sua esposa.
Nas semanas seguintes, o falsificador me abordou no café e apresentou fotos de uma prima, de sua irmã, de amigas, de uma tia, de artistas, de modelos e até de sua filha. Apesar de eu nunca ter solicitado esse tipo de serviço, ele me pareceu um cafetão sem constrangimento em destacar as qualidades de seu casting, e deu a entender que poderia facilitar os encontros em sua casa.
E, em todas as abordagens, pediu adiantamento.
Evidentemente, recusei as propostas.
O falsificador ainda quis saber se eu estaria interessado em transar com ele. Seria sexo pago, com a vantagem, segundo ele mesmo, de que a experiência ficaria, de fato, apenas entre nós dois.
Tive vontade de mandar o sujeito à merda, mas apenas ri e disse que não estava interessado na proposta.

Passo, então, a frequentar outro café no final das tardes com o objetivo de não ser incomodado pelo falsificador.
Mas, na sexta-feira da semana passada, ele aparece no local, senta em uma cadeira ao meu lado e pede um macchiato. Pergunta se eu poderia indicar clientes, ou com mais precisão: “pessoas com poder de compra”.
Amigos, conhecidos e até desafetos me procuraram, telefonaram ou enviaram mensagem por e-mail. Queriam saber quem era o falsificador e reclamavam de eu ter indicado seus nomes para um sujeito que, mais do que vender quadros, pedia adiantamento e até se insinuava sexualmente.
Foi necessário pedir desculpas a alguns conhecidos, já os amigos fizeram piada. Mas, se eu soubesse que o falsificador seria tão insistente nas abordagens, teria sugerido que ele procurasse o Atômico e o Mínimo, dois indivíduos que não escondem de ninguém que me odeiam. Poderia até insistir para o falsificador entrar em contato com o Tatibitati, criatura desprezível que já me prejudicou excessivamente.

A chegada dos policiais, ontem à noite, alterou todo o cenário. Fui conduzido a uma delegacia, inicialmente sem entender o que acontecia. Não ofereci resistência e somente horas após o começo do rebuliço me dei conta de que eu era um dos suspeitos de assassinar o falsificador, morto com cinco ou seis tiros em uma situação a respeito da qual eu não sabia nada, mas também não soube dizer onde estava no horário da aparente última cena de um sujeito, acima de tudo, inconveniente.


Conto inédito publicado na Revista Ideias de novembro de 2018. Ilustração de Vitor Mann.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Carola Saavedra na Flibi 2018


Edyr Augusto na Flibi 2018


Adélia Maria Woellner na Flibi 2018


Eduardo Bueno na Flibi 2018


Cristian Brayner na Flibi 2018


Marden Machado na Flibi 2018


João Varella na Flibi 2018


Mel Duarte na Flibi 2018


Rubens Figueiredo na Flibi 2018


Alessandro Andreola na Flibi 2018


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Hélio Leites na Flibi 2018


Claudecir Rocha na Flibi 2018


Bruno Zeni na Flibi 2018


Adriana Sydor na Flibi 2018


Fernando Karl na Flibi 2018


Giovana Madalosso na Flibi 2018


Nikelen Witter na Flibi 2018


Enéias Tavares na Flibi 2018


Bárbara Morais na Flibi 2018


Jotabê Medeiros na Flibi 2018


Marta Sienna na Flibi 2018


Otavio Linhares na Flibi


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Pequeno cidadão na Flibi 2018


Luiz Manfredini na Flibi 2018


Luciano Chinda na Flibi 2018


Adriana Tabalipa na Flibi 2018


Fernando Bonassi na Flibi 2018


Jandira Zanchi na Flibi 2018


Lucas Mota na Flibi 2018


Mary del Priore na Flibi 2018


Kenni Rogers na Flibi 2018


Selvática na Flibi 2018


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Papéis de Maria Dias

No lançamento de Papéis de Maria Dias, romance, o vigésimo livro de Luci Collin. Na Arte & Letra, na manhã de 29 de setembro de 2018.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Gudzins



         Fernando ganhou o equivalente a um prêmio acumulado da Mega-Sena. Não foi herança, apropriação de patrimônio alheio, furto, roubo ou rendimento de atividade ilegal — uma quantidade de dinheiro inesperada surgiu. E desde então sua realidade, evidentemente, é muito outra.

Está isolado em uma cobertura, no vigésimo segundo andar de um prédio em um bairro situado a quinze minutos do centro.

Poderia, por exemplo, viajar e escolher outro lugar no mundo para viver, mas ele gosta da cidade onde nasceu e, até sem oportunidades, conseguiu sobreviver.

Morar em um imóvel amplo, com piscina, churrasqueira, piso aquecido, adega, suíte com banheira de hidromassagem, quatro quartos, outras quatro salas e, especialmente, ter dinheiro para saciar, em tese, qualquer desejo é a realização de um sonho que o faz-tudo mal remunerado não cogitava que pudesse vir a se tornar sua realidade.

Até o mês passado, Fernando conseguiu passar dias, manhãs, tardes, noites e madrugadas sem ficar entediado. Comprou esteira e equipamentos para fazer musculação. Usufruía o tempo com canções, filmes, na piscina, na cama, no sofá, dentro dos mais de quatrocentos metros quadrados gourmetizados. Funcionários buscavam bebida, comida e até drogas.

Teve, inclusive, acesso a catálogos para solicitar o serviço de garotas de programa, geralmente durante as manhãs — elas entravam e saíam do seu apartamento sem levantar suspeita de vizinhos, do porteiro e da síndica, e talvez tenham sido consideradas amigas, grandes amigas do morador recluso.

Então, no final do mês passado, decidiu caminhar pelo bairro. Fernando tem quase certeza de que esses quase sete anos de reclusão foram suficientes para ele ser esquecido. Sequestradores e outros criminosos, incluindo também conhecidos que poderiam pedir dinheiro emprestado, já devem ter outros alvos.

Após esses anos dentro do apartamento, Fernando desceu — enfim — pelo elevador, cumprimentou o porteiro e saiu. Quase não reconheceu a cidade, casas antigas foram demolidas, surgiram outros prédios, entre tantas modificações urbanas, mas encontrou uma banca, onde anteriormente comprava jornais.

Já não há mais diários na cidade.

Foi a um café, onde bebeu cerveja de abacate, depois água com gás e ainda comeu um profiteroles.

A experiência de andar pelo bairro deixou Fernando excitado. Conseguiu permanecer no apartamento por dois dias, mas, no terceiro, não resistiu. Caminhou novamente por algumas ruas, bebeu cerveja de abacate em um bar e viu espalhados pela região os — sem outra expressão para nomear — Gudzins.

Fernando continuou saindo e em todos os percursos percebeu cada vez mais a presença dos Gudzins. Pareciam pessoas e deveriam sentir necessidade de bebida, comida, cerveja de abacate, profiteroles, sexo, descanso, água com gás, evacuação, viagem, acesso à internet e paraísos artificiais.

Ao invés, por exemplo, de entrar em movimento, os Gudzins permaneciam deitados, sentados ou em pé, mas essencialmente parados, em frente a lojas fechadas, muros, embaixo de marquises e pontos de ônibus ou nos gramados de parques e praças.

A presença dos Gudzins fez com que Fernando diminuísse as caminhadas e, ao perceber que eles estavam em todas as ruas, ele desistiu de circular nas vias públicas. Decidiu permanecer apenas dentro de seu apartamento, de onde poderia observar, do vigésimo segundo andar, a cidade.

Ontem, ao ver na televisão uma campanha solicitando ajuda para homens, mulheres e crianças que passam necessidade em países distantes, fez a transferência de dinheiro online e, em seguida, comeu carne, bebeu vinho e cerveja de abacate, mergulhou na piscina e desfrutou de tudo o que acredita ter direito ali, isolado de quase todos, especialmente dos Gudzins.
        
Conto inédito publicado na revista Ideias, da Travessa dos Editores. Link.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Livros em oferta na 37.ª Semana Literária SESC & Feira do Livro Editora UFPR

Meus livros de contos custam apenas R$ 20 cada título no estande da Academia Paranaense de Letras na 37.ª Semana Literária SESC & Feira do Livro Editora UFPR, na Praça Santos Andrade. Até 22 de setembro às 18 horas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Tem Finalmente hoje no Submarino

Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016), meu quinto livro de contos, está em promoção no Submarino. Apenas R$ 20,93. Compre agora.

domingo, 16 de setembro de 2018

Tem Golegolegolegolegah! no Submarino

Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores, 2013), o meu segundo livro de contos, custa inacreditáveis R$ 12,99 no Submarino. Compre agora.

sábado, 15 de setembro de 2018

Tem Minda-au na Amazon

Minda-au (Record, 2010), meu primeiro livro de contos, custa apenas R$ 13,30 na Amazon. Linque para a compra.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Entrevista sobre meus 7 livros de contos

Onze alunos do ensino médio do Sesc São José me entrevistaram no Paço da Liberdade, em Curitiba, na tarde de 11 de setembro de 2018, para um projeto da 37ª Semana Literária SESC & XVI Feira do Livro, evento que tem início dia 17 de setembro. Coordenada por José Carlos Fernandes, a entrevista teve como pauta os meus 7 livros de contos.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

A cidade e seus cúmplices

No lançamento de A cidade e seus cúmplices, livro de crônicas de Nilson Monteiro – evento realizado na noite de 10 de setembro de 2018 na Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, em Curitiba. Foto de Bebel Ritzmann.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Chernobil


Chernobil tenta, mas não consegue. Outro funcionário de uma fundação, onde ela insiste em cobrar por um serviço não prestado, não cede à insistência da, é lamentável usar mas a palavra é essa mesma, chantagista.
No passado, ela pressionava e conseguia, especificamente, dinheiro. Emplacava projetos, mas, na realidade, seu objetivo sempre foi o cachê, e apenas o dinheiro, e não movimentar ideias, pessoas e transformar o estado das coisas, como repetia em discursos, prefácios e textos publicados em orelhas e contracapas de livros ou em jornais e revistas.
Durante vinte, trinta anos, Chernobil foi um nome e uma presença no circuito cultural. Inventou uma trajetória nesse cenário a partir de performances bem avaliadas nas camas de e com professores universitários, escritores e sujeitos influentes que, além do poder de influenciar, também eram leitores interessados em cinema, visuais, literatura, sexo e vinho.
Um professor universitário, mais conhecido pela barriga proeminente do que por pesquisas ou produção acadêmica, apaixonou-se por ela e conseguiu que Chernobil fosse nomeada professora e, a partir da nomeação, a então jovem começou a se tornar o que de fato viria a ser: Chernobil.
Nos últimos dois, três anos, sem falhar praticamente nenhum dia, ela usa o Facebook para manifestar sua indignação. Faz postagens condenando pessoas públicas, personalidades que, em seu entendimento, apresentam comportamento inapropriado e aproveitam suas funções para construir imagem, prospectar negócios e, enfim, aumentar o patrimônio.
No entanto, a mesma Chernobil, no período em que atuava como professora, obrigou alunos e alunas a pesquisarem temas que a interessavam e usou o conteúdo para, ela mesma, produzir artigos acadêmicos, alguns deles veiculados em livros que organizou e, por meio dos quais, vendeu projetos e aumentou suas aplicações bancárias.
Chernobil começou a perder espaço na medida em que seu corpo acusou sinais da passagem do tempo. Desde então, recorreu continuamente a operações plásticas e botox, entre outras interferências. Mas, sem o esplendor e a exuberância naturais, os sujeitos que favoreciam seus projetos a trocaram por outras jovens, cada vez mais jovens, e nada mais foi fácil, profissionalmente falando, para Chernobil.
O que garantiu e garante uma sobrevida no mercado com raros mas, enfim, alguns convites e cachês foi o fato, inequívoco, de Chernobil ter reescrito a história de personalidades, diminuindo e por fim excluindo fracassos, ao mesmo tempo em que fez com que covardes passassem a ser cultuados como heróis.
Os descendentes desses heróis acreditam e se apegam à versão, mas a comunidade leitora, especialmente após o advento da internet e à facilidade de acesso à informação, tem cada vez menos fé nas palavras e nas atitudes de Chernobil.
Apesar da decadência, ela ainda consegue enganar, não, encantar uns sujeitos, poucos mas eles existem, que se apresentam como intelectuais, consumidores de livros preguiçosos que não leem nem prefácios e/ou orelhas. Leitora, Chernobil digere, processa e reprocessa informações, pesquisas e conteúdos alheios. A partir desse repertório, convence uma pequena plateia inculta que, ao ouvir uma palestra mesmo informal da ex-professora, tem a impressão de que está diante de uma usina de ideias, sem se dar conta de que Chernobil é um desastre, uma espécie de acidente nuclear, atualmente inofensiva, mas que já prejudicou e poluiu excessivamente o ecossistema.


Conto publicado na revista Ideias, de setembro de 2018, com ilustração de Vitor Mann.