terça-feira, 16 de outubro de 2012

A queda da casa dos chatos

 
 
A revista Ideias, na edição de outubro de 2012, publicou em três páginas uma entrevista que concedi a Renan Machado. O bate-papo, que segue abaixo, é o primeiro a divulgar que, em novembro de 2012, lançarei o livro de contos Golegolegolegolegah! pela Travessa dos Editores.
Eis o conteúdo, que também pode ser lido na íntegra aqui.

Mais uma vez, Marcio Renato dos Santos adentra no boteco velho de guerra. Bem arejado, bem conservado, bem frequentado em grande parte por colegas jornalistas. Arejado até demais. Apercebe-se disso ao escolher uma mesa próxima à janela fronteiriça. Vento Sul que finda o inverno espalha guardanapos. Diria que o lugar fica na esquina da rua fulana com a ciclana, mas e como recordar os nomes? Basta dizer nas redondezas do Cemitério Municipal.

Ainda este ano, Dos Santos será lançado pela Travessa dos Editores. Dono de uma prosa inusitada que se reinventa, o escritor destaca-se no cenário literário nacional como uma das principais vozes ficcionais do País. Golegolegolegolegah! é o título do novo livro de Marcio que sai pela Travessa. Livro de contos: ousado: título ousado. Característica do desprendimento maternal das prosaicas escolas literárias. Xô para os chatos.

Marcio não senta como escritor, se existe uma pose assumida pela classe. Não pinta marra, tampouco acende um cigarro, pois há tempos largou o vício. Malditos estereótipos. Marcio é o Marcio, curitibano de 1974, escritor, jornalista, mestre em estudos literários e pai do Vitor, que aos quatro anos revela-se promessa musical pra lá de Dylan.

A estreia do escritor na ficção acontece em 2010 com Minda-Au, livro de contos lançado pela Editora Record. Nas sete histórias que compõem a obra, Dos Santos destrincha comportamentos e olhares sobre uma Curitiba pouco vista. Porém, isso é assunto para as próximas linhas.

A partir de 2011 inova. Após estrear, pela maior editora da América Latina, com um livro no “formato padrão”, com lombada e tudo, opta por discutir outras maneiras de fazer a ficção chegar às mãos do leitor. Primeiro, em meados de 2011, lança um livro-conto intitulado Você tem à disposição todas as cores mas pode escolher o azul, sobre idas e vindas a bordo dos ônibus da cidade. Em seguida, no início de 2012, é lançada a “fornada inicial” da Tulipas Negras Editora, projeto financiado por uma empresária portuguesa e coordenado editorialmente por Marcio Renato, idealizado com o lema: “Conto não vende? Ótimo. Só publicamos contos”. No dia 25 de fevereiro, quatro mil exemplares de livros-contos foram distribuídos gratuitamente durante a Quadra Cultural, evento cultural de Curitiba. Quatro autores, quatro contos, mil exemplares de cada um. Pantera, de Fábio Campana, Compressa, de Cristiano Castilho, Helena, de Renan Machado, e 934, do próprio Marcio Renato dos Santos.

Eis que o projeto foi um sucesso. Sucesso tamanho que pediu bis. Em junho, a Tulipas Negras lança a segunda fornada. No mesmo estilo. Adoração à virgem, de Luci Collin, Árvore e Cavalo, de Guido Viaro, O destino do poeta, de Izabel Campana, e Os relicários, de Andrey Michalzechen, mil exemplares de cada, foram distribuídos na noite do dia 26 em evento ocorrido no Museu Guido Viaro.
No mês de setembro, Dos Santos participou do lançamento em Curitiba do Livro Branco, editado pela Record, que reúne 19 contos de autores brasileiros baseados em canções do Beatles. Marcio colabora com Uma jornada particular, baseado na música “A day in the life”.

Quanto a Golegolegolegolegah!,em entrevista à Revista Ideias, Marcio revela pinceladas acerca do estilo dos contos, a sensação de ser publicado pela Travessa dos Editores e traça paralelos entre a sua ficção de agora com a que fazia na época de Minda-Au.

Ideias: Por que o nome do livro é Golegolegolegolegah!?
Marcio: A exemplo do título de meu livro de estreia, Minda-Au, publicado pela Record, Golegolegolegolegah! é um nome rosebudiano, enigmático. Antes de explicar o título, é necessário comentar o processo que tornou este livro realidade. Em outubro de 2011, o Fábio Campana me convidou para publicar um livro pela Travessa dos Editores. Como escrevo todos os dias, sem folga, e reescrevo tudo continuamente, sempre tenho material pronto para ser publicado, não hesitei. Respondi sim, ao Campana, e pedi uns dias para revisar os contos que compõem este livro. Golegolegolegolegah! reúne seis contos que escrevi e reescrevi durante 2010 e 2011. Os seis contos conversam entre si, a sequência que eles aparecem no livro não é por acaso. Digo mais. É possível ler Golegolegolegolegah! como uma novela ou um romance, apesar de que os textos são, acima de tudo, contos. O Marciel Conrado fez a arte, diagramou e fez todos os desenhos. Entre cada um dos contos, há imagens, que são fragmentos de um mesmo grande desenho que o Marciel produziu após ler os contos. Os desenhos sugerem um movimento que perpassa todo o livro. O primeiro conto tem como título Golegolegolegolegah!,e no último conto, a última palavra, a que fecha o livro, também é Golegolegolegolegah! Ou seja, é a serpente mordendo o rabo. Golegolegolegolegah! é um moto-contínuo. Além disso, dizem que conto não vende, não é mesmo? Então, nada melhor do que lançar um livro de contos com um título impronunciável. Tente dizer Golegolegolegolegah!. É extremamente ousado alguém publicar um livro com esse título. Com isso, quero dizer que o Fábio Campana é um editor extremamente ousado, arrojado e, por isso mesmo, muito inteligente.

Do que os contos de Golegolegolegolegah! tratam?
De maneira geral, sobre movimento. Nos seis contos, os personagens e a linguagem estão em movimento. No primeiro conto, o personagem está dentro de casa, mas quer sair. No segundo conto, o personagem caminha. No terceiro conto, o protagonista anda dentro do apartamento lembrando de trânsito passado. O quarto conto diz respeito a uma viagem internacional — inclusive, o personagem transita da vida para a morte. No quinto, o personagem é um andarilho. No último conto, o protagonista dirige um carro a 190 quilômetros por hora. Em Golegolegolegolegah!, tudo é trânsito, tudo se move.

Onde são ambientados os contos deste novo livro?
No primeiro livro, Minda-Au, de 2010, Curitiba aparecia, inclusive como personagem dos contos. Já em Golegolegolegolegah! as ambientações não são necessariamente em Curitiba. Mais que isso. Os cenários são cidades por onde passei, no Brasil e no exterior, e que, tempos depois, se fizeram matéria de memória para eu inventar esses contos nos quais sujeitos, linguagem e imaginário estão em movimento.

Em Minda-Au havia uma dicção peculiar. Isso se repete em Golegolegolegolegah!?
Não. Os contos de Minda-Au foram todos escritos antes de 2010. Já não consigo escrever da maneira como escrevia naquele contexto. Agora, e isso vale para os contos de Golegolegolegolegah!, estou produzindo textos mais extensos, sobretudo em comparação aos textos publicados em Minda-Au. Meu imaginário está mais livre, tudo está mais solto, solto as palavras, solto os personagens, solto inclusive o humor, em especial no último conto. Mas também há contenção, subentendidos e segredos nas entrelinhas. Já sou outro.

Com quem você dialoga em Golegolegolegolegah!?
Com tudo o que leio, a vida, as matérias do jornal, as placas de trânsito, os cardápios de restaurante, a bossa de quem vem e passa nas calçadas, mas, acima de tudo, com as obras literárias que leio todo dia continuamente desde os 16 anos. Leio todo dia, 10, 20, 30 livros ao mesmo tempo, de Enrique Vila-Matas a Hilda Hilst, de Sergio Pitol a Marcelo Mirisola, de Fábio Campana a Guillermo Cabrera Infante etc. Leio de tudo, o tempo todo. Ah, e tem também o eco das canções do Lamartine Babo, do Paulinho da Viola, do Caetano Veloso, dos Beatles, dos Stones, da banda Match, entre outros diálogos, em especial, com o cinema do Federico Fellini.

Por que publicar pela Travessa dos Editores?
Trabalhei na Travessa dos Editores entre 2003 a 2007. Cheguei lá pelas mãos do Jamil Snege. Um dia, o Jamil me deu uma carona em sua Ipanema que, reza a lenda, ele nunca lavou. Fomos até um escritório que, eu nem imaginava, era a sede da Travessa dos Editores. O Snege havia indicado meu nome ao Fábio Campana, que eu ainda não conhecia. Ao entrar na editora, fui avisado, pelo Campana, que eu estava contratado. Veja, que presente a vida me deu. O Jamil, mesmo doente, iria morrer em poucos meses, em maio de 2003, mesmo e apesar da doença, o câncer, me arrumou um emprego, e que emprego. Eu havia sido aprovado para fazer mestrado na UFPR, e o Campana permitiu que eu trabalhasse meio período recebendo o salário integral, o que permitiu que eu me dedicasse ao mundo acadêmico. Fiz o mestrado graças à Travessa, graças ao Fábio Campana. Simultaneamente, vi nascerem as revistas Etcetera e Ideias. Naquele período, também foram editadas dezenas de obras, sempre com o requinte gráfico, impecável, da Travessa dos Editores. Basta ver, no catálogo, os livros do Wilson Bueno, do Décio Pignatari, do próprio Campana, entre tantos. Em meio àquela efervescência, o Campana me convidou para publicar um livro, mas, apesar de eu escrever muito, e sempre, ainda não tinha um livro naquele contexto. Veja só, os meus livros, mesmo e apesar de eu ter apenas dois. Só faço livros conceituais. Não reúno contos, aleatoriamente, para imprimir. No meu caso, tem de ter conceito, uma ideia. Mas, voltando ao fato de porque publicar pela Travessa, é que somente agora eu tenho alguma maturidade. Amadureci muito desde Minda-Au. Estreei por uma editora carioca, a Record, mas sou curitibano e sentia falta disso, de ser publicado pela Travessa. Vale dizer que, desde junho do ano passado, escrevo um conto por mês que é publicado na revista Ideias, da Travessa. E, veja só, sou remunerado. Mas esses contos que publico na revista serão publicados em livro em um outro momento. Agora, no entanto, é tempo de Golegolegolegolegah!,que tem dois contos que já foram veiculados anteriormente e quatro inéditos. Como reescrevi tudo, tudo é inédito neste livro. E estou muito feliz por esta oportunidade, que muito me honra.

sábado, 6 de outubro de 2012

Jobs


Kunter era fundamental, decisivo, para o funcionamento das coisas, de tudo. Ele não frequentava a empresa, apenas os dados bancários, o número do telefone e a sua voz eram conhecidas por poucas pessoas, entre as quais, eu.

            Se era braçal, intelectual, virtual, não sei. Nem a Bia, amante de um dos diretores, ex-esposa do superintendente, que chegava ao escritório antes de todos com informações sobre a movimentação do grupo, nem ela conhecia as atividades do Kunter.

            O meu trabalho era telefonar, para ele, e perguntar se o trabalho, dele, estava pronto — e se o contato poderia pegar a encomenda no local combinado. Só isso. Bóris, um dos coordenadores de ação estratégica, sugeriu que não fosse feita nenhuma outra pergunta, e eu cumpria a ordem.

            No máximo cinco minutos. Trezentos segundos. Geralmente, menos. Esse era o tempo que durava o meu trabalho no mês. Porque o Kunter era monossilábico, respondia sim, sim. Ou sim, não. E também não, não. As conversas por telefone duravam, em média, um minuto, contando os segundos que eu esperava para ele atender e responder, minhas perguntas, com duas palavras.

            Se o Kunter respondia não, não, por não ter finalizado o serviço, e — portanto — o contato não poderia pegar o material, então eu tinha de telefonar outras vezes até ouvir sim, sim. Nesses diálogos por telefone também nos cumprimentávamos com oi e tchau.

            Fora isso, eu passava o resto do mês sem fazer mais nada.

            Nos primeiros dias, após realizar a tarefa, perguntei a um colega de sala, o Lanny, se eu poderia ajudá-lo em alguma atividade, mas ele disse que não.

            Passaram um, dois, três, mais meses, procurei o gerente de recursos humanos, o gestor de ações corporativas e o superintendente de proatividade, e me coloquei à disposição para realizar outras ações, mas todos disseram para eu me concentrar apenas na minha tarefa.

            Na sala onde eu passava oito horas, e nas outras, ao lado, nos andares superiores e nos inferiores, os colegas se movimentavam, alguns a suar, outros reunidos, com o cenho a franzir, e apenas eu com aquela missão, a única durante todo o mês, que se resolvia mais rápido do que beber um cafezinho na cantina.

            Decidi, então, discar números aleatórios para segurar o aparelho de telefone, inclusive simulei conversas, mesmo quando era para escutar mensagens dizendo que este número de telefone não existe. Também permaneci por minutos, às vezes horas, em frente ao computador a digitar textos que eu apagava ou imprimia, neste caso, para em seguida rasgar.

            A representação no escritório me esgotava e, ao chegar em casa, tomava banho, mastigava e engolia algo para dormir no sofá da sala com a televisão ligada — sonhava com o telefone, as ligações, o escritório, o senhor Kunter e não sabia quando estava dentro, ou fora, de um pesadelo.

Ficção publicada na revista Ideias, da Travessa dos Editores, edição de outubro de 2012, já nas bancas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sonzeira

O Matheus Duarte e o Rodrigo recriaram A day in the life, dos Beatles, que deflagrou o meu conto Uma jornada particular, que está n'O livro branco (Record). A imagem, registro do Daniel Snege, é do lançamento da coletânea, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação.

Hey Jude

O Henrique Rodrigues explica de que maneira, como transformou "Hey Jude", dos Beatles, em um surpreendente e emocionante conto, presente n'O livro branco (Record), durante o lançamento da coletânea na Livrarias Curitiba do Estação, dia 20 de setembro. A foto é do Daniel Snege.

Flagra

O Daniel Snege flagra o momento em que autografo um exemplar d'O livro branco (Record) para o Simon Taylor, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação.

Quase 200

Mais de 200 pessoas foram conferir o lançamento d'O livro branco (Record), dia 20 de setembro de 2012, na Livrarias Curitiba do Estação. O Henrique Rodrigues, organizador da antologia e autor, e eu, que participo com 1 conto no livro, autografamos quase 200 livros. A foto é do Daniel Snege.

Click do Daniel Snege

Ao lado do Henrique Rodrigues, na noite de 20 de setembro de 2012, na Livrarias Curitiba do Estação, durante o lançamento d'O livro branco (Record). Foto do Daniel Snege.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um autógrafo

Autografo um exemplar d'O livro branco (Record), no lançamento, dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. Foto de Rogério Hoepers/Livrarias Curitiba.

Match e Rodrigo

A banda Match, Matheus Duarte e Rodrigo, a tocar "A day in the life", canção dos Beatles que deflagrou meu conto "Uma jornada particular". Dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação, no lançamento d'O livro branco (Record). Foto de Rogério Hoespers/Livrarias Curitiba.

Eu e o Henrique

Eu e o Henrique Rodrigues no lançamento d'O livro branco (Record), dia 20 de setembro, na Livrarias Curitiba do Estação. A coletânea reúne contos de 19 autores que recriaram canções dos Beatles, entre os quais André Sant'Anna. Crédito da imagem: Rogério Hoepers/Livrarias Curitiba.

Atentos

Público atento enquanto eu explicava como transformei "A day in the life", dos Beatles, no conto "Uma jornada particular", que está no Livro branco, da Record. Clique de Rogério Hoepers/Livrarias Curitiba. Data do clique: 20 de setembro. Local do clique: Livrarias Curitiba do Estação.

Público

Mais de 200 pessoas acompanharam o lançamento d'O livro branco, da Record, na Livrarias Livrarias Curitiba do Estação, no dia 20 de setembro de 2012. Henrique Rodrigues e eu conversamos sobre o processo de recriar canções dos Beatles em contos. Crédito de imagem: Livrarias Curitiba.

Matheus e Vitor

Matheus Duarte e meu filho Vitor no lançamento d'O livro branco, da Record, na Livrarias Curitiba do Estação. Dia 20 de setembro de 2012. Crédito de imagem: Livrarias Curitiba.