segunda-feira, 25 de março de 2013

Mazzinha

O Carlos Fernando Mazza estava no lançamento de Golegolegolegolegah! dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Helio Puglielli

O Helio Puglielli estava no lançamento de Golegolegolegolegah! no dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Teca Sandrini

A diretora do MON, Teca Sandrini, estava no lançamento de Golegolegolegolegah! no dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

Magrão

O Arlindo Ventura, o Magrão, do Bar do Torto, estava no lançamento de Golegolegolegolegah! no dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro.

Guilherme Voitch

O Guilherme Voitch estava no lançamento de Golegolegolegolegah! no dia 19 de março de 2013 no Museu Guido Viaro. Foto do Daniel Snege.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Release do Golegolegolegolegah!

Travessa dos Editores publica o novo livro
de contos de Marcio Renato dos Santos

Golegolegolegolegah! tem lançamento no dia 19 de março (terça-feira), a partir das 19 horas, no Museu Guido Viaro, em Curitiba            

Impasses do ser humano no século 21 estão recriados literariamente nas páginas de Golegolegolegolegah!, livro de contos de Marcio Renato dos Santos. Nos seis textos de ficção, o leitor vai encontrar personagens frágeis, finitos e limitados como todo homem e cada mulher. A incomunicabilidade, tema recorrente na obra do cineasta Miguelangelo Antonioni, é uma característica dos personagens deste autor curitibano. O mundo dos sonhos, mote do cineasta Federico Fellini, também perpassa algumas das peças escritas por este ficcionista, fã do cinema europeu do século 20.           

Além do diálogo com a sétima arte, Golegolegolegolegah! traz conversas literárias com autores como Jorge Luis Borges, Machado de Assis e Enrique Vila-Matas. No entanto, Marcio Renato dos Santos desenvolve, neste que é o seu segundo livro de contos, uma dicção peculiar. O autor trata do individualismo com narrativas em primeira pessoa. Do cotidiano mais banal, a literatura de Marcio Renato dos Santos emerge com uma linguagem elaborada, de difícil de classificação, mas fluente para a leitura.           

O escritor Fábio Campana chama atenção para um dos aspectos de Golegolegolegolgolegah!: “Os textos nos levam a vivências agônicas construídas pela experiência humana diante da realidade áspera do cotidiano. É a absurda normalidade da vida que jorra e não há uma gota sequer de sofrimento, de autocompaixão, de sentimentos que fazem alguns textos desta estirpe resvalarem pelo pântano da pieguice.” Campana, que editou livros de Décio Pignatari, Paulo Leminski, Wilson Bueno, Jamil Snege e Nelson de Oliveira, entre outros, também destaca que nos contos de Marcio Renato dos Santos os enredos “nos atropelam com aquilo que não queremos ver ou sentir, e nos levam a imersões fantásticas.”

Golegolegolegolegah! comprova o que foi dito a respeito da estreia literária do autor em 2010 com o livro de contos Minda-Au, publicado pela editora Record. Na ocasião, o escritor e jornalista Carlos Herculano Lopes escreveu no Estado de Minas que “Marcio Renato dos Santos, com Minda-Au, estreou na literatura em grande estilo. Escreveu um ótimo livro ou uma pequena mostra do que ainda vem por aí. Afinal de contas, como ele confessou, tem centenas de histórias prontas. Se tiverem a mesma força dos sete contos desse livro de estreia, com certeza iremos ler muita coisa boa de sua autoria.”

O escritor e doutor em Letras pela USP Bruno Zeni, em resenha no Guia da Folha de S.Paulo, também elogiou os “procedimentos literários de Marcio Renato dos Santos”, afirmando que o livro de estreia [Minda-Au] apresentava um “escritor com grande capacidade”.

Golegolegolegolegah! coloca em evidência a obra em progresso deste escritor curitibano de 38 anos que publica — desde junho de 2011 — um conto inédito por mês na revista Ideias da Travessa dos Editores, casa editorial que, agora, publica essa obra concebida graficamente, ilustrada e diagramada por Marciel Conrado, artista versátil que se torna conhecido pela atuação no grafite e também no designer gráfico. 

Serviço: Lançamento do livro Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores, 78 págs.- R$30), de Marcio Renato dos Santos. Dia 19 de março de 2013, a partir das 19 horas.Local: Museu Guido Viaro (R. XV de Novembro, 1.348), no centro de Curitiba. Estacionamento gratuito, com entrada pela Rua General Carneiro, anexo ao Museu. - O livro é um lançamento da Travessa dos Editores, com ISBN: 978-85-89485-90-6 e ilustrações de Marciel Conrado.

Em 59 minutos

segunda-feira, 4 de março de 2013

A noite está velha

            Claudio desce as escadas do Bar Bashô e, no palco, um sujeito, com bigode, diz:
            – Berinjelas/ voam/ pelas janelas.
            Mais de cinquenta pessoas aplaudem. Os gritos podem ser ouvidos na rua, onde um sujeito parecido com o Ignatius J. O'Reilly vende cachorro quente.
            O concurso semanal de imitadores do Paulo Leminski reúne dezenas de pessoas. Em algumas noites, mais de cem lotam o espaço subterrâneo onde é possível beber vinho, consumir sopa e flertar.
            – Ananias/ come até mesmo/ melancias.
            Palmas para a performance verbal de um outro sujeito, com bigode, que pula do palco, pisa em cima de uma mesa e desaparece.
            Claudio pede uma Kaiser Gold, bebe dois goles, olha ao redor e se dá conta de que no Bar Bashô todos usam bigode, até as mulheres.
            Uma mulher está com o microfone nas mãos, mas ela não declama:
            – Agora, é a segunda fase. Não basta apenas declamar. É necessário dar provas multimídias, transar duas ou mais artes ao mesmo tempo. Let's go.
            Aplausos.
A maior parte do público começa a gritar:
            – Paco, Paco, Paco.
            Fãs do Leminski entram e saem do palco, mas a performance com mais duração, que parecia não ter fim, foi a de Paco.
            Ele entra em cena gritando nhoque, queijo, rolmops, churras, churros, alcaparras. Em uma das mãos, um frango assado, que o artista devora em pouco mais de um minuto.
            Aplausos.
            Paco sorri, e as luzes mostram que a sua barba está ensopada de gordura, além de restos de comida.
            Começa a fazer polichinelos. Aplausos. Ele para. Aplausos. Liga um aparelho de som e canta uma canção que, avisa, ser de sua autoria, na qual também faz menção à comida. Gesticula como se fosse um rapper. Aplausos.
            Claudio está na oitava, nona Kaiser Gold e não sabe se Paco faz menção ao Leminski ou parodia com nonsense o Artista da fome, do Kafka.
            – “Se bobear, como até rolha/ misturada com kiwi/ em meio a plástico bolha”. O público aplaude e Paco sai de cena carregado.
            A ficha de consumação de Claudio tinha anotadas 12 Kaiser Gold's quando ele subiu ao palco. Se era pelo fato de não ter bigode ou devido a sua estreia no porão do Bar Bashô, ele não sabia o motivo, mas houve estranhamento traduzido em silêncio.
            – Boa noite.
            Silêncio.
            – “Mano, a noite está velha”.
            Ninguém se manifesta após Claudio declamar a frase, título de um livro.
            – “Viver é prejudicial à saúde”.
            Silêncio.
            Claudio escuta ruídos, e tem a impressão de que alguém vaiou.
            – “Comendo bolacha maria no dia de são nunca”.
            Após verbalizar a palavra nunca, Claudio escuta, de fato, uma vaia.
            O ruído aumenta.
            Ele se retira do palco sem olhar para trás, segue por uma das portas que dá acesso à lateral do porão, conversa com os seguranças e, antes de sair do Bashô, se dá conta de que dezenas de sujeitos com bigode que estavam no concurso semanal de imitadores do Paulo Leminski agora caminham em sua direção.
            Claudio se aproxima do Ignatius J. O'Reilly, e diz:
            – Acho que estou encrencado.
            Ignatius J. O'Reilly, ou o sujeito que se parece com o Ignatius J. O'Reilly, termina de mastigar um pedaço de cachorro quente, e pergunta:
            – Qual o problema?
            Os cinquenta, ou mais, sujeitos com bigode saem do Bar Bashô e um deles vê Claudio ao lado do carrinho de cachorro quente:
            – Olha ali.
            Ninguém tem certeza a respeito do que aconteceu. A versão da dona do Bashô é diferente do que foi relatado por um oficial da polícia. Miguel Bakun, vizinho do bar, conta que Ignatius J. O'Reilly defendeu um sujeito sem bigode de uns cinqüenta ou mais bigodudos. “O homem que vende cachorro quente bateu com as suas patas em alguns frequentadores do bar, mas ninguém saiu ferido”, repete Bakun nas entrevistas que concede até hoje.
            Em meio ao confronto, Ignatius J. O'Reilly abriu uma lata de salsichas e jogou o conteúdo em cima dos bigodudos. Os frequentadores do concurso semanal de imitadores do Paulo Leminski começaram a comer as salsichas, que eles chamam de vina, mesmo as que estavam no chão.
            – Estão com os bigodes encharcados de vina.         
            Quem disse a frase foi Ignatius, convidando Claudio para seguir em direção ao centro da cidade. No caminho, o vendedor de cachorro quente afirmou, mais de uma vez, para Claudio:
            – Você é o verdadeiro leminskiano. O leminskiano de verdade não imita o Leminski, não usa bigode nem pratica trocadilhos. O leminskiano verdadeiro é o anti-Leminski.
            Variações dessas frases foram enunciadas por Ignatius. Após agradecer pela ajuda, pela companhia, Claudio se despede com uma frase que ele já havia pronunciado no porão do Bashô:
            – Mano, a noite está velha.


Texto publicado originalmente na página 47 da revista Ideias, edição 137, março de 2013. A ilustração é do Marciel Conrado.

Personagens acossados, no limite