domingo, 22 de setembro de 2019

Desastres do amor

Desastres do amor (1968), contos de Dalton Trevisan (Na imagem uma edição, a 6.ª, de 1993).
“O que impressiona em Dalton Trevisan é sua capacidade de fixar a vida, em flagrante, sem um mínimo retoque; o jeito peculiar de gravar, como a preto e branco, fatos e instantes, deixando nítidos os traços da fisionomia das pessoas, em transes de dor, desencanto ou desespero; a maneira personalíssima de enfocar um momento surpreendente ou uma situação inesperada dos seus Joões e suas Marias. Ele, sempre de olho na condição humana”.
Valdemar Cavalcanti

O vampiro de Curitiba

O vampiro de Curitiba (1965), contos de Dalton Trevisan (Na imagem uma edição, a 19.ª, de 1998).
“O dom de Dalton Trevisan é a habilidade de escolher e destacar um único momento, um lampejo, poucas linhas de diálogo, e projetar artisticamente esse microcosmo de vida”.
Robert A. McClean, Boston Globe

sábado, 21 de setembro de 2019

Morte na praça


Morte na praça (1964), contos de Dalton Trevisan [Na fotografia, edição de 1998].
“Entre nossos contistas, ninguém usa o recurso da elipse com mais propriedade que Dalton Trevisan, enxuto na linguagem sem ser indigente na substância”.
Haroldo Bruno

Cemitério de elefantes


Cemitério de elefantes (1964), contos de Dalton Trevisan [Na foto, uma edição de 2002].
“Se você vai ler DALTON TREVISAN pela primeira vez, eu o invejo. Não é todos os dias que temos essa revelação do primeiro encontro com um grande escritor. Digo-lhe mais: você vai encontrar DALTON TREVISAN em um dos melhores momentos, este Cemitério de elefantes”.
Fausto Cunha

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O grito da borboleta



No dia 5 de outubro, a partir das 15 horas, João Lucas Dusi autografa o seu livro de estreia, O grito da borboleta (contos), publicado pela Editora Penalux.
O evento acontece no Café Tiramisù - Café e Bistrô, no centro de Curitiba, anexo ao Museu Guido Viaro.

Novelas nada exemplares

Novelas nada exemplares (1959), contos do Dalton Trevisan (Na imagem, uma edição de 1994).
"Como simples leitor, cumpre-me expressar o respeito e a admiração pela obra do contista paranaense, certo de que a sua presença em nossas letras marca um dos momentos mais puros e belos de nossa época literária".
Carlos Heitor Cony

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Celebração

Se não vieste,
como celebrar a tua vinda?

A manhã é luminosa,
grande e belo será o dia
e certamente
grande e bela será também
a noite.

E não vieste.
Como sempre, não vieste.

Assim,
vou pôr rosas na mesa
e abrir o vinho,
para, mais uma vez, celebrar a tua
permanência.

Poema de Ruy Espinheira Filho publicado em A casa dos nove pinheiros (2012) e em Estação infinita e outras estações (2012).

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Aguinaldo Severino resenha O Princípio da Incerteza

O Aguinaldo Severino resenha O Princípio da Incerteza, romance de Guido Viaro. Conteúdo publicado em Livros Que Eu Li. Leia por aqui.

FULANO É COLUNÁVEL

há quanto tempo
não ouvia
algo assim

e fico pensando
se fulano
ficaria melhor

como coluna
dórica
ou
jônica

Poema de Ruy Proença publicado em Caçambas (2015).

terça-feira, 17 de setembro de 2019

O REFÚGIO DO CORSÁRIO

ondas
sobre
ondas

vagas
que não cessam

daqui
onde olhos
são antenas

vejo
mas não ouço
o ritmo do mar

nuvens claras
e bandeira negra

a miragem
de um navio fantasma
tremula
no poema

Poema de Ademir Assunção publicado em A voz do ventríloquo (2012).

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Poema de Marcos Siscar

o poema não foi feito para você
mas seu nome cabe nele tão perfeito
como se antes de ser feito o poema
já se visse a seu nome nome afeito
fosse feito do seu nome no poema
não haveria nada mais do que fora
feito em seu nome apenas caberia
ao nome o pretérito mais que perfeito
(antes mesmo ou depois de descoberto
o nome mais que perfeito atravessa
rumo à promessa do outro verso até
que da flor finalmente recoberta
o poema possa reter o gosto bruto
da leveza o seu nome guarda inteiro
a novidade do passado retirado
da imprudente e devastada singeleza)

Poema de Marcos Siscar publicado em Metade da arte (2003).

domingo, 15 de setembro de 2019

Enquanto o respirar



O amor morreu
diz quem não sabe amar,
morreu a arte
o romance se foi
o autor está defunto.
Aninham-se os coveiros nas suas frases
enquanto o respirar das coisas mortas
ergue
sereno
o peito do mundo.

Poema de Marina Colasanti pubicado em Passageira em trânsito (2009).

sábado, 14 de setembro de 2019

violinos

música em surdina
abismos de Paganini
as rosas sem fim

secreto teu olho cigano
passeia os cílios em mim

Poema de Wilson Bueno publicado em Pequeno tratado de brinquedos (1996).

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

o que sobra



o que sobra são buracos na sola do sapato
essa vontade irreprimível de pegar o próximo trem
meu nariz que não para de escorrer
o gesto mecânico de secar o lenço
o jeito quase puritano com que me movimento
meu lastro de cartões de boas festas
o sorriso sonso de quem não sabe por onde andou
o que sobra
é o que chamam de destino
esse travo amargo
e a impossibilidade de beber até o último trago

Poema de Mário Bortolotto publicado em Um bom lugar pra morrer (2010).

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

ORIGAMI



As cores no piano
ignoram a terceira
que repara na sombra
de novo um fruto.

Nuances passam frias
do resíduo diálogo
segundo o olho fora,
imposição.

Manchas se fazem mãos
móveis pelo papel.
Se duvidas, amassam
o continente.

E farão desse céu
triângulo, esfera
capaz de moto próprio,
outra pupila.

Poema de Moacir Amâncio publicado em Figuras na sala (1996) e em Ata (2007).

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

nunca houve cerejas à mesa

o gosto rondando a boca
caldo entranhando-se entre dentes
e imaginação
mãos úmidas de vermelho
olhos fechados sob a figueira na rede
cerejas cerejas cerejas

havia guabijus

Poema de Sergio Napp publicado em Memória das águas (2002).

terça-feira, 10 de setembro de 2019

SILÊNCIO



que olhos de vinho e saudades
se escondem nesses mansos olvidos
das nuvens de setembro?

que vidrilhos de lisa e furta cor
se estendem nas madeixas da noite
em seus movimentos de entranhas
e estradas sem ausências?

Silêncio, encerrado em melodias
curtas e infinitas, o silêncio escorre
suas águas – no seu oceano
corre o átomo do amor.

Poema de Jandira Zanchi publicado em Gume de gueixa (2013).

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O chorare vai chegar

Conheço alguns de seus segredos, de você, você mesmo, você mesma pessoa só. É sobre você que estou falando, mas não vou revelar agora, nesta frase, aqui, não vou abrir o jogo imediatamente. Sei tanto a seu respeito, talvez mais do que você, que ilude a si mesmo há anos, sabe sobre essa ficção em que você se transformou, pessoa que veio do pó, pessoa só, futura pessoa pó.
Antes de o galo cantar pela terceira vez, e antes de negar o inegável, você mata o galo, não é mesmo? Mas não sou galo nem tolo pra contar isso a qualquer pessoa, muito menos revelar a você que conheço os seus movimentos, assassino de galos, você que corta a língua da testemunha número 1, compra por pouquíssimos dinheiros o silêncio da testemunha número 2, fura os olhos da terceira testemunha e, se necessário, também mata a testemunha 666.
Os seus amigos e amigas recentes não vão acreditar, nunca, talvez um dia, sei lá, não sei, que você é chupa-cabra, aranha marrom, zé ruela. Essa gente deixa-se enganar por um doce, um sussurro, e você convence com elogios e reais, não é? Mas em breve, todas, todos, todes, todxs vão sacar, se é que não sacaram, que você é um tremendo dum engazopador, bagre ensaboado, 171 – teus desafetos, todos ex-amigos, hoje inimigos, sabem que cê não vale nada, mas, enfim, tem ingênuos dispostos a serem engabelados, né não?
Tudo é jogo e o jogo exige jogadas para ser bem jogado – essa é uma de suas frases favoritas, não é, meu inimigo? Você já perdeu muito e ganhou bem mais do que as perdas somadas. E faz algum tempo, e esse tempo já envelhece de tão contínuo, faz anos que a maré tem sido favorável para a sua canalhíssima pessoa – mas a maré vai mudar, isso está previsto inclusive na tábua das marés, é a regra do jogo. Então, triste figura, o seu apocalipse se aproxima, sem dúvida, e tanta gente espera por esse momento, eu e outros, muitos.
Hoje se faz necessário propor um desafio. Sei que você se acha e, além de se valorizar acima do que supostamente vale, ainda gosta de dizer que enfrenta qualquer parada. Então: aceita encarar a sua imagem refletida no espelho? Pode ser até em água lisa, em um lindo lago do amor, mas para não dificultar vale espelho fixado em qualquer parede. Consegue encarar o que vê? Por quanto tempo? O que acha dessa ruína de hábitos, que tal o desmoronar físico? Como conseguiu assassinar a criança e dar vez a esse equívoco de atos-gestos repulsivos?
Tenho a possibilidade de tirar você do jogo, basta enviar uma mensagem, sabe, sabia?, mas não – não que eu seja gente boa, ao contrário. Quero é distância de gente como você. Que urubus, outros chacais e hienas múltiplas te despedacem durante essa prorrogação, adiado cadáver.

Conto de minha autoria publicado na revista Ideias 215, setembro de 2019, com ilustração do Vitor Mann.

CORRENTE

Não há pressa nos rios
apesar das corredeiras
com seu repertório de urgências.

Apenas novos mistérios
que neles mergulham
mal irrompe o dia.

Seremos derrotados
pela verdade,
essa aflita correnteza
que implodirá
a festa da existência,
a frágil iminência dos desejos.

Poema de Ronaldo Cagiano publicado em Os rios de mim (2018). 

domingo, 8 de setembro de 2019

neste interlúnio

Neste interlúnio
Sou um dilúvio ou me afogo.
E entre espectros que comprimem,
Nada se cumpre,
O destino esfarela.
De querela e farinha se ergue um olho.
As vozes despetalam,
Os períodos se abrandam,
Orações inteiras lentas se consomem,
Em poços há sumiço de palavras moucas.
Neste interlúnio
Sou fagulha ou hulha inerte.
Enorme berne entra corpo adentro,
Entre os dentes, carne.
Arde o ente e cospe,
Cuspe inútil invadindo espaço.
Moléculas moles coleando,
Víboras vagas se rimando,
Poetas quietos entreolhando
Coisas coisas que falecem.
Neste interlúnio,
Sou coisa ou poeta.

agosto/68

Poema de Ana Cristina Cesar publicado em Inéditos e dispersos: poesia/prosa (1985) e em Poética (2013).

sábado, 7 de setembro de 2019

Poema de Cyro dos Anjos


Não sei quem sou nem o que valho,
qualquer opinião me afeta
qualquer esquivança me agrava.
Invejo Robinson Crusoé
bastante a si mesmo
forte, jovial, inventivo,
Robinson Crusoé,
acendendo o seu foguinho na ilha.

Poema de Cyro dos Anjos publicado em Poemas coronários.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Anjos da guarda

Existem pessoas que usam o olhar
Para acalmar a dor e afastar a morte.
São os anjos que mal percebem
Sua função principal, que
É pegar uma partícula mínima
Do que em nós ainda importa
E jogar contra os seres que
Aguardam do outro lado da porta.
Essas pessoas sem nome –
Poucos sabem de onde vêm –
São as loucas da aldeia
Da nossa infância.
Com sutil elegância nos guiam
Entre o veneno do falso xerez
E o caminho corajoso do talvez.

Poema de Fausto Wolff publicado em Gaiteiro velho (2003).

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Ok ok


Ok, ok o muro está praticamente destruído
ok, o muro é insensível
ao vento, à manhã, à tarde
a si mesmo


destruído
máquina do tempo,
sabotagem
musgo


desertar da sina de existir
rosicante burocrático
garr, div
a sós, a esmo


dane-se, vingança
escombros, palavras
tudo nosso
pense no mundo dos moluscos


e suas verdades matemáticas
eva asse essa ave
paradisíaca
um rato


entre os dentes carcomidos
como sempre
o tráfico está carregado
e áspero


Poema de Régis Bonvicino publicado em Página órfã: (2004-2006) e também em Até agora (2010).

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

UMA CARTA

feita de palavras-águas
com o frescor de imagens

e aquele sabor estranho
que os sonhos têm,

uma carta

que enviasse em suas águas
o bater de asas de um peixe

sem vestígio de anzol
em sua boca.

Poema de Sônia Barros publicado em Tempo de dentro (2018).

terça-feira, 3 de setembro de 2019

No Estúdio Realidade


Sonho, essa esfinge de areia,
monumento de absurdo e alegria
Por quem o louco futuro cantaria:
Teu fim foi bem ao meio-dia.

Trazias mil segredos e pessoas
transitavam  em  tuas  salas
Como  sombras,  pálpebras  e  psius
Que mais dizem quanto mais calam.

Estranheza, sucessão de fragmentos,
complicando o que era certo,
ora num deserto, outras num incerto
Lugar que se chama este momento.

Poema de Rodrigo Garcia Lopes publicado em visibilia (1997 e 2005).

domingo, 1 de setembro de 2019

Dois poemas do Luiz Antonio Solda

a vida passa assim:
na metade
já estamos no fim

//

é  preciso que se morra
mas que se morra aos poucos
devagar
dentro do horário
com cautela
sem onerar o erário
é preciso morrer
na disciplina protocolar
parar de respirar
sem nenhum comentário
morrer
é muito particular

Poemas de Luiz Antonio Solda publicados em Kamikase do espanto (2001).

sábado, 31 de agosto de 2019

Tempo

O tempo voa e morre a cada instante.
De tudo o que aparenta eternidade
Nem o passado fica, na verdade,
E o agora é só um segundo já distante.

Futuro é nada mais do que o presente
Que aguarda numa fila, e se suicida.
A vida que virá já é coisa ida
Enquanto a que se foi faz a nascente.

O instante, que se mata e vai embora,
Em noite se transforma como o dia.
Momentos se sepultam a toda hora

Mostrando uma verdade que dizia
Que a morte não existe – existe o medo
De a noite revelar-se ainda mais cedo.


Poema de Henrique Rodrigues publicado em A musa diluída (2006).