terça-feira, 18 de junho de 2019

Compre e leia 2,99

Compre e leia o meu terceiro livro de contos, 2,99 (Tulipas Negras, 2014). Custa R$ 30 na Livrarias Curitiba. Clique aqui e aproveite.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Compre e leia Golegolegolegolegah!

Compre e leia o meu segundo livro de contos, Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores, 2013). A partir de R$ 9,90 na Amazon. Caminho para aquisição e leitura.

domingo, 16 de junho de 2019

Compre e leia Minda-au

Compre e leia Minda-au (Record, 2010), o meu primeiro livro de contos. A partir de R$ 5 (Cinco reais) na Amazon. Mande ver por aqui. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Nota sobre Os touros de Basã



      Em sua estreia como contista, o poeta Marco Aurélio de Souza apresenta os touros que habitam cada vez mais as cidades brasileiras. Nas 13 narrativas de Os touros de Basã (Kotter Editorial/Patuá, 2019), o autor recria literariamente o que todos vemos e não conseguimos esquecer: os sem teto, os sem PIS, os sem férias, os que ocupam brechas disponíveis, seja embaixo de marquises ou dentro de imóveis abandonados, entre opções urbanas.
Esses touros talvez estejam amortecidos por álcool, drogas, desalento e solidão. Mas não são mansos. E se eles se articulam e, por exemplo, atacam todos os outros, eu e você? Será, então, a hora dos ruminantes?
Algum vizinho, talvez a vizinha do 71, está ouvindo em volume exagerado “Milagres”, do Barão Vermelho, e, neste instante, parece que o Cazuza canta: “Que tempo mais vagabundo/ esse agora/ que escolheram pra gente viver”.
A canção me desconcerta, quase atrapalha o raciocínio, mas, qual era mesmo a sequência deste texto? Linguagem? Confluência? Ahn? Sim. As narrativas de Marco Aurélio de Souza flertam com a crônica nos fragmentos em que o narrador descreve cenários, muitos deles em Ponta Grossa, cidade onde o autor vive. As descrições indicam um ponto de vista crítico e sóbrio, elementos que imprimem consistência aos textos, ao livro como um todo. Mas também há recursos do conto, as tramas e resoluções de problemas, além da necessária tensão, fundamental em uma breve narrativa.
Ler uma obra de narrativas temáticas, ainda mais se a proposta é bem resolvida, fascina, seja Nu, de botas, recriação da infância de Antonio Prata, e especialmente este Os touros de Basã, que focaliza um problema brasileiro sem solução rápida ou fácil — Basã é um local recorrente na Bíblia, e aparece, por exemplo, em “Josué”, no Antigo Testamento — reler a Bíblia é um prazer estético, ainda mais se a tradução é a do português João Ferreira de Almeida, um estilista notável, apreciado, entre outros, por Dalton Trevisan.
Tenho um conto, "Gudzins", publicado na edição de setembro de 2018 da Revista Ideias, que, se não é irmão, pode ser um primo, mesmo distante, das narrativas que Marco Aurélio de Souza nos brinda, certeiro, neste Os touros de Basã.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Branca


Teve aquele siricutico de se afirmar resistente, e Branca postou: serei resistência! Tanta gente fez o mesmo, mas uns poucos, como o Joseph, a Irony e o Hate, vaiaram: resistência de chuveiro? Então, a máquina do mundo gira, a pomba também girou, e surge um convite. Salário nesse tempo de doze, treze, catorze, quinze milhões de desempregados. Evidente, evidentemente ela aceitou. Mesmo que no fim das contas, no final do túnel, o empregador seja algo que ela sempre disse desprezar, trem pagador conectado a tudo o que Branca dizia fazer-ser resistência.
E nesse solavanco de bem-aventurança, Branca deu um chega pra lá no Philip. Foi bom enquanto duro durou, esse é um de seus mantras. Ano novo? Novo emprego, endereço novo, outro ponto de vista, novas roupas, tudo novo ou quase. Lavou tá novo, né não?
Branca daqui pra frente também é Uaiti ou Blanca para o próximo, para o seguinte, para quem vier. O ex já é estória, estória pra ser esquecida, especialmente pelo fato de que ele já precisava de bengala, apoio moral e remédios demais, até do azul carecia, pode? Branca, Uaiti ou Blanca diz que não nasceu pra ser enfermeira e, enfim, está se permitindo novo futuro onde cabe outra pessoa, se possível mais jovem, pra carregar a malinha de mão do seu coração.
Para se reinventar Branca fez um curso sobre vinhos e já usa o repertório no bar, no japonês, em casa e na cama. Cabernet Sauvignon harmoniza carne vermelha: as coxas do Giulio são rubras, ai, ai. Peixes com Merlot, Pinot Noir e grelhados, Tempranilo pra carne de coelho e as madrugadas com o Nandinho são ainda mais excitantes se tiver Malbec. Queijos fortes pedem um Gewürztraminer, o Riesling acompanha aves gordas, sopas vegetarianas pedem um Sauvignon Blanc e, se pintar um asiático, vai provar Pinot Gris. O Philip, ela faz questão de dizer, é página virada: “daquele tempo em que, cruzes, eu ainda bebia cerveja”. A fila já andou, Branca costuma dizer pras amigas da academia. “E quando que não anda?”, completa uma colega de balada, a Bibi.
Mas, que ninguém saiba do fato, e quem souber guarde bem o segredo, o prazer maior de Branca atualmente é viabilizado pela amiga Humberta ou Humbertinha, a filha do dono de uma funerária. O corpo que chega na empresa é chamado de podrão. Pelo menos é assim que Humbertinha e Branca se referem aos cadáveres. Antes da preparação, da maquiagem e da família ter acesso, Branca consegue um tempo, trinta minutos, para ficar sozinha e se bolinar diante de um podrão. Eis a tara de Branca, Uaiti ou Blanca nesta vida: gozar com os mortos.
Ela tem outras taras, muitas, e uma das obsessões é comentada pelos amantes, colegas de trabalho e principalmente pelas inimigues. Branca deixa o cofrinho visível. O pessoal da firma faz zoeira, ela sabe e diz que é uma ação que a deixa excitada. E, antes de transar, pede ao parceiro para passar moedas sobre as suas nádegas e, em algumas situações, ainda com roupa, solicita que objetos deslizem pelo espaço da calça em direção ao cóccix. É uma delícia, confessa a mulher que gosta de dizer que, se não for pra causar, “nem me chame”.



Meu conto inédito publicado na Ideias de junho de 2019, com ilustração do Vitor Mann.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A respeito de Danação

Danação (7Letras, 2018), o primeiro romance do contista Luís Pimentel, tem 23 capítulos ou fragmentos. É possível (e talvez essa seja uma vereda recomendável) ler 1 capítulo (ou fragmento) por dia. Também não é desatino considerar cada capítulo como uma hora de um dia e, vale repetir, são 23 capítulos (horas?). A vigésima quarta hora (ou vigésimo quarto capítulo?) depende dos leitores. É o leitor quem vai dar sentido e completar as sugestões da narrativa que apresenta um sujeito, um José, que ziguezagueia em busca de seu destino. Há perdas, há desilusão, há crimes, há fome, há flash-backs, há tensão, há poemas e há, sutilmente articulado no texto, elipses, incompletudes, vazios propositais que, fato, somente quem lê pode completar. Lembro de O sol por testemunha (1960), filme dirigido por René Clément, como outra obra em que o espectador é necessário, imprescindível, para a realização da proposta narrativa.
Está aí Danação, possibilidade peculiar da literatura brasileira, um acerto do Luís Pimentel.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Luis Pimentel comenta A cor do presente

O escritor e jornalista Luis Pimentel leu A cor do presente (Tulipas Negras, 2019), o meu oitavo livro de contos, e escreveu: "Gostei demais dos contos. Todos! Extremamente bem escritos, curiosos e super imaginativos. Não há uma narrativa banal, todas trazem elementos que fazem o leitor perguntar 'De onde esse maluco tirou isso?' Livrinho-livraço! Parabéns."

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Antes das seis


É um milagre ouvir Eletric Ladyland. Já nos primeiros segundos você pode entrar no universo sugerido por Jimi Hendrix. Lá tem cores, movimento permanente, sequências não óbvias, quase nada parado, talvez apenas você que ainda não entrou nas canções e no muito que elas têm.
Do mundo Eletric Ladyland você pode seguir para o Blue Train, do John Coltrane, ou para o Kind of Blue, do Miles Davis. Às vezes, não poucas, confundo esses dois álbuns, talvez pelo fato de o Coltrane estar em ambos.
E a exemplo do Eletric Ladyland, o Kind of Blue e o Blue Train possuem singularidades, cada um com a sua atmosfera, planetas azuis para onde o viajante só não vai se não quiser.
Compromissos de 2019 criaram novo percurso em meu cotidiano: a rua Alberto Folloni, exatamente no ponto em que está situado o prédio cor de laranja em que o Jamil Snege passou os seus últimos anos.
Ele partiu em 2003, portanto há um silêncio de mais de uma década. E todo dia lembro do Jamil, de alguma situação em sua agência na Rua Isaías Beviláqua, de conversas em meio a café, gargalhadas e cigarros, de observações dele sobre livros e autores (o Jamil me apresentou, entre outras vozes, Philip Roth e Ian McEwan) e especialmente da amálgama que nos aproximou: o hábito de observar atentamente e comentar a comédia-tragédia humana, sobretudo a dos humanos mais próximos.
Dezesseis anos distante, a memória se liquefaz e é por meio dos livros que ele escreveu e publicou que viajo para o mundo de Jamil Snege. A exemplo de Hendrix, Coltrane e Davis, entre tantos cronópios, o Jamil também inventou um universo com linguagem, em que há, entre outras singularidades, precisão, ironia, surpresa e, admiravelmente, nenhum momento de pieguismo – talvez por isso mesmo que a prosa e a poesia dele têm a potência de emocionar leitores e leitoras.
Mas, enfim, é a partir das dezessete horas que passo na Alberto Folloni e lembro do Jamil, de sua obra e do nosso convívio, tão distante, agora inacessível. E isso se dá justamente em um fragmento do dia em que a noite, com sua beleza e horror, se insinua, mas ainda está distante. É quase o final do expediente, pais e mães buscam os filhos na escola, não há tantos carros nas ruas nem pedestres demais nas calçadas. A jornada padrão vai se encerrar, um fio de alegria está solto e, quando não chove nem dá em nublado, é num cenário azul, em outro Kind of Blue e até mesmo em um alternativo Blue Train, que viajo. Especialmente se foi possível fazer a sesta entre catorze e dezesseis horas, de onde despenco para caminhar sem a noção exata do limite entre o sonho e esse mundo aí, o da rua, para de repente driblar o mapeamento das expectativas e códigos programados. E seguir.



Texto publicado na revista Ideias, maio de 2019. Ilustração do Vitor Mann.

terça-feira, 7 de maio de 2019

sábado, 4 de maio de 2019

A cor do presente: quatro resenhas em abril de 2019

A cor do presente (Tulipas Negras, 2019), o meu oitavo livro de contos, teve quatro resenhas em abril de 2019. Aguinaldo Severino (Livros que eu li), Sérgio Tavares (A Nova Crítica), Vicente Ferreira (Revista Ideias) e Cassionei Niches Petry (Pedra e Vidraça) leram e analisaram a obra. 
A todos eles, o agradecimento maior que o presente, maior que o mundo.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Além dos out-doors


A que se destina

"Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta da realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é".

Fragmento da "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz", narrativa de Jorge Luis Borges.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Magaly Floriano lê e comenta A cor do presente


A artista e jornalista Magaly Floriano leu A cor do presente (Tulipas Negras, 2019), o meu oitavo livro de contos, e escreveu:
"Sobre 'A Cor do Presente'. Eu me diverti e adorei o gosto musical dos personagens. Interrompi a leitura, muitas vezes, só para ouvir as músicas. Foi o máximo ler com trilha! Como pode perceber, minha identificação com os 'maluquinhos' foi imediata já que muitos de meus mosaicos nascem de canções. Por esse e por outros motivos confesso que o melhor encontro foi com o aspirante a psiquiatra.Torço muito para que ele não desista!!!!! Um viva ao autor Marcio Renato Dos Santos e ao ilustrador Simon Taylor!"

Na foto, o Vini, o Simon, a Magaly e eu na abertura da exposição Volta ao Centro Histórico em 80 dias, na noite de 12 de abril deste ano, no Solar do Barão. 
Clique do Nelson Martins.

Ludo real


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Herdeiro do Vampiro

Marcio Renato dos Santos é um escritor que respira contos. Vem lançando um livro por ano, numa produção constante e de qualidade, sempre num bom nível de elaboração artística. Não é diferente com o recente A cor do presente (Tulipas Negras, 118 páginas), narrativas em que o acaso e o sonho predominam.

“Coincidência, ou não, Luciano insistiria, se pudesse, que não existe coincidência”, diz o narrador de “Comfortably Numb” (referências à cultura pop são comuns em seus títulos), conto em que o protagonista, um músico, é vítima de um desabamento de uma marquise, estando “num lugar impróprio na hora inadequada”. No segundo conto, “Serra”, também há um acidente, dessa vez um carro que cai num rio depois de seu motorista, o Diego, beber e fumar um cigarro atrás do outro, passando mal por isso. O que segue depois com o protagonista parece algo meio onírico ou alucinógeno.

Em “No corpo do sonho”, mulheres desaparecem misteriosamente e o caso repercute porque todas têm, coincidentemente ou não, quarenta anos. A detetive Antônia, que tem essa idade, investiga os desaparecimentos e, lá pelas tantas, tem um sonho em que, entre outros absurdos, aparece um coelho que lhe pede cigarro, repetindo uma clássica cena do conto “Teleco, o coelhinho”, de Murilo Rubião.

São justamente coelhos que protagonizam o conto que intitula o livro, cujo cenário é uma sociedade em que os modismos mudam a todo o momento e quem não segue os ditames corre sérios riscos: “O vento chega pelo noroeste, as mãos que distribuem as cartas são outras e Simão nem sabe mais se gosta do azul”.

Destaco também o conto “Subúrbios”, em que a inventividade do escritor se dá no nome de linhas de ônibus, praças e até pratos de restaurantes da história, inspirados em livros da literatura de sua terra, Curitiba. Que tal, por exemplo, provar um petit gateau Novela nada exemplares no restaurante Capitu sou eu (títulos de obras do Dalton Trevisan)?

Além destes cinco, há mais outros seis contos que, como bem sintetiza Aguinaldo Severino, no blog Livros que eu li, parecem “querer fixar em prosa alucinações, delírios, mecanismos mentais, paranoias ou ainda o fluxo de consciência de indivíduos mais que estranhos, doentes, bizarros”.

Marcio Renato dos Santos vem fixando seu nome como contista, dedicando-se a um gênero que ainda é preterido em relação ao romance, seguindo firme na trilha do Vampiro de Curitiba. Quem sabe não será o herdeiro do mestre?

(Outras resenhas que escrevi sobre o escritor: aqui e aqui.)


Resenha de autoria de Cassionei Niches Petry publicada no blog Pedra e Vidraça.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Binaca


Nunca mais fui ao Café & Restaurante Trem Pagador. Almocei por anos no local, onde a refeição era e talvez ainda seja servida até as 15 horas. Por ser autônomo, poderia, em tese, almoçar na hora que quisesse. No entanto, para sobreviver sou obrigado a participar de reuniões, algumas realizadas no tradicional horário de almoço. Mas, enfim, frequentei assiduamente o estabelecimento daquele empresário, o Trem Pagador, conhecido por investir no cultivo de laranjas e na criação de patos.
Eu chegava pouco antes do serviço ser encerrado, portanto, quase não havia clientes nem comida. Mas era bom, ótimo. Especialmente pelo fato de eu escutar a conversa dos garçons, que conhecia de oi e tchau, mas de quem nunca soube os nomes. Fiquei sabendo que eram universitários da área de humanas, a maioria do curso de letras. A cada semana, dez, quinze dias, discutiam exaustivamente uma questão. Depois mudavam de assunto.
Lembro como se fosse há poucos minutos, mas já faz tanto tempo, do debate a respeito de bar, boteco, botequim ou, como um deles definiu, bodega.
O Garçom A disse que bar é o último refúgio dos canalhas. Último não, contestou o Garçom B: boteco, para ele, é o primeiro refúgio de todos os canalhas, pulhas e picaretas. O Garçom C discordou dizendo ter certeza de que todo botequim, bodega, baiúca que seja, não passa de um para-raio de gente chata, carente e careta, mesmo quando o frequentador se apresenta como hipster, beatink ou muito louco. “Vampiros também costumam frequentar boteco”, acrescentou o Garçom C.
Nunca concordei com o que eles falaram sobre bar, até porque frequento bares e não me considero canalha, pulha, picareta, carente, careta ou chato, apesar de que alguém pode me definir com alguma ou até mais de uma dessas palavras. Agora, não sou e jamais serei hipster, beatnik e muito louco. E vampiro? Acho que não sou, mas não tenho certeza.
Mesmo não concordando, e talvez até por causa disso, apreciava ouvir aqueles confrontos verbais dos garçons. Um deles, possivelmente o Garçom D, afirmou que chato mesmo era encontrar no boteco a chamada turma da firma. “Sabe aquele pessoal que trabalha na mesma empresa e vai tagarelar e emitir perdigotos no happy hour? São os piores. Festival de sorrisos falsos, flatulência dissimulada, um querendo sacanear o outro, uns desejando comer outros e outras. Turma da firma no boteco é uma definição do que pode ser o inferno”, disse o Garçom D.
Então, após ouvir durante mais de uma semana os garçons do Café & Restaurante Trem Pagador falarem mal de boteco, lembrei do Binaca. O mau hálito dele era um dos piores do mundo, talvez o mais fedido.
Bebeu diariamente por décadas, alguns de seus dentes estavam podres e ele devia sofrer de outro mal além da diabetes mal tratada, que o fazia o chorar.
O Binaca dizia ser um amante de bar com alma. “Com cadeira, cerveja de garrafa e copo americano”. Dessa e de outras maneiras, todas confusas e incompletas, tentava definir o que poderia ser a alma de um bar.
Se o Binaca encontrasse aqueles garçons? Haveria briga. Só não encontrou, nem vai encontrar, porque morreu, justamente, em um boteco, onde, de acordo com testemunhas, repetia exaustivamente o seu mantra: “Du caralho, du caralho!” Incapaz de elaborar comentários, por limitação de repertório ou preguiça, definia tudo o que admirava com essas duas palavras: “du caralho”. E, já deitado e tremendo, com algo parecido com espuma saindo de sua boca, o Binaca teria dito pouco antes de morrer uma frase que as testemunhas e o dono do bar não compreenderam, mas anotaram: “Não fui nada, nunca fui nada e eu queria tanto ser o Dinho”.



Conto inédito, de minha autoria, publicado na edição 210, abril de 2019, da revista Ideias. Ilustração de Vitor Mann.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Breve comentário sobre arte & harmonização


Harmonizar, por exemplo, vinho com comida não é exatamente algo fácil de colocar em prática. Cabernet Sauvignon funciona com carnes vermelhas e Sangiovese é indicado para pizzas e molho de tomate. Já o Pinot Noir acompanha peixes e vegetais.
Na ficção também há combinações que funcionam e, para essa química acontecer, é fundamental que o escritor tenha repertório, algo que o Marcio Renato dos Santos possui.
Os contos de A cor do presente sinalizam que o prosador curitibano dialoga com o legado de outros contistas, como Machado de Assis, Julio Ramón Ribeyro, Theckhov, Lucia Berlin, Lima Barreto, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Maupassant e Fábio Campana.
Mas a criação artística de Marcio Renato dos Santos também estabelece pontos de contato, por exemplo, com outras linguagens, entre as quais as produções de Federico Fellini, Bergman, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Gal Costa, Godard, Jimi Hendrix, Coltrane, Renato Russo, entre tantos, tantas manifestações culturais.
A cor do presente, ou seria Acordo presente?, trata de questões da existência, como melancolia e solidão, e harmoniza linguagem e enredo com rara harmonia, da mesma forma que alguns, poucos, conseguem harmonizar Cabernet Sauvignon, Sangiovese, Pinot Noir, Malbec, Merlot e outras maravilhas com carne, vegetais, doces e a vida.
A cor do presente está aí. Estão servidos?



Resenha de Vicente Ferreira sobre A cor do presente, o meu oitavo livro de contos, publicada na revista Ideias 210, abril de 2019 – há ainda outro texto a respeito do lançamento da obra, confira.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Narrativas em chave de tensão


Das teorias conhecidas sobre o conto (Borges, Cortázar, Piglia, Todorov, etc e etc), nenhuma consegue se comparar em pragmatismo e precisão quanto a análise construída pelo querido e saudoso escritor sergipano Antonio Carlos Viana. Em entrevista ao jornal Cândido, em abril de 2015, um dos nossos melhores contistas decodifica, a seu modo, a engenharia do gênero, em resposta à escolha pelo rigor e pelo padrão sintético em sua literatura:
Para mim, a teoria do conto é muito simples: ele precisa ter unidade de tempo, espaço e ação. Porque se você começar a dispersar muito a ação, o conto perde o que para mim é muito importante, que é a ação. A tensão tem que ser mantida a todo custo. Sempre digo que o contista não deve fazer o leitor respirar muito. Respira no começo e só solta o ar no final. Que ele seja levado pela força da linguagem. Por isso acho que o conto precisa ter, no máximo, seis páginas. Tudo que não for essencial, deve ser eliminado. A palavra certa é cortar. Quero que o leitor seja arrastado por um conflito, e tudo que não fizer parte desse conflito, é cortado.
É preciso atentar-se que, aqui, Viana não se refere ao ritmo, e sim ao andamento narrativo. Um ritmo frenético não necessariamente produz um nível ideal de ação. A ação se estabelece na maneira como a narrativa toma seus caminhos, sempre guiada pelo conflito em chave de tensão. Por isso, os mineiros Rubem Fonseca e Murilo Rubião são autores tão distintos no modo como desenvolvem seus estilos de escrita, porém únicos em “segurar o fôlego do leitor” na articulação de suas histórias.
Com uma carreira dedicada ao conto, Marcio Renato dos Santos se mostra um atento seguidor da cartilha de Viana. A cor do presente, sua oitava e recente antologia, formula-se a partir da concentração dos componentes narrativos num circuito seguro de frases, que retém a tensão em seus limites estruturais.
O enredo ajusta seu elo magnético aos avanços de um elemento condutor, ou de um personagem, ou de uma circunstância em ocorrência, cultivando o fluxo em crescente envolvimento, ainda que (em alguns casos) a trama rume para planos oníricos ou beba do nonsense.
Não é uma tarefa fácil, sem parecer mera digressão ou perda de controle. Mas o autor se sai bem. Vide “Comfortably numb”, texto que abre o livro.
Diversificações entre personagens e temas
O protagonista é Luciano, um músico levado a um hospital, depois de ser atingido por um pedaço de marquise. À medida que o fato se distende, o conto vai se preenchendo de personagens que atraem o foco narrativo momentaneamente para si, a moda de um trânsito orbital de mininarrativas.
Com isso, a premissa se expande, abrange referências musicais e cacos de memória, contudo a ação nunca esfria porque seu ponto de tensão está no protagonista, ao exemplo de uma linha principal que se ramifica em trechos que levam a essa mesma linha principal.
Marcio Renato inclui, em seu compasso discursivo, o aspecto da duração, por meio de orações bem marcadas, variações ligeiras e um sentido aleatório de urgência. O conto seguinte, “Seria”, é um primor no que se refere a esse tratamento técnico. Um convite frugal para um happy hour com um casal de conhecidos degringola num encadeamento de cenas no qual a realidade deixa de fazer sentido, até se configurar uma situação bizarra e intangível.
É interessante notar como o autor usa o nome do protagonista de forma reiterada, de modo a demarcar o espaço-tempo.
“No corpo do sonho”, a melhor narrativa, flerta com as histórias de detetive, ao tratar do desaparecimento de belas mulheres de 40 anos, criando um mote investigativo que se desmonta ao assalto do gênero fantástico, fazendo referência direta a Murilo Rubião. “A cor do presente”, por sua vez, sequer sugere a realidade, construindo-se numa forma de representação do estranhamento social, que combina influências de Margaret Atwood e de Lewis Caroll.
“Eterna” e “Sweet Jane” seguem nessa mesma linha de transgressão da normalidade, interagindo seus enredos com nuances que se filiam a uma chave insólita de decifrar a vida. Também fica claro o interesse em compor uma galeria de diversos personagens, colocando-os em contato com circunstâncias que geram conflitos.
Novos ingredientes em ponto de tensão
É o caso da dupla “Subúrbios” e “Inconveniente”. Enquanto o primeiro conto se desenvolve no introverso de uma mulher às voltas com o passado, o segundo trata de um indivíduo assediado por um importuno falsificador. Marcio Renato mantém o eixo de tensão na amarra precisa das frases, no entanto cede espaço para ingredientes novos se mesclarem a esse compósito de recortes do real e de versões surreais da realidade, a exemplo do sexo, da ironia e do humor.
O livro, inclusive, encerra-se com o dilema de um jogador de futebol pressionado a tomar uma decisão, cuja negativa pode resultar num castigo bizarro.
Por conta da sólida construção estrutural e da dinâmica aplicada à linguagem, A cor do presente se confirma um dos trabalhos mais concisos do autor curitibano. Uma série de episódios centrados nas relações humanas, entre personagens distintos, em situações distintas, mas que nunca afrouxa sua linha narrativa, nunca, como ensina o mestre Antonio Carlos Viana, deixa a ação se dispersar.
O mais importante é a ação. Está aí o nocaute do conto.

Texto de Sérgio Tavares publicado em A Nova Crítica.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Café Tiramisù tem A cor do presente

A cor do presente está disponível para compra no Café Tiramisù (Rua XV de Novembro, 1.330, no centro de Curitiba). Publicado pela Tulipas Negras em 2019, A cor do presente, o meu oitavo livro de contos, custa R$ 30.

Hino de Duran


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Aguinaldo Severino resenha A cor do presente


Marcio Renato dos Santos se reinventa uma vez mais com esse seu "A cor do presente", um pequeno livro de contos. Se no livro anterior, "A certeza das coisas impossíveis", ele inventava onze contos a partir de fragmentos, curtas histórias recortadas das quais jamais saberíamos a gênese ou o desfecho, neste ele parece querer fixar em prosa alucinações, delírios, mecanismos mentais, paranoias ou ainda o fluxo de consciência de indivíduos mais que estranhos, doentes, bizarros. Absurdices talvez seja o neologismo que definiria bem o núcleo das onze narrativas. As histórias tratam do acaso de um acidente; do pesadelo ou do transe induzido pelo álcool; de um personagem que busca um enredo; do sujeito que se intoxica com coelhos e cores; do casal que fofoca sobre a vida de um palestrante; de uma courier que se imagina em perigo; de uma mulher que imagina seu futuro enquanto come seu jantar; de um homem que experimenta assédio e parece perder a razão; das facetas de uma vingança patética, injusta; de um diabo travestido de taxista; do provável desfecho de um jogo de futebol de várzea. Se o leitor é açodado consegue ler o livro em menos de uma hora, mas talvez essa não seja a forma mais adequada, talvez esse seja o tipo de livro que devemos deixar à mão, para ser lido quando, à exemplo de seus personagens, estivermos inebriados, no umbral do sonho, do desejo ou do pesadelo. Os demais livros de Marcio que já registrei aqui são, pela ordem, "Minda-au", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje" e "Outras dezessete noites". Bom divertimento. Vale! 
Registro #1374 (contos #160) 
[início-fim: 19/03/2019]
"A cor do presente", Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Tulipas Negras, 1a. edição (2019), brochura 11,5x18,5 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-917171-8-7


Conteúdo publicado no blog Livros que eu li, dia 10 de abril de 2019.

Volta ao Centro Histórico em 80 dias

"Volta ao Centro Histórico em 80 dias" é o título da exposição que reúne obras de Simon Taylor, Fabiano Vianna e Raro de Oliveira.

A abertura acontece nesta sexta-feira, 12 de abril, a partir das 19 horas, no Solar do Barão (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 533, no centro de Curitiba), com entrada gratuita.


A imagem deste post é um trabalho do Simon e faz parte da mostra.

Já leu A cor do presente hoje?


Goodbye to romance


terça-feira, 9 de abril de 2019

O Museu Guido Viaro tem A cor do presente

O Museu Guido Viaro disponibiliza para compra A cor do presente, o meu oitavo livro de contos. O Museu Guido Viaro fica na Rua XV de Novembro, 1.348, no centro de Curitiba. A cor do presente (Tulipas Negras, 2019) custa R$ 30.

Paratodos


domingo, 7 de abril de 2019

Noite sem fim


A escuridão, que evidentemente tem o seu contraponto na existência da luminosidade, a escuridão assim compreendida e, detalhe, arquitetada é o que conduz a produção literária e poética de Fábio Campana ao longo de décadas. Seja em narrativa longa, Ai (2007), nos contos de Todo o sangue (2004) ou em poemas, por exemplo, no recém-publicado As coisas simples (2019), Campana enfrenta o escuro (insisto, apesar da luz) e, em tal situação, apresenta imagens, cenas e narrativas sobre questões humanas.
É possível supor, e isso é mera suposição, que Fábio Campana em seu percurso criativo tenha como leitmotiv o poema “Lagoa”, publicado em Alguma poesia (1930), o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade. No texto, a voz poética afirma que, apesar do mar, que pode ser bonito e até bravo, não importa, “eu vi a lagoa”. Há, inclusive, insistência: “Eu não vi o mar./ Eu vi a lagoa...”.
Em diálogo com a essa oposição drummondiana lagoa-mar, Fábio Campana deliberadamente minimiza em sua produção poética e literária o que há de solar, suave e fácil na existência. Narrativas e poemas do autor, em sintonia com a tradição e vozes contemporâneas, têm como matéria-prima o conflito, o que abre espaço, por exemplo, para o mote de Manuel Bandeira da vida que poderia ter sido e não foi. Em As coisas simples, Campana revisita a questão a partir de um recorrente personagem infantil que perde tudo, da inocência às ilusões, como está sinalizado no poema que empresta o nome ao livro: “O menino, aquele, que ensaiou papéis de herói,/ já não existe. Morreu com as utopias e os pequenos deuses/ inventados no ano da iconoclastia”.
O personagem infantil, presente em obras anteriores do autor, também aparece em outros textos de As coisas simples, em alguns casos com mais idade, como no segundo poema, “Écogla”: “Um dia eu era jovem e tinha a vocação dos rios,/ desejo intenso de chegar ao mar”. A partir desse menino/jovem, Fábio Campana compõe um painel sombrio (ressalto, apesar da existência da luz), em que a vocalização é feita por sujeitos que, como a maioria dos humanos, perderam muito, sempre algo irreversível: é o dia (com sua luminosidade) que desmorona (“Dia que não termina”) ou os amigos (possível luz da jornada) que partiram (“Ausências”).
A perspectiva do fim da existência (noite sem fim, talvez ausência total de luz) é outro mote que dá o tom de não poucos poemas de As coisas simples, como “Fim de comédia”, “Tempo” e “Preparativos”: “Espero morrer com dignidade,/ despido de ruídos,/ sem a sombra dos teus gritos.// Altivo, horizontal, ereto./ Solene, banhado e maquiado/ Sob as pálpebras do tempo.// No bolso esquerdo, o corpo de um poema”.
O breu construído por meio de linguagem por Campana também tem alguns hiatos, estações de luz, viabilizados pela evocação do amor e das paixões, com seus encontros e desencontros em variadas nuances. Um dos pontos altos do livro é, justamente, um melancólico poema sobre o desejo, que traz no título referência às artes visuais, outra obsessão do autor, “Gravura de Segall”: “Talvez um dia eu desperte/ com o som dos pássaros/ sobre meus olhos,/ sobre minha garganta,/ e volte a encontrar a mulher/ de coxas firmes, abertas,/ que me olhou em um café/ com a placidez imperturbável,/ e a elegância distante/ das prostitutas negras/ nas gravuras de Segall”.
O primeiro verso do poema “Pequeno deus” traz uma provável chave, não necessariamente para decifrar, mas, para ler a obra de Campana: “A noite é minha pátria”. E nessa noite-pátria, elaborada há décadas com versos, parágrafos, contos e romances, Fábio Campana – paradoxalmente – joga luzes no nonsense do cotidiano, na falta de sol de temporadas existenciais consideradas perdidas e ainda ilumina com poemas, por que não?, esses dias e noites definidos por não poucos como sombrios, soturnos e quase inabitáveis.


Resenha que escrevi a respeito e As coisas simples (2019), livro de poemas do Fábio Campana.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Say say say


A cor do presente


Espólio

Que guardaremos disso tudo? A gema
Inconcebível entre o horror e o encanto,
Ou o ancestral silêncio, ou o ágil canto
           Que o tem por tema?

A úmida muralha morna e turva
Com que a dor nos estreita, o fim cinzento
Do dia, a rosa, o raio, ou, numa curva
            De um sonho, o vento?


Poema de Alexei Bueno publicado no livro Em sonho (1999).

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Blackbird


Selfie

vamos tirar
uma selfie

vamos armar
um sorriso
digital

um filtro
vintage
para nos fazer
viajar
no tempo
das fotografias
que jamais
existirão

Poema de Ana Elisa Ribeiro publicado em Álbum (2018).