segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Capa





Capa de meu mais recente livro, Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul, que será lançado na próxima quinta-feira, 15 de dezembro, a partir das 10 horas, na passagem subterrânea do Terminal Hauer, em Curitiba. Arte de Marciel Conrado.

No underground



O meu segundo livro será lançado nesta quinta-feira, 15 de dezembro de 2011, às 10 horas. Na passagem subterrânea do Terminal Hauer, em Curitiba. O livro se chama Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul. É um único conto. O impresso, dobrável, traz – além da prosa de ficção – desenho assinado a duas mãos por Marciel Conrado e Jonas Lopes.

O livro faz parte do projeto Melodia Urbana, que surgiu da proposta de pintar a passagem subterrânea do Terminal Hauer, iniciativa contemplada com um edital da Fundação Cultural de Curitiba. Marciel Conrado e Jonas Lopes pintaram o espaço durante três meses, sobretudo nas madrugadas.

Na manhã da quinta-feira será distribuído o livro com tiragem de 1,3 mil exemplares. Às 15 horas, acontecerá a segunda parte da inauguração, com uma apresentação de chorinho. Jonas Lopes de Souza, Diego Coelho, Luiz Ivanqui, Ricardo Salmazo e Lucas Miranda vão mandar ver nos choros, incluindo dois dos meus preferidos, “Bole Bole” e “Nostalgia”, de Jacob do Bandolim. Jonas, um dos artistas que pintou as paredes do terminal, também é músico – e as imagens e temas da interferência visual dialogam com o universo musical. No clique deste post aparece o Jonas e um desenho dele. A foto é do Marciel.

Jonas e Marciel, obrigado pela possibilidade de viajar com vocês.
         

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Conto inédito

Digital reverb delay

Eu não deveria ter permanecido em silêncio. Fui quase um mudo, apesar de a vida não ter me negado a capacidade de ouvir e de reproduzir sons. Sou, aparentemente, um sujeito normal. Cumprimento conhecidos e até desconhecidos com oi, alô, olá, bom dia, como vai? Mas nunca fui muito de falar e acredito que esse hábito, quase um voto de silêncio, acabou por escrever o meu destino.
As pessoas costumam pedir pra eu falar mais alto, com mais volume. Não sei ao certo, mas esse jeito talvez seja uma estratégia. Pra eu não ser ouvido. Pra eu passar quase sem ser notado. E pra evitar confronto. Acabei envolvido em problemas por aceitar palavras e muito mais sem questionamento. Sim. Recebo e cumpro ordens. Deve ser uma programação mental ou herança cármica. Mas não sou vítima, nada disso. Como já falei, pode ser, no fundo, uma estratégia. Afinal, já recebi crédito pelo que não merecia e também não reclamei.
Mas, fazendo as contas, devo dizer, sem que isso soe como queixa, que fui acusado de ações transgressoras que não fiz. E, penso agora, se eu tivesse tentado me defender, talvez evitasse algumas situações que aconteceram em minha trajetória. Passei sete anos dentro de uma prisão. O motivo? Não vem ao caso, mas foi por um crime que não cometi. Confessei o que não havia feito e, a partir da confissão, segui para o confinamento. Apanhei pouco, só no início. E, se dependesse de mim, até hoje estaria lá. Mas fui expulso. Cumpri a pena e esqueci que estava livre. Confesso, mas que isso não se torne público, que peguei gosto. Sim. Passei a ter tempo livre. E muita oportunidade pra permanecer quieto. Também adquiri hábitos, que outros poderiam chamar de vícios. Passei a fumar, o que pode vir a ser um problema a médio e longo prazo. Mas perdi peso e aprendi a controlar a respiração.

XX

Um dia, recebi dinheiros inesperados e assim surgiu uma temporada de descanso, dez dias, dez noites, e pela primeira vez na vida fiquei de frente para o mar, instalado em um apartamento de cobertura. Comia quando tinha fome, bebia quase o tempo todo e olhava o mar. Sol e brisa. E, pelo que lembro, não falei com ninguém durante aquele intervalo. Só balbuciava algo ao pedir um prato em um restaurante ou um drinque na beira do mar. Fora isso, apenas silêncio. E, sem exagero, analiso que aquele talvez tenha sido um dos períodos mais felizes que conheci.

XXX

Estão gritando em algum apartamento próximo daqui. Pode ser uma festa. Os gritos continuam, não escuto com clareza, a janela está fechada, não vou abrir. É noite de jogo de futebol? Os gritos seguem. Seriam jovens a compartilhar novidades? Ou adolescentes tentando aproximação? Talvez, meninos e meninas a brincar de algum jogo ou apenas a correr no pátio do prédio onde vivo faz tanto tempo que nem lembro quanto, e me dou conta de que estou me esquecendo de quase tudo.

XXXX

Tenho uma inflamação na garganta que dói em noites como essa, de chuva e temperatura de menos de dez graus. Durante uma das primeiras crises, fui até uma farmácia e sem consultar médico comprei analgésico e outro remédio recomendado por uma balconista. A dor passou após os primeiros comprimidos. A inflamação diminuiu na manhã seguinte. Mas nunca me curei completamente e basta chover e a temperatura exigir casacos durante o dia e cobertores durante a noite para que o problema retorne. Já me disseram que não é nada, apenas algo somático. Quem fala isso diz que a garganta é o canal por onde se faz o som da fala humana e, como sou quase não falante, essa inflamação seria uma maneira que eu teria inventado para evitar que o meu som se materializasse.
Falar, como já disse, eu nunca quis muito. Mas pensei em ser cantor, e cantar eu jamais consegui. Nem fechado dentro do banheiro. Nem em uma praia deserta. Nem nos sonhos. Talvez pelo mesmo motivo que tenha me impedido de querer falar. Medo? Vergonha? Timidez? No fundo, um pouco de medo, de vergonha e de timidez. Mas, tenho de admitir, o que sempre me deixou calado foi a sensação de que eu nunca tive nem tenho nada a dizer, nem como dizer e, por isso, não precisava falar. Afinal, a gente abre a boca pra dizer as coisas, não é isso? Como nunca tive nada a dizer, minha opção sempre foi pelo silêncio. Mas como explicar que desde pequeno eu poderia pensar nesse assunto, nesses detalhes? Não sei, estou confuso, confesso e apesar da confusão me dou conta de que ao escutar os outros eu desconfiava que todos tinham o direito de falar e eu deveria apenas ouvir. E assim a minha vida foi acontecendo, a ouvir, a escutar, a calar.

XXXXX

O tempo passou, nem percebi e então eu precisava de um emprego, qualquer um. Procurei. Bati em uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete portas e nada. Um dia fui nomeado para uma função e aceitei, sem dizer sim, apenas com um sorriso, que foi bem recebido e interpretado como aceito, sim, muito obrigado.
Passei a permanecer por pelo menos dez horas todo dia dentro de um barracão. Lá, tinha de controlar o que entrava e o que saía. Eu era o inspetor. E por mais de dois anos exerci a função com alguma margem de acerto. Até que um dia, recebi a notícia de que havia desfalque no estoque. Eu tinha duas alternativas. Primeiro, contar quem era o responsável pelo esquema. A segunda opção seria confessar o crime. Como permaneci calado, surpreso com a acusação, e não reagi, o chefe entendeu que eu era responsável ou cúmplice e, devido a essa conclusão, fui mandado embora, sem direito a nenhum dinheiro e ainda com a condenação de trabalhar em um outro barracão por alguns meses sem receber salário.

XXXXXX

Dias, meses, anos, décadas depois do incidente do barracão, muito se passou, mas não vou contar nada, apenas que adquiri, ou melhor, construí um discurso. Finalmente eu tinha o que dizer. Também sabia como dizer. Mas, então, chegava, sem que eu me desse conta, a lei do silêncio. Após tanto tempo lamentando não ter o que nem como dizer, quando conquistei a possibilidade de me expressar, não era mais permitido dizer nada. Tentei me comunicar, mas percebi que não seria confortável, pra mim, nem pra ninguém, abrir a boca. E por isso continuei em silêncio. Permaneci por dias, meses, anos e décadas calado. Ou a dizer apenas oi, olá, como vai?, tudo bem? Eu sorria de boca fechada.

XXXXXXX

Há pouco eu reclamava de uns gritos e dizia que poderiam ser adolescentes a brincar ou envolvidos em rituais de aproximação, mas como tive de ir até o banheiro, olhei pela janela da sala, que estava com a lâmpada apagada, e vi uma briga. Duas torcidas de times de futebol adversários trocavam socos, alguns batiam e outros apanhavam. Olhei e não fiz nada, permaneci calado, como daquela vez em que pela mesma janela presenciei um assalto e segui mudo ao invés de gritar.
Já faz tempo, tentei torcer por um time de futebol e comecei a frequentar estádios todos os domingos. Conheci algumas pessoas que frequentavam as arquibancadas. Eles torciam, gritavam, xingavam, e eu queria fazer o mesmo. Mas nem com esforço, nem tentando imitar consegui repetir aquele comportamento. Queria gritar, mas não saía som da minha garganta. Queria gesticular, mas nenhum gesto se esboçava a partir de meus braços. Eu continuava imóvel e em silêncio, como costuma ser o meu estar no mundo desde que me lembro das coisas.

XXXXXXXX

Os anos passaram e, confesso, tenho saudade dos dias ruins, das noites de insônia. A lei do silêncio acabou, mas agora não vontade de dizer algo. Hoje sou um velho, nem sei quanto tempo me resta e parece que tudo vai acabar daqui a pouco.

XXXXXXXXX

Se caminho pela rua principal é por não ter opção. Quero passear, mas cada passo me custa e nem tenho certeza de que estou vendo o que está ao meu redor. Essa cidade, aqui mesmo, onde nasci e sempre morei, mais parece um país para o qual me foi negado o passaporte. Já não conheço ninguém. Como pode? O comerciante de roupas, a dona da loja de perfumes, o chefe da polícia, a mulher mais linda da cidade. Eu sabia quem eram, onde moravam e o que faziam.
Esse som, está ouvindo?, esse som de oboé, escutou?
Parece a trilha sonora do meu fim.

XXXXXXXXXX

Onde vocês foram? Por que não me escutam? Vocês. Todos. Sim. Cadê todo mundo? Oi. Tudo bom? O quê? Não me conhece? Como não? E você? Ah, também não. Sim, posso dar licença. Você, ei, menino, não tem nada na minha carteira. Pode levar. E você, garota. Calma, calma. Tudo bem, desculpe. Eu me confundi. Me desculpe. Sim, isso não vai acontecer novamente
Onde estarão todos? Agora eu tenho o que dizer. Sei como contar.
Tem alguém aí?

XXXXXXXXXXX

Tenho gravado a minha voz. Sim, em casa, aqui, no quarto que dá vista pra rua, eu fecho as cortinas e a porta. Às vezes adormeço de tanto falar. Depois ligo a gravação pra escutar a minha voz. Conto pra mim coisas que não posso deixar de lembrar, soar, voar, por exemplo, como cheguei onde estou, qual foi a sorte de não ter despencado no precipício. Ninguém vai escutar, saber, crer, mas preciso contar, e tenho quase certeza de que só existi, existo porque falo, digo e escrevo este texto.


Ficção publicada na edição de dezembro de 2011 do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.

Ai ai de mim

Quem me vê assim, torto, a mancar, careta pra cá, cenho franzido pra lá, talvez duvide que experimentei saúde, se não plena, parcial, quase pra dar e vender. Agora, ai de mim, tudo é uma África. Mais fácil transformar petit-pavé em ouro do que, por exemplo, enfrentar míseros degraus. E olhe que há não muito tempo eu voava de três em três, a correr escada abaixo ou acima.

O tique-taque do meu cotidiano seguia, e o meu rosto levava por travessas, pontes e esquinas um sorriso quase permanente, apesar de águas azedas ingeridas sem querer e caneladas que recebia em tardes de neblina. Até que cismei, e a palavra, o verbo é esse, cismei que precisava de um novo par de sapatos, apesar de dúzias de pares recém-adquiridos que despencavam de uma gaveta dos guarda-roupas.

Era uma quinta-feira, 19h43, quando entrei em um shopping. Meus passos poderiam sugerir que ali estava um homem decidido, o que era no máximo meia-verdade. Eu queria comprar um novo par de sapatos e, como já se tornou hábito, fui direto até a loja na qual sou cliente. Saí sem sacola nas mãos e sem gostar de nenhum modelo. Passei em frente a vitrines de outras duas, três, quatro empresas que comercializam calçados, e nada. Estava em falta ou ainda por ser fabricado o sapato que se encaixaria em meus pés ou que me seduziria no primeiro olhar. Mas insisti e entrei em uma loja que ainda não conhecia até aquele momento.

Não gostei de nenhuma opção, mas estava começando a me cansar e, para dissolver um impulso que eu não sabia a origem, escolhi um par de sapatos preto, de bico quase quadrado, número quarenta e dois. A vendedora foi buscar o produto no depósito e, durante aqueles cinco, seis, sete minutos, me despedi dos sapatos que estavam em meus pés. Tenho a mania: ao comprar sapatos novos, deixo na loja os que me levaram até ali.

Segui até um restaurante no qual haveria comemoração por algum projeto bem-sucedido, não lembro ao certo o motivo daquele celebrar, e durante a festa, um copo de vinho, outro chope, esqueci que demorei uns seis, sete minutos para conseguir colocar os novos sapatos em meus pés.

O dia seguinte, a sexta-feira, foi uma mancação só. Isso. Segui a mancar com os pés comprimidos dentro daqueles sapatos novos. Nas primeiras horas, queria acreditar que é assim mesmo, o produto novo tende a provocar desconforto. Me perguntavam se eu havia machucado os pés, e eu a disfarçar, a negar, a tergiversar.

À noite, já em casa, senti alívio, de gemer. Ao descalçar meus pés, nem reparei em eventuais lesões, também não pensei em nada por estar exausto, e adormeci sem me cobrir e sem fechar as janelas.

Acordei molhado na madrugada, a sentir febre e todo dolorido. Dor nas costas, dor no couro cabeludo, dor no ombro, dor de dentes, dor no pescoço, dor nas pernas, dor para, vou parar por aqui.

Desde aquele sábado até agora, tudo se transformou. Dói para dormir, dói para acordar, dói, inclusive, para digitar esse texto. E tudo por que me submeti a uma espécie de acupuntura alternativa desgovernada e sem agulhas, doze horas de pressão contínua nos pés, o que deve ter acionado, ou sabotado?, pontos vitais, e o meu organismo se desregulou.

Se já procurei ajuda? Do científico ao sobrenatural, tentei quase tudo. Me tornei, inclusive, conhecido entre os taxistas. Ao solicitar um carro, por telefone, digo o meu endereço, e todos sabem onde é. “No prédio do tortinho, que manca e reclama que tudo dói?”, perguntam. Digo que sim, fazer o quê? Me transformei nisso, “o tortinho, que manca e reclama que tudo dói”, veja só, devido ao mau passo que dei ao adquirir aquele produto enfeitiçado, apertado ou simplesmente por que – ai ai de mim – tinha de ser. 

Crônica publicada na página 40 da edição de dezembro de 2011 da revista Ideias, publicação mensal da Travessa dos Editores. 

Digital reverb delay

O jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, publica em sua quinta edição, de dezembro de 2011, Digital reverb delay, um conto meu, até então inédito, que escrevi há um ou dois anos.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Grelina

Primeiro foi um botão, da minha calça, que pulou. Depois, as camisas do guarda-roupa se revelaram insuficientes para cobrir o meu tórax. Em seguida, nem mesmo as meias entravam nos meus pés.

Essas novidades começaram a se materializar em um mês de novembro na metade da primeira década do século 21. Ou faz mais tempo? Não lembro. Recordo que após uma madrugada de sonhos intranquilos, acordei transformado em algo que não encontro definição, mas que algumas vozes dizem que sou eu.

– Que corpo é aquele que vejo no espelho?

Não sabia e ainda não sei responder à pergunta, mas aquele corpo que passei a enxergar no espelho, o mesmo que vizinhos, colegas e parentes diziam que era meu já ocupou menos espaço no mundo.

Há trinta ou vinte quilos menor, eu ainda trabalhava em um escritório na região central e costumava almoçar trezentas e poucas gramas em um Quilo. Num dia de pagamento decidi mudar o cardápio e fui até um shopping. Enquanto mordia, mastigava e engolia uma massa fresca comecei a sentir que, mais que os horizontes, o meu abdômen parecia se alargar.

Essa conquista de território, de mais espaço no mundo, coincidiu, exatamente, com o momento em que iniciei uma temporada de malhação. Me dei conta de que meu braço era fino e resolvi agir. Fiz matrícula na academia do bairro. E foram meses, pouco mais de um ano, de atividades.

Do supino para o pulley. Da remada curvada para o leg press. Do adutor na máquina para a mesa extensora. Da rosca direta para o tríceps. Uma, duas, três semanas, incluindo trinta minutos diários na esteira, e ao encarar o espelho passei a encontrar um modelo do pintor colombiano Fernando Botero.

Tornei-me, então, um ébrio? Não. A insônia é que se fez realidade para mim. E numa dessas aventuras pela madrugada, em um site ou blog, encontrei um texto perturbador. Pesquisa realizada na Universidade Livre de Berlim prova que treino em academia engorda. Dei um google. Outro. E outra investigação, da Universidade da Califórnia, a comprovar a tese dos alemães.

Durante aquela fase de levantamento, e descida, de pesos, um outro fato me fazia franzir o cenho. Às sete horas eu abria a geladeira e o queijo meia cura estava pela metade, meio quilo de presunto de parma e um pernil comprados na noite anterior haviam desaparecido. Armários, despensas e esconderijos de alimentos também registravam baixas nas madrugadas. Curioso. Eu seguia insone, observava o ir-e-vir no apartamento e tinha quase certeza de que ninguém saqueava a geladeira e os outros estoques de embutidos e enlatados. Mas, lembro, eu cochilava por pelo menos trinta minutos.

– Sonâmbulo, tive surtos de glutonia pantagruélica?

Li, então, o estudo da Universidade de Tóquio, e o nó foi desatado: a malhação pode ser engordativa porque deixa a pessoa com fome quando o treino termina. Resultado: o sujeito que malha, e eu era um exemplo vivo, exagera na comida sem perceber.

Ao tomar conhecimento da conclusão do estudo japonês eu já havia abandonado a academia, mas segui, persistente e determinado, com os mesmos hábitos. Continuei a almoçar, sempre que possível, em um costelão, café da tarde na Familiar, happy hour com direito a quatro ou cinco bolinhos de carne no Torto e, para manter a tradição, jantar em Santa Felicidade.

Assim sigo, ou até mesmo, rolo por aí. Fazer o quê? Entre outros fatores, o que me transformou no que tornei tem nome: grelina. Cientistas da Universidade de Viena descobriram que é um hormônio chamado grelina que desperta no cérebro a sensação de fome. Li sobre o assunto em uma revista semanal na fila do supermercado, após caminhar quinhentos metros e, antes de pagar a compra, peguei um pacote de Ruffles, quatrocentas gramas, está servido?

Crônica publicada na página 46 da edição 121, de novembro de 2011, da Revista Ideias, da Travessa dos Editores.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Confissão

Efeitos colaterais da leitura, necessidade de leitura, vocação para a leitura, prazer da leitura, luta para encontrar tempo para a leitura. Na Flim, Paulo Venturelli, Eliege Pepler e eu confessamos que somos, acima de tudo, e antes de qualquer coisa, leitores; leitores, apenas e simplesmente leitores.

Todo diálogo na Flim

O diálogo na Flim levou em conta a presença e a participação de todas as vozes, inclusive, e sobretudo, de quem estava na plateia, como faz ver essa imagem, captada na manhã do dia 25 de outubro, ocasião na qual Paulo Venturelli e eu passamos por lá.

Quarteto

Cezar Tridapalli, eu, Paulo Venturelli e Eliege Pepler na Flim, dia 25 de outubro, por volta das 9h52.

Leitores interessados na Flim

O público atento na Flim na manhã de 25 de outubro, ocasião na qual Paulo Venturelli e eu dialogamos a respeito de leitura, livro e vida.

Paulo Venturelli é

No palco da Flim 2011, Paulo Venturelli a apontar caminhos para o ser e o estar no mundo a partir e por meio da leitura. Eu, Eliege Pepler e quem participou do encontro, na manhã de 25 de outubro, todos fomos e somos testemunhas de um depoimento único daquele que, acima de tudo, é: Paulo Venturelli.

Cezar Tridapalli é muitos

O escritor Cezar Tridapalli se divide em tantos, ajuda na organização da Flim, escreve ficção e também está, registrado nessa imagem, na plateia da Flim, na manhã de 25 de outubro, quando Paulo Venturelli e eu participamos do evento literário do Colégio Medianeira, em Curitiba.

Olhe só quanta gente estava lá na Flim

Houve fila para pegar autógrafo com Paulo Venturelli, que dialogou comigo e com o público na manhã de 25 de outubro na Flim.

Venturelli autografa na Flim

Paulo Venturelli autografa uma de suas obras na manhã de 25 de outubro, quando participamos de um bate-papo na Flim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Vilma Costa analisa Minda-Au

"Minda-au, de Marcio Renato dos Santos, reúne sete contos que falam de homens comuns e de uma Curitiba que com eles contracena. Apesar de a obra ser de estréia na ficção, o percurso da experiência na escrita vem de algum tempo em jornais, revistas e sites. Sub, o primeiro conto, inicia-se: 'Chove em Curitiba e isso é problema para Edward'. Ao mesmo tempo em que a cidade abre o texto, o protagonista é apresentado. Aliás, através da ação, a cidade passa a ser descrita antes de qualquer um: '(…) dezenas de sujeitos surgem a oferecer guarda-chuvas pelo preço de uma refeição popular. Carros saem das garagens e circulam nas, ou sobre as, ruas. Aumenta o faturamento dos taxistas.'"

O trecho transcrito acima é de autoria de Vilma Costa, professora especializada em literatura que vive no Rio de Janeiro - a resenha foi publicada na edição de abril deste ano no jornal Rascunho, e a continuação do texto está aqui: http://tinyurl.com/3zxeqke

Com Cezar Tridapalli na Flim

Cezar Tridapalli e eu na manhã de 25 de outubro na Flim.

Outra cena da Flim

Paulo Venturelli e Eliege Pepler escutam o depoimento sobre a minha experiência de leitor durante a Flim 2011.

Público da Flim

Alunos e professores do Colégio Medianeira fotografados durante o bate-papo "A literatura e o outro", no qual Paulo Venturelli e eu participamos durante a primeira edição da Flim.

No palco da Flim

O escritor Cezar Tridapalli, autor do romance Pequena Biografia de Desejos, no momento em que apresentava os convidados para o bate-papo sobre "A literatura e o outro", na Flim 2011: eu, Paulo Venturelli e Eliege Pepler.

Diálogos na Flim

Clique do bate-papo no qual dialoguei com Paulo Venturelli, com medição de Eliege Pepler, na manhã de 25 de outubro, no Colégio Medianeira, durante a Flim 2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Minda-Au e Paulo Venturelli na Flim 2011

Dia 25 de outubro de 2011, a partir das 10 horas, acontece o bate-papo sobre literatura e o outro na Flim 2011, a Festa Literária do Medianeira, em Curitiba. O escritor Paulo Venturelli e eu vamos conversar a respeito desse e de outros assuntos. A mediação é da Eliege Pepler. Mais informações: http://tinyurl.com/5u5t5u7

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Minda-Au faz 1 ano

Há 1 ano, em outubro de 2010, a editora Record publicava Minda-Au, minha estreia na ficção. Nesses trezentos e sessenta e muitos dias, houve lançamentos, encontros, matérias em jornais, revistas, blogs e sites. Agradeço a todos. Equipe da editora, jornalistas, professores, profissionais do mercado editorial, proprietários de livrarias, colegas de trabalho, amigos, amigas, parentes e, em especial, a vocês leitores.

sábado, 1 de outubro de 2011

O rock move o mundo

Você já desejou voar. Eu também. É sonho antigo reviver o feito de Ícaro, “vontade ser baitaca”, como escreveu Newton Sampaio. Asa delta. Paraquedas. Paraglaider. Parasail. Há trampolins que simulam a nossa falta de asas.

O voo comercial, no entanto, já não satisfaz o sonho, o desejo, a ambição humana de desafiar a lei da gravidade. Essas decolagens e aterrissagens quase não provocam taquicardia, a não ser em exceções e emergências. É relativamente fácil e, em alguma medida, barato estar hoje em Curitiba, amanhã em Lisboa e depois em Tóquio, apesar das filas de espera em aeroportos, da barra de cereal e do suco de manga no copo de plástico durante os percursos.

Mas em São Leopoldo, Colombo ou Patos de Minas, por mais confortável que se encontre em terra firme, asfalto ou cobertura, o homem tende a lembrar que poderia ter asas e, rosebud, vai procurar ponte ou túnel de acesso para viajar pelo céu.

Não sei se você já experimentou, mas uma das mais interessantes possibilidades para levitar e seguir por aí é tocar em uma banda de rock. Quem conhece, e sorveu o sabor, sabe que a aventura é intensa, inesquecível, incomparável.

E para esse voo acontecer não é necessário muito. Basta uma garagem com uma, duas, três tomadas, uma bateria, um contrabaixo, uma guitarra, microfones, um, dois, três amplificadores. Pronto. Mas o fundamental, e isso sim é fundamental: o sangue precisa ser novo. O rock acontece com e por meio de jovens. A inexperiência, a irresponsabilidade e a fúria juvenil são os motores do rock.

– E o rock é o que move as cidades.

Quem disso isso foi o Gadu, conhece? Ele é o namorado da Pulga. A Pulga é uma ex-groupie. Antes de conhecer o Gadu ela só namorava guitarristas, baixistas, bateristas e vocalistas de bandas de rock. Pulga ficou com todos os roqueiros do circuito de bares, palcos e porões da cidade. “Daí, cansei”, costuma repetir. Uma noite, na verdade já era madrugada, e a Pulga, sozinha, estava à beira de um siricutico. Pensou em se jogar no lago do parque, mas olhou para o lado e alguém sorria. O homem, vinte anos mais experiente do que ela, se apresentou como Gadu e, desde então, eles estão juntos.

– Os roqueiros não sabem nada e não são de nada, sabia?

Quem falou isso foi a Pulga, e olhe que a moça deve saber o que diz por ter convivido, de perto, e por anos, com roqueiros. Fui, acho que sou e sempre serei roqueiro, e até que concordo com a Pulga. Sei quase nada. Mas independentemente disso, é inegável que o rock proporciona voos.

– No entanto, atingir, fazer sucesso pode ser prejudicial. No rock, para voar, é importante estar com amigos tocando em garagens, quartos ou porões.

Quem elaborou o argumento do parágrafo anterior foi o Gadu. Ele trabalha em um serviço reservado, dizem que é contracomunicação e, quando tem certeza de que não há gravador ligado, repete que é o rock que move o mundo.

– Mas e a energia elétrica, os alimentos, os raios de sol, o luar e o efeito Malbec?, pergunto.

– Nada disso, Marcio, responde o Gadu. São os roqueiros, com overdrives, acordes dissonantes em mil alto-falantes que movem as cidades. Tanto que muitos acabam perdendo o chão, experimentam o vazio agudo e flertam com o suicídio.


* * *

Abandonei a guitarra, e o rock, aos 27 anos, idade na qual muitos, Hendrix, Janis e Morrison, tiveram a trajetória interrompida. Curioso. Mesmo no meu caso, mero roqueiro sem reverberação além da garagem, algo ruiu. Perdi energia, a madrugada apagou.

– É a maldição do rock. Uma vez roqueiro, você está perdido.

Foi o Gadu quem me explicou, e ele ainda disse o seguinte: Voou, Marcio, é como o Ícaro; vai querer voar pra sempre. Se alguém abandona as decolagens, como você fez, vai passar o resto da vida em busca das asas abandonadas em alguma garagem.

Ora direis, ouvir estrelas; cansei. Os voos me entendiaram. Agora quero mesmo é caminhar, apenas isso: flanar por ruas, esquinas e becos. Mas tenho um filho, o Vitor, que completa três anos neste outubro e, sabe, o presente foi um par de asas, ou melhor, uma guitarra, que ele pega todo dia e, pelo sorriso no rosto, já ensaia sobrevoar oceanos, vales e estrelas.

Crônica publicada na revista Ideias, da Travessa dos Editores, edição de outubro de 2011.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Tudo pode dar certo

Durante anos nenhum avião decolou daquela cidade. Cacique, vocalista de banda indie, DJ, inventor de dificuldade que vende facilidade, pajé e poeta, muitos tentaram, mas ninguém encontrou explicação. Naquele ciclo inicial, de mais de cem anos, acreditava-se que havia redoma, campo magnético ou maldição que impedia voos para fora dos limites do povoado a mil metros acima do nível do mar.

Na pequena vila só havia espaço para um cacique, um vocalista de banda indie, um DJ, um inventor de dificuldade que vende facilidade, um pajé e um poeta. O direito de exercer cada atividade era hereditário e o reconhecimento dos personagens não ultrapassava os limites do vilarejo, onde a vida vingou, apesar das chuvas, da eventual neve e das baixas temperaturas.

Os acessos à vila que se tornou cidade estavam – em tese – fechados, e os forasteiros não eram recebidos com espumante, canapés nem sorriso no rosto. Ao contrário, dentes cerrados, cenhos franzidos e outras manifestações que poderiam ser lidas como gestos hostis, sistematicamente exibidas aos novos estrangeiros que ousassem tentar viver naquele planalto, garantiram àquele povoado o título de gente que não sorri.

Se inicialmente ninguém decifrou o mistério de ser e estar naquela aldeia, ninguém conseguiu negar, esconder ou abafar que aquele agrupamento humano tinha uma atração irresistível que, sabe-se lá como, se espalhou do leste ao norte.

Durante os nevoeiros, dezenas de migrantes pulavam os muros e outras centenas seguiam por túneis subterrâneos que eram abertos nas imediações do povoado e davam acesso a porões no setor histórico, especificamente, dentro da catedral. Após breve período na clandestinidade, os novos habitantes começavam a circular à luz do dia e, mesmo diante da resistência inicial, conseguiam se inserir na roda do cotidiano.

A presença de elementos estranhos foi o que deu início ao fim daquele ciclo inicial da cidade. E, futucando bem, nem poderia ser diferente. Os diferentes não são tão diferentes assim e, uma troca de olhares aqui, outra vontade de provar o gosto da maçã ali e plunct, plact, zum: o blues gerou o rock; o samba, a bossa nova, e novos filhos e frutos iriam surgir do contato entre os de lá e as de cá, e vice-versa, vire o disco, óquei óquei.

Mas a grande modificação naquele povoado seria provocada, ora direis, ouvir estrelas, por causa do aeroporto. Voos não decolavam e também não desciam. O filósofo do povoado disseminou uma tese segundo a qual o nevoeiro das manhãs era fabricado artificialmente por uma máquina, construída pelo instituto de inteligência local, com a finalidade de impedir que os nativos saíssem rumo a outros pontos.

Outra voz se levantou para dizer que o nevoeiro tinha como objetivo atrapalhar a descida de voos, o que não deixaria que forasteiros conhecessem as nativas, consideradas as mais belas, formosas e interessantes do planeta.

Pesquisadores, que trabalhavam no subsolo secreto, elaboraram uma engenhoca, o equipamento AGÁHÉLES, tecnologia de ponta, e o nó foi desatado. Alguns aviões caíram, houve perdas, cancelamentos, chamaram aquele período de caos aéreo, mas um dia, então, voos decolaram e aterrissaram sistematicamente naquela cidade.

Quando viajar de avião se tornou algo tão corriqueiro como dizer bom dia, aquela aldeia, finalmente, se integrou ao resto do mundo. Começou haver vaga para mais de uma pessoa exercer uma mesma profissão, e assim surgiram vários caciques, vocalistas de banda indie, DJs, inventores de dificuldade que vendem facilidade, pajés e poetas. O que era peculiar na região acabou por se extinguir, mas a cara amarrada de muitos do passado se transformou em sorriso permanente no rosto daqueles que se tornaram o povo do tempo presente.

Se isso aconteceu ou não, não sei; sei que recebi esse texto com um pedido, que transcrevo a seguir: “Caro Marcio, favor tentar publicar na revista Ideias, pode assinar, a autoria de um texto, todos sabem, é relativa – inclusive, se alguém te acusar ou reclamar de algo, conte logo, o texto não é seu, mas não deixe de tentar publicar, afinal, tudo isso, esse passado, não pode simplesmente sumir sem ao menos um registro.”

Crônica publicada na revista Ideias, da Travcssa dos Editores, edição de setembro de 2011.

domingo, 31 de julho de 2011

E la nave va




– Vamos marcar um encontro pra gente lembrar daquele tempo? – isso é uma voz ao telefone.

Estou, agora, na casa de meus avós maternos, tenho 14 anos, o corredor é extenso, da cozinha até a sala há quatro ou cinco portas – são quatro ou cinco quartos. A lâmpada, no teto do corredor, parece inalcançável. Atravessar o corredor leva algum tempo, muitos passos. Mas, quando chego na cozinha, e atravesso a porta, há um quintal com árvores, grama verde, um paiol, um muro e vejo o sol se pôr no fim da tarde. Tudo é possível, eu com 14 anos e os ponteiros do relógio da parede se movem lentamente.

– Vamos lá, toda a turma vai estar de novo, será int... – é uma outra voz, desta vez, na minha frente.

Caminho, passo seguido de passo, tenho espinhas e sorriso no rosto, 16 anos, e a Catedral de Brasília é infinita por dentro; se seu dissesse que aqui cabe uma multidão, não seria exagero. O sol desta manhã atravessa os vidros, e a luminosidade me faz sorrir ainda mais: a minha oração, aqui, é silêncio. Há uma sensação de que o futuro promete, tudo me espera, as coisas estarão no meu caminho, basta eu seguir, assim, do jeito eu que eu sei, seguindo. Isso aqui é uma igreja mas até parece uma nave e sinto que estou a viajar no tempo.

[Numa manhã de névoa, neblina, cerração eu segui, não enxergava nada, e fui, sem conhecer as ruas, apenas a ouvir, e assim atravessei, uma, duas quadras, décadas e quando encontrei um espelho já havia fios brancos na cabeleira daquele que eu fitava, do outro lado do espelho, e não sabia quem poderia ser].

– Tem tanta coisa pra te contar, precisamos marcar um encontro – insiste uma voz que eu não quero mais escutar.

Já tenho, então, trinta e poucos anos e estou, novamente, dentro da Catedral de Brasília. Agora, o teto parece próximo, tenho a sensação de que, se eu esticar os braços, poderei tocar nos vidros através dos quais a luz do dia invade o interior da igreja. Não escuto mais o eco que, na década de 1980, a minha voz fazia aqui dentro. Saí da Catedral por que, há alguns minutos, uns meninos e meninas sorridentes entraram, lá, e ficaram a repetir um mantra, que sugeria ser a “última oração”, e eu não gosto desses meninos e meninas, e me recuso a rezar, e a cantar, a oração que eles, teletubies, propõem. Estou na Esplanada dos Ministérios, mas poderia estar em qualquer outra rua e, confesso, há alguns anos, só consigo rezar quando estou a ler Pedro Nava, Drummond, Proust, Reinaldo Moraes, Mirisola, Vieira ou quando ouço Bach, Mozart e Hendrix.

– Ei, vamos lá, precisamos nos... – insiste uma voz que já não consegue mais dizer nada para mim.

Estou na casa de minha avó materna e, agora, atravesso o corredor com menos de sete passos. Por que isso aqui parecia infinito? Os quartos são menores do que eram há três décadas. Sinto um cheiro, não sei exatamente do quê, mas, a partir desse aroma, retorno a uma daquelas manhãs quando eu saía da cozinha, entrava no quintal e o meu avô ainda estava por ali. Eu dormia sem medo na sala, na mesma sala que, a partir do momento em que ele foi velado, se transformou em um lugar no qual eu não consegui mais fechar os olhos. A casa de minha avó perdeu as cores, e não encontro mais nada lá; o sótão, onde se hospedava uma tia surda e muda, está trancado. O futuro chegou. Olho e a cada passo fica mais evidente: pontes ruíram – não é possível mais pisar naquele jardim.

Crônica publicada na revista Ideias, da Travessa dos Editores, edição de agosto de 2011. Ilustração de Marciel Conrado.

sábado, 2 de julho de 2011

Na ponta dos dedos


Estamos no consultório médico ou em uma poltrona de avião. Ainda há tempo. O médico se atrasou, o voo decolará em breve, e temos um jornal ou uma revista nas mãos. Já lemos outros jornais e outras revistas, mas seguimos com esses papéis diante de nossos olhos. O time mais cotado da cidade perdeu o jogo. O bairro mais glamuroso do balneário alagou com as chuvas. Lemos as notícias, nem todas até o fim, e nos perdemos, entre as linhas, nas fotos, nossos olhares são seduzidos pelos anúncios e, principalmente, pelas nossas unhas.

Sim. Eu, tu, ela, nós, vós eles, todos passamos a maior parte do tempo olhando, não para estrelas, mas para as nossas unhas.

Ao caminhar, na esteira da academia, ao redor do lago do parque, da cama até a cozinha, quantas vezes uma pessoa olha para as mãos, para as unhas? Pesquisa recente, realizada por um instituto de reputação inquestionável, garante que, em um minuto, ou seja, durante 60 segundos, uma pessoa pode olhar pelo menos seis vezes para as unhas. Seja homem ou mulher, jovem ou não, principalmente se a pessoa estiver calma. Durante uma crise ou diante de um problema que exige solução rápida, o sujeito é capaz de passar os 60 segundos olhando e, dependendo do caso, roendo as unhas.

Por que eu, tu, ele, nós, vós, elas olhamos tanto para as unhas?

Para analisar se já cresceram? Estão limpas? É necessário ir à manicure?

Semana passada começou a ser exibido um documentário, de 120 minutos, a respeito da importância das unhas para a vida em sociedade. A voz do narrador afirmava que a atração entre as pessoas, da amizade ao amor, depende, mais do que qualquer outro detalhe, das unhas. “Não há lógica, há sim atração, como se fosse um aroma, e tem muito a ver com a percepção visual. Pessoas se atraem, e se afastam, por causa das unhas”, dizia o narrador.

Em uma obra de antropologia, que não cito o título por que a capa e a folha de rosto foram rasgadas, e perdidas, está escrito, no segundo parágrafo da página 17, o seguinte: “No passado, durante a evolução do homem, as unhas eram fundamentais, inclusive, usadas como armas em confrontos tête-à-tête”. Já no início da página 256, o texto, que analisa a realidade brasileira, faz saber que: “Durante o século 20, homens, sobretudo os que nasciam em áreas rurais, quando deixavam o campo e se fixavam em regiões urbanas, passavam a cultivar unhas, de até dez centímetros, com a finalidade, simbólica, de mostrar que não usavam mais a enxada.”

Um professor aposentado caminha todas as tardes no Parque Barigüi e, durante o exercício a céu aberto, o acadêmico costuma dizer, em voz alta, que as unhas não têm nenhuma importância. “Olhamos tanto para as unhas porque, na verdade, prestamos atenção em coisas irrelevantes. Eis uma prova de como perdemos tempo na vida”, repete, diariamente, o paulistano, de 69 anos, radicado em Curitiba.

Eu, de minha parte, não tenho opinião a respeito do assunto; apenas registro o que vi, li e escutei. Mas a missão exigiu muitas horas. Esta crônica, confesso, foi escrita durante 21 dias. Não, necessariamente, por que eu tivesse problemas para juntar as palavras (só um pouquinho), mas, como o leitor e a leitora já deduziram, pelo fato de que, nas últimas três semanas, estive hipnotizado por aquilo que está na ponta de meus dedos.

Crônica publicada na edição 117 da Revista Ideias.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Minda-Au é um sujeito leitor



Concedi depoimento ao projeto Sujeitos Leitores, iniciativa do Colégio Nossa Senhora Medianeira. Confira acima.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O legado tropicalista de Wilson Bueno



Wilson Bueno  tropicalizou Curitiba, o Paraná, o Brasil. Mais do que apenas um escritor, e ele foi – e é – um dos nomes de destaque da ficção contemporânea, esse sujeito irrequieto soube, como poucos, dialogar com autores e culturas variadas e ainda desenvolver uma linguagem radical.

“O que me consola é que não guardo esperanças com relação a tudo o que vai aqui registrado. Já o disse em algum logar, e o digo de novo, e senão o disse, digo-o pela primeira vez – assim que me enfade o passatempo chinfrim, pico isto tudo em pedacinhos e o fragmento do fragmento jamais dirá o que foram as partes e muito menos ainda o todo.”

O trecho, transcrito no parágrafo acima, está na página 21 de Amar-te a ti nem sei se com carícias (Planeta, 2004), obra na qual Bueno recria a dicção de Machado de Assis. O escritor paranaense conhecia a tradição. Poderia, como demonstrou em diversas oportunidades, reproduzir outras vozes marcantes do universo literário. De Machado a Guimarães Rosa, de Lewis Carroll a Franz Kafka: Bueno bebeu em muitas fontes, mas nunca se contentou em andar por caminhos percorridos anteriormente.

“Nessa história de preguiçosos, o mais interessante não são os preguiçosos, mormente do sexo masculino, mas uma preguiçosa ou para ser mais exato – uma deusa preguiçosa.” O fragmento foi retirado de A Copista de Kafka (Planeta, 2007), obra que pode ser lida como um livro de contos, uma novela ou até como um romance. Essa fluidez ou drible nos limites e definições dos gêneros literários é um dos pontos centrais da produção artística de Bueno. Entre a direita e a esquerda, ele optou pela terceira margem do rio. Ou, para ser mais claro, Bueno não queria explicar, e sim confundir.

Na realidade, o autor de Bolero´s Bar (Travessa dos Editores, 2007) queria mesmo era seduzir. Ele até flertou, mesmo que minimamente, com o discurso linear, mas a sua bossa era no desvio, no ziguezague, na curva e no aparente nonsense – aparente porque Bueno, mesmo com personagens animalescos, entre outros recursos inventivos, tratava desse assombro permanente que é a realidade.

O projeto literário de Bueno pode ser definido a partir do título de um livro de Roland Barthes: O prazer do texto. Isso mesmo. O ficcionista de Jaguapitã que se radicou em Curitiba buscava o som ainda não dito, mesmo que fosse para dizer o mais do mesmo. “Voar será sempre um exagero de predestinação, um acessório supérfluo, um luxo, e a notável convicção de que aí more – de vez – a poesia.” Ouviu? Escutou o canto de Bueno? Prosa mais do que refinada? Ou a mágica da poesia?

De desbunde em desbunde, Bueno caetaneou. O tropicalista paranaense soube colocar em prática o texto odara que Caetano Veloso canta em “O Quereres”: “Onde queres o ato, eu sou o espírito/ E onde queres ternura, eu sou tesão/ Onde queres o livre, decassílabo/ E onde buscas o anjo, sou mulher/ Onde queres prazer, sou o que dói/ E onde queres tortura, mansidão/ Onde queres um lar, revolução/ E onde queres bandido, sou herói.”

Quando o mundo exigia a linha reta, ele se assumia barroco. Se o obrigatório era o horário comercial, Bueno dormia para acordar diante do por do sol e, pela noite e madrugada acesa, tecer a ficção que, vista agora um ano depois de seu desaparecimento, evidencia uma profissão-de-fé segundo a qual a beleza, e somente ela, pode salvar o mundo.

Texto publicado na edição 116 da Revista Ideias, da Travessa dos Editores, já nas bancas. A foto, de divulgação, é de Walter Craveiro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Todas as cores de Minda-Au


O escritor Guido Viaro, que tem o mesmo nome de seu avô pintor (1897-1971, o autor da linda imagem de post), escreveu uma resenha, em feitio de texto de e-mail, sobre Minda-Au (Record). O que o Guido percebeu, sentiu e disse sobre o meu livro é de uma beleza que precisa ser compartilhada com todos vocês.

"Oi Marcio, li teu livro. Aqui vão algumas apreciações. Acho que os sete contos dialogam, e o livro chega a parecer um romance com sutis fios que os unem. Essa comunicação tem uma base comum, são os meios tons, os momentos de espera, a acidez estomacal, o tédio, o céu nublado... os tijolos que constróem o núcleo vivo da existência. Por isso o livro fala fundo. Sem apelar para clichês (fáceis quando confunde-se realidade com a realidade recriada), o livro sustenta a dúvida hamletiana do ser ou não ser. Vale à pena? Não será a vida uma sucessão de instantes tediosos sem qualquer sentido, e que sempre acaba da mesma forma? Ouvi essas perguntas enquanto lia. E não ouvi nenhuma resposta. A leitura agradável encobre camadas profundas de questionamento, e os leitores poderão optar por ir até onde lhes é confortável, ou possível. Tecnicamente gostei muito da pontuação, tanto da presença quanto da ausência, é mais um instrumento importante para tingir a tela com cores pasteis. Aliás, pensei muito em pintura enquanto lia, há algo da sutileza da aquarela em teu texto, sombras, e a liberdade de tintas que podem escorrer um pouco, e mesmo assim continuarão dizendo algo. No conto que fala de Porto Alegre, me lembrei do livro "O homem que dorme" do Georges Perec, o mesmo desapego, a mesma falta de horizonte e a mesma falta de respostas fáceis. No último conto, o mestre Jamil é pintado sem emoções baratas nem tentativas rasas de emocionar, acho que ele ficaria orgulhoso desse retrato. Parabéns, é um grande livro... e esse é só o começo... Guido."

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Minda-Au no Indústria & Comércio

A escritora Isabel Furini escreveu um texto sobre Minda-Au (Record), e o conteúdo foi publicado no jornal Indústria & Comércio, de Curitiba, confira:

Conheci Marcio Renato em 2006, quando ministrou uma palestra para a turma da Oficina de criação literária, que oriento no Solar do Rosário. Na época o Marcio havia escrito mais de 600 contos, porém ainda não queria publicá-los. Disse que esperaria até sentir que eles estivessem completamente aprimorados. Essa atitude é muito difícil de encontrar, pois nós escritores somos, geralmente, pessoas muito ansiosas e ainda com o agravante de termos compulsão por publicar. Nesse sentido, Marcio Renato dos Santos revelou uma paciência zen. Atualmente, ele já escreveu mais de 700 contos e decidiu publicar seu primeiro livro. Escolheu 7 trabalhos de seu arsenal, ou seja, 1% dos contos que escreveu, e dessa maneira nasceu a obra Minda-Au (Márcio Renato dos Santos, Ed. Record, 2010, 80 páginas).

O nome Minda-Au evoca um fato de sua vida, era uma criança de um pouco mais de um ano de idade, um dia, gatinhando pela casa, viu um quadro de um dromedário e falou: Minda-Au. Quando recebemos essa informação, o título do livro, a principio estranho, revela o seu valor. O ser humano antes de adquirir a linguagem materna tem sua própria linguagem. “Ninguém entende o que o nenê disse”, desesperam-se as mães. É isso. É a linguagem particular, a torre de Babel que separa os seres humanos. E se todo escritor procura a sua própria linguagem, sua própria voz, nada melhor do que Minda-Au para evocar esse orbe inteligível do eu, onde se misturam lembranças, imagens, sons, emoções, pensamentos, ideias, essa torrente que circula no mundo subjetivo de Marcio Renato dos Santos. Na minha opinião, quando o escritor intitulou Minda-Au ao seu primeiro livro, ele escolheu muito mais do que um título, escolheu ser fiel a si mesmo.

As histórias acontecem em Curitiba, cidade muito carismática, e um pouco desse carisma pula dos contos e apodera-se das retinas dos leitores.

Em “Teletransporte nº 2″, o personagem não sabe se está acordado ou sonhando, enquanto dirige um carro desgovernado. Renato disse que nesse trabalho fez “uma metáfora da própria vida, pois não temos controle sobre nossa trajetória no mundo”. E não temos mesmo! Talvez por isso os gregos imaginavam as Parcas tecendo a vida humana.

“A guitarra de Jerez”, um dos mais belos contos do livro, inicia com uma negação: “Nunca toquei a guitarra que está na sala do meu apartamento. Ninguém mexeu nela. As pessoas que me visitam não tiram os olhos. Músicos desejam manuseá-la. Crianças querem tocar. Não deixo.” (…)

As frases curtas marcam o ritmo, e esse “Não deixo” aguça a curiosidade do leitor. Por que ninguém pode tocar esse belo instrumento?

Marcio Renato dos Santos nos leva por caminhos sinuosos e inesperados. Esse é o primeiro livro de um experiente contista. Vale a pena conferir.

O link do texto: http://www.icnews.com.br/2011.05.11/negocios/livros-de-negocios/minda-au/

terça-feira, 12 de abril de 2011

Minda-Au no Estado de Minas


O jornal Estado de Minas, do grupo Diários Associados, publicou matéria no dia 12 de abril de 2011 sobre Minda-Au. Marcio Renato dos Santos mostra crônicas das ruas e emoções. Este é o título da matéria, realizada por Carlos Herculanos Lopes, que leu o meu livro, me entrevistou e escreveu essa reportagem que também é resenha e me consagra. Confira.

Entre os cerca de 700 contos que já escreveu, o escritor paranaense Marcio Renato dos Santos escolheu sete, todos ambientados em Curitiba, para compor o seu primeiro livro, Minda-Au, com o qual faz sua estreia na literatura de ficção. O nome escolhido para a coletânea, que à primeira vista pode soar estranho, remete à sua primeira infância, quando ele estava engatinhando. “A minha avó Diva, que já morreu, pintava quadros, e antes de ficar cega, desenhou um dromedário. Eu tinha um ano e poucos meses, e um dia, me arrastando pela casa, apontei para o quadro e disse: Minda-au. Agora, já com 30 e poucos anos, ao lançar meu primeiro livro lembrei-me da história dessa palavra, e decidi usá-la”, disse Márcio. 
Nascido em Curitiba, em 1974, o escritor, que também é jornalista, conta que começou a se interessar pela literatura ainda adolescente, quando foi passar férias na casa de um tio e um romance caiu nas suas mãos. Não se lembra mais qual era, mas sabe que aquela leitura foi decisiva para ele . “Desde então, comecei a escrever e nunca mais parei. Escrevo todos os dias, sou tomado pela literatura e se pudesse só me dedicava à ficção”. Como não pode, divide seu tempo com o jornalismo diário, como repórter no jornal Gazeta do povo, de Curitiba, cidade que conhece bem e elegeu como palco das suas histórias. 

Logo no conto de abertura, “Sub”, ele mostra que não está para brincadeiras. Com uma força rara, pouco comum em livros de estreia, Marcio conta a desventura do andarilho Edward, que vaga sem rumo pela cidade. Dono de uma outra história, que talvez queira esquecer, esse homem, sabe-se lá por que, optou por viver nas ruas, nas quais muitas vezes, mesmo sem querer, é obrigado a conviver com o passado. “Edward está na Rua XV. Vê uma mulher. Parece aquela que por muitos dias foi a sua esposa”.
Numa outra história, “A guitarra de Jerez”, tão envolvente como a primeira, um homem conta como adquiriu uma guitarra amaldiçoada, que tem o poder de levar à morte todos os que ousam ser seu dono. A primeira vítima, não por coincidência, foi um certo Ramón Hernández, que era considerado um dos maiores guitarristas de flamenco da Espanha. Logo depois de comprar a guitarra, acabou se suicidando. Na sequência, um a um seus donos tiveram fins trágicos, até ela cair nas mãos de um curitibano. 
Em “Teletransporte nº 2”, um dos melhores contos do livro, o escritor fala de um sujeito que não sabe se está acordado ou sonhando, enquanto dirige um carro desgovernado. “Na realidade, o que quis, ao escrevê-lo, foi fazer uma metáfora da própria vida, pois não temos controle sobre nossa trajetória no mundo”, diz. Num outro, “Os homens sem alma”, somos levados a participar de uma conversa literária com a linguagem do livro Sexo, de André Sant’Ana, que Marcio Renato considera um dos melhores autores de sua geração. 
Cenário urbano
Sobre a opção de centrar suas histórias na capital paranaense, o autor de Minda-Au não vê nenhuma novidade nisso. Antes dele, escritores como Dalton Trevisan, que não por coincidência é chamado de “O vampiro de Curitiba”, continua escrevendo dezenas de histórias sobre cidade. “Também Curitiba já foi recriada literariamente, com brilhantismo, por autores como Newton Sampaio e Jamil Snege. No meu caso, procurei ambientar minha ficção em um lugar diferente do que dizem que Curitiba é. Há clichês que falam que é uma cidade autofágica, que não valoriza os locais. Considero essas análises equivocadas. Curitiba é para mim a cidade que aparece em Estômago, filme de Marcos Jorge”, diz o contista.
Quizilas locais à parte, certo mesmo é que Marcio Renato dos Santos, com Minda-Au, estreou na literatura em grande estilo. Escreveu um ótimo livro ou uma pequena mostra do que ainda vem por aí. Afinal de contas, como ele confessou, tem centenas de histórias prontas. Se tiverem a mesma força dos sete contos desse livro de estreia, com certeza iremos ler muita coisa boa de sua autoria. (CHL)
Se quiser ler a reportagem diretamente na página virtual do Estado de Minas, eis o link: http://tinyurl.com/5vgpxt8

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Entrevista publicada no Rascunho de abril de 2011


RASCUNHO: edição_//132_abril_2011
ENTREVISTA: Marcio Renato dos Santos

Por que iniciar a carreira literária com um livro de contos?
Comecei a escrever ficção há mais de duas décadas, mas não pensava em ter um livro publicado, apenas em escrever. Durante esse tempo, produzi contos, uma novela, um romance, poemas e outras prosas, até letra para canção. Desde o ano 2000 que eu publico contos em revistas e jornais. Há dois anos, comecei a reler minha ficção e percebi que tinha mais de 700 contos finalizados. Separei os textos, o que resultou em mais de 20 livros de contos. Um deles batizei de Minda-Au e enviei para a Record. Um dia, recebi uma ligação da Luciana Villas-Boas, a diretora editorial, dizendo que iria publicar o meu livro. Quase tive um siricutico. Ainda mais porque quem decidiu publicar Minda-Au foi ela, a Luciana Villas-Boas, uma das pessoas que mais lê, entende e gosta de literatura. Isso já diz muito a respeito de Minda-Au. Mas, respondendo à pergunta, decidi iniciar a minha carreira literária com um livro de contos porque foi nesse gênero que eu mais trabalhei e retrabalhei a minha ficção.

Como foi o seu primeiro contato com a literatura? E o que ela representa atualmente em sua vida?
A literatura chegou à minha vida durante umas férias no final da década de 1980, por meio de um romance, de que já nem lembro mais o título. Desde então, vivi poucos dias sem ler. Já cheguei a ler por seis, sete horas diariamente durante alguns anos da década de 1990. Hoje fico pelo menos duas horas lendo todas as noites. Há quatro anos, saí de férias com a decisão de não ler. Mas não agüentei. Tive de comprar dez livros, que li em sete dias. Gostaria, mesmo, de passar uma semana sem leitura, mas não consigo. Se eu não ler, tenho a sensação de que estou perdendo algo muito interessante. Não imagino a minha vida sem livros e sem a leitura diária. Escrevo ficção todos os dias por pelo menos 30 minutos. Foi lendo que me tornei escritor. E não encontro explicação para isso.

O que você espera alcançar com sua escrita?
Quero escrever textos que me surpreendam. Quando faço um conto que, ao final, me nocauteia, fico razoavelmente satisfeito. Entre os que estão em Minda-Au, tem um que me arrebatou completamente. É o De Teletransporte N.º 2, que tem um personagem que não sabe se sonha ou está acordado dirigindo um carro desgovernado. O texto quase não tem pontos e é uma recriação literária do que pode ser um pesadelo. Escrevi umas 20 versões, reescrevi mais de 20 vezes cada uma das versões e, quando reli, gostei mais daquela que eu marquei com o número 2, daí o porquê do título. Fazer contos como o De Teletransporte N.º 2 é o que me faz pular o mundo. Também quero ser lido. Resenhistas dos jornais Gazeta do Povo, Jornal de Londrina, Jornal da Comunicação (UFPR), Correio do Povo, Correio da Bahia, além do Luiz Paulo Faccioli, na BandNews de Porto Alegre, e do Bruno Zeni, no Guia da Folha de S.Paulo, leram e comentaram Minda-Au. Agora, serei resenhado no Rascunho. Espero que mais pessoas leiam, comentem e escrevam sobre Minda-Au.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Na Semana Literária do Museu Guido Viaro


Registro fotográfico de minha participação na Semana Literária do Museu Guido Viaro, em Curitiba, na noite de 5 de abril de 2011. O jornalista, e escritor, Cristiano Castilho me entrevistou. A partir de Minda-Au (Record), comecei a falar e segui durante 70 minutos. Agradeço ao Guido pelo convite, ao público pela presença e interesse e ao Cristiano pela generosidade.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Minda-Au na capa do Rascunho


Ei, olhe só: estou na capa do Rascunho, da edição de 11 anos do jornal. Além disso, ganhei uma resenha, espaço para entrevista e ainda foi publicada uma foto.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ouça Minda-Au

Um trecho de Sub, o primeiro conto do meu livro Minda-Au, foi lido na BandNews de Porto Alegre. Escute: http://tinyurl.com/5vwbjyp

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Minda-Au no Correio da Bahia


O jornalista Franco Fuchs escreveu resenha breve no jornal Correio da Bahia (leia no recorte acima) sobre Minda-Au (Record), meu livro de estreia na ficção. Fuchs apontou características de dois contos e, de maneira ampla, elogiou o livro em um dos mais importantes jornais do nordeste.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Minda-Au na Estante do Correio do Povo

O Correio do Povo, importante jornal de Porto Alegre, publicou nota, na edição de 19 de fevereiro de 2011, recomendando Minda-Au. O texto é breve, mas manda o recado, confira: "CAPITAL - A capital do Paraná, Curitiba, é o cenário recorrente das histórias e contos que marcam a estreia de Marcio Renato dos Santos na ficção, no livro "Minda-Au" (Record). Numa cidade repleta de mistérios e anseios, o jornalista mistura lembranças e anseios numa obra nitidamente autobiográfica." Quem quiser conferir a nota diretamente na página da internet do jornal, eis o atalho: http://tinyurl.com/49tkjpe ou http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=142&Caderno=5&Noticia=259487

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Minda-Au é resenhado por Luiz Paulo Faccioli na BandNews de Porto Alegre

Luiz Paulo Faccioli, um dos intelectuais mais ativos do Brasil contemporâneo, resenhou Minda-Au no sábado 12 de fevereiro de 2011 durante o Dedo de Prosa, programa veiculado pela BandNews de Porto Alegre - FM 99,3. Faccioli é um escritor refinado, autor de mais de dez obras, um crítico literário exigente. A seguir, o texto que Faccioli escreveu e leu na rádio: um elogio ao meu livro de estreia na ficção.

Minda-Au

Poucas vezes se viu uma estreia ser tão anunciada, comentada e festejada pelo autor como a da coletânea de contos Minda-Au, do jornalista curitibano Marcio Renato dos Santos. Antes mesmo do lançamento, em outubro passado, foram criados um blog e uma conta no Twitter, ambos batizados com o nome do livro e desde então sistematicamente alimentados com informações e notícias sobre a obra. A propaganda está funcionando, mas o que de fato impressiona é o entusiasmo com que Marcio aborda a trajetória de seu filhote e que não é de forma alguma exagerado: trata-se de um primeiro livro e já sai pela Record, hoje o maior grupo editorial brasileiro, o que dá uma chancela importante para sete contos breves, dispostos num volume de apenas 80 páginas. Vale aqui lembrar que o conto é quase sempre o gênero escolhido pelo estreante da prosa, muito embora seja comum as editoras resistirem à sua publicação sob o argumento de ele ser pouco vendável.
Mas o entusiasmo do autor não basta para o sucesso de um livro, e aí devemos olhar para as virtudes de Minda-Au. A primeira impressão que se tem, e que vai acompanhar toda a leitura, pode ser resumida em duas palavras: bom gosto. Ele aparece já na capa, criada por Carolina Vaz, que tem como base uma bela pintura de Popova e feita sobre uma textura rugosa. O miolo em papel off-white de gramatura privilegiada usa fonte em corpo 12, facilitando a vida do leitor que não precisa apertar os olhos para decifrar as letras. O texto é ágil, de frases curtas e ao mesmo tempo elegantes. Curitiba é o cenário da maioria dos contos, que exploram situações e aflições próprias do universo contemporâneo, a urbe onde todos parecem correr em busca de algo que jamais alcançarão. Um dos melhores contos se passa em Porto Alegre, vista aqui pelos olhos do forasteiro.
O texto que escolhi para ilustrar este comentário é a pequena introdução da obra, que satisfaz nossa curiosidade quanto a seu título algo exótico:
Minda-Au, contam meu pai Luiz e minha mãe Júlia, foi a primeira, talvez a segunda, no máximo a terceira palavra que falei. Minda-Au foi a tradução que encontrei, com menos de 1 ano, para um dromedário de um quadro que a minha avó, Diva, inventou. A partir de Minda-Au eu comecei a me tornar Marcio Renato dos Santos.
Minda-Au, de Marcio Renato dos Santos, Editora Record, é minha dica de hoje.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma canção para você

Noturno foi o cenário onde nossos olhares se encontraram pela primeira vez, lembra? Pál­­pebras a piscar, brisa a 17 graus, e a ventura de beber em seu copo e descobrir segredos a cada dose ingerida gota seguida de gota.

Quarenta rosas vermelhas, sete garrafas de malbec, setenta ligações, milhares de palavras, e nossos corpos passam a atravessar as mesmas madrugadas. Todos os galos que tecem as manhãs não conseguem interromper nossas viagens oníricas – e em algumas quartas e quintas-feiras os lábios despertariam insinuando uma alegria até então desconhecida naquele primeiro outono de nossa era.

Um maremoto no Oceano Índico iria provocar tanto vendaval em nossa rota, e nem estávamos em alto-mar, nem mesmo dentro de um barco seguíamos quando um nevoeiro quase interrompeu a viagem a dois.

Em terra, nem tão firme, nossos passos entravam em sintonia, apesar de eu caminhar quase parando. O seu balé fluente acelerou o meu tropeçar em pedras e mesmo na estrada toda em linha reta e plana.

Talvez devido àquele incidente em um mar distante de nós, a poucos metros antes de chegarmos à Pasárgada, a ponte ruiu e um precipício instransponível sinalizava ponto final, ou talvez uma espera de povoar com fios brancos as nossas cabeleiras.

Em vigília nos demos conta que somente em silêncio poderíamos nos entender. Depois disso reparamos, um no outro, que nossas asas estavam quebradas. As cicatrizes de guerras passadas também nos aproximaram.

Um, dois, três passos e pulamos no precipício – ou foi de um avião? – e não havia paraqueda e, se tinha, não abriu. Foram as nossas asas, das quais nem lembrávamos da existência, que nos conduziram por cima de rochedos, prédios, manadas, nuvens carregadas, mas havia uma pista de pouso a nos esperar nas imediações de uma serra, e foi ali que aterrissamos.

O perambular ziguezagueante e não pouco repetitivo em busca da água, do pão e do vinho iria fazer das labaredas monumentais mera fagulha, dessa que um palito provoca ao roçar a superfície lateral de uma caixa de fósforos. Mas não foi essa nem outras mudanças que colocariam um ponto final em nosso enredo. Me dei conta disso em meio a outras quedas, quando as minhas asas já haviam derretido e também ao não me reconhecer mais diante de espelhos, seja em águas transparentes ou na voz de quem passa na estrada.

Um dia, encontramos nossa morada no alto da planície, e uma porta fechada fez com que uns cem metros quadrados se tornassem o nosso mundo, onde a infância pode renascer em qualquer momento, e um segundo depois já somos esses humanos envelhecidos que um dia serão folhas secas.

Tudo o que calo na rua, é comício em casa, mas ainda não subi no telhado, nem abri a janela às três e dezoito da manhã ou durante um feriado para dizer, com um microfone ligado em volume trinta, que gosto tanto de você, e acho até que te amo, por que esse bolero não tem jeito de ter eco na esquina, quem dirá na primeira página do jornal, mas, sabe, está saindo, aqui, veja, leia, neste recanto do Ca­­derno G.

Crônica publicada no sábado 29 de janeiro de 2011 no Caderno G, suplemento de cultura da Gazeta do Povo.