quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Marcio Renato na coletânea inspirada nos Beatles



Aroldo Murá Gomes Haygert, o professor Aroldo, publicou em sua coluna, no Jornal Indústria e Comércio, comentário analítico sobre a minha participação na coletânea O Livro Branco. A foto, acima, é do Dico Kremer. O texto, que segue abaixo, é dele, o mestre Aroldo Murá, a quem agradeço pela generosidade e atenção:

A editora Record, a maior da América Latina, acaba de publicar O Livro Branco, uma coletânea na qual 19 autores brasileiros foram convidados para, individualmente, cada um escrever um conto a partir de uma canção dos Beatles. A Record investiu pesado na obra. Os convidados receberam adiantamento – algo raro no Brasil. Já foram realizados dois badalados lançamentos, um no Rio e outroem São Paulo. Entre os autores presentes, estão Marcelino Freire, André Sant’Anna, Marcia Tiburi, Zeca Camargo (apresentador do Fantástico, que debuta na ficção) e Nelson Motta (o renomado crítico e produtor musical, que assina o posfácio).

Um autor curitibano também participa do projeto. Trata-se de Marcio Renato dos Santos, de 38 anos, mais conhecido pela sua atuação no jornalismo (com passagens pela Travessa dos Editores e Gazeta do Povo), mas também uma voz que se firma, e se afirma, na literatura. Ele estreou na ficção em 2010 com Minda-Au, livro de contos publicado pela Record – e recebeu resenhas, acenos e afagos de críticos dos jornais Estado de Minas, Guia da Folha de S.Paulo e Rascunho. Agora, Marcio aparece, com destaque, neste O Livro Branco, apontado por leitores e críticos, como um dos mais importantes títulos do mercado editorial brasileiro em 2012.

Em O Livro Branco, Marcio Renato dos Santos participa com o conto Uma jornada particular — texto deflagrado a partir da canção A day in the life, a última do álbum Sgt. Pepper’s. Trata-se de um texto de ficção complexo, repleto de sutilezas. Apesar de várias referências a elementos presentes em canções dos Beatles, o texto de ficção problematiza a solidão humana. Max Bell, o protagonista e narrador, vaga, em uma cidade vazia, e não se sabe se ele está vivo, morto ou sonhando. O autor vale-se de um repertório amplo para, nas entrelinhas e linhas, discutir cinema, literatura, mercado editorial, jornalismo e a condição humana. Tudo isso em um único de texto, de pouco mais de 10 mil caracteres.

“Ler, reler, ler outras vezes este conto é, a cada contato, uma descoberta, é se permitir o acesso a novas sensações e conhecimentos — o que significa dizer que Uma jornada particular, de Marcio Renato dos Santos, presente em O Livro Branco, é um texto que merece atenção por ser instigante e proporcionar prazer estético, para nada dizer da ousadia de linguagem”, afirma Ronaldo Barros, bibliófilo, crítico e amigo da coluna.

No dia 20 de setembro, uma quinta-feira, acontecerá o lançamento de O Livro Branco em Curitiba, na Livrarias Curitiba do Shopping Estação. Desde já, um evento imperdível. Henrique Rodrigues, o organizador da antologia, e também autor, e Marcio Renato dos Santos vão conversar entre si e com o público, além de autografar a obra, tida como referência e leitura obrigatória. Matheus Duarte e banda Match tocarão canções dos Beatles e repertório autoral.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A jornada de Marcio Renato dos Santos


O escritor curitibano Marcio Renato dos Santos participa da coletânea O Livro branco, publicada pela Editora Record, a maior da América Latina, na qual 19 autores brasileiros estão presentes, cada um com um conto deflagrado a partir de uma canção dos Beatles. Marcio escreveu, inspirado na canção A day in the life, a última do Sgt. Pepper’s, o conto Uma jornada particular. Trata-se de um texto de ficção complexo, repleto de sutilezas. Em um primeiro plano, o leitor tem acesso a uma movimentação do personagem Max Bell. Ele, o protagonista-narrador, segue, amedrontado, com um bilhete premiado da Mega-Sena.

No percurso, Max encontra algozes, reais e imaginários, e também outras personagens, como Lucy — numa alusão a outra canção dos Beatles do mesmo Sgt. Peppers, a clássica Lucy in the Sky with Diamonds. Situações nonsense, que dialogam com a letra da canção A day in the life, compõem o cenário por onde Max Bell perambula, seja uma balada dentro de um ônibus onde chove, e apenas ele, Max, não se molha.

Em determinado momento, é possível se perguntar: será que o protagonista está vivo, sonhando ou morto? Na canção de Lennon e McCartney que Marcio escolheu para compor essa narração, há um acidente, de uma morte. Acima de tudo, há mudanças radicais na estrutura da canção, inclusive no andamento, o que aparece no conto do Marcio. Curioso é que surge, no pesadelo do personagem-narrador, um outro personagem chamado Sr Kite – e no álbum Sgt. Pepper’s há uma canção chamada Being for the benefit of Mr. Kite. Marcio, ou melhor, o narrador do conto conhece, bem, o álbum em questão e os Beatles, e insere inúmeras informações que, eventualmente passando despercebidas em uma primeira leitura, dão força ao conto.

Ler, reler, ler outras vezes este conto é, a cada contato, uma descoberta, é se permitir o acesso a novas sensações e conhecimentos — o que significa dizer que Uma jornada particular, de Marcio Renato dos Santos, presente em O Livro Branco, é um texto que merece atenção por ser instigante e proporcionar prazer estético, para nada dizer da ousadia de linguagem. (Ronaldo Barros).

Serviço: Dia 20 de setembro Henrique Rodrigues, o organizador da antologia, e também autor) e Marcio Renato dos Santos conversam com o público e autografam O Livro Branco na Livrarias Curitiba do Estação, a partir das 19 horas. Matheus Duarte e banda Match tocam canções dos Beatles e repertório autoral. Entrada franca.

Conteúdo publicado originalmente no Blog do Solda, dia 27 de agosto de 2012. A foto é de autoria do Dico Kremer, com intervenção do Cartunista Solda.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Livro Branco: Rio e SP

E no dia 20 de setembro o agito será em Curitiba, na Livrarias Curitiba do Estação. A banda Match vai tocar canções dos Beatles. O Henrique Rodrigues e eu vamos conversar com o público. Haverá sessão de autógrafos. A partir das 19 horas.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Com Gal Costa em Curitiba

Conheci a Gal Gosta hoje, dia 15 de agosto de 2012, em Curitiba. Amanhã, dia 16, ela apresenta o show do mais recente álbum "Recanto" no Guairão. Deve cantar "Neguinho", a canção que mais faz a minha cabeça no momento.

Com Luiz Vilela em Curitiba

Reencontro Luiz Vilela na noite de 14 de agosto de 2012 em Curitiba, na Biblioteca Pública do Paraná, após o evento "Um escritor na Biblioteca", no qual ele foi o convidado.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Release oficial da Record para O Livro Branco

Antologia reúne contos inspirados em músicas dos Beatles
Em O livro branco, banda ganha homenagem literária por 20 autores
Seguindo a bem-sucedida fórmula de Como se não houvesse amanhã, que trazia textos inspirados em letras da Legião Urbana, Henrique Rodrigues reúne aqui 19 contos (mais uma bonus track) inspirados em canções de uma das mais importantes bandas de rock de todos os tempos, que influenciou o surgimento de tantas outras: os Beatles. Em O livro branco, clássicos como Hey Jude, Let it be e Eleanor Rigby ganham novo olhar pela imaginação de autores como Nelson Motta, Marcelino Freire, Ana Paula Maia, Fernando Molica, Marcia Tiburi, Marcelo Moutinho, Carola Saavedra e Zeca Camargo, este último estreando na ficção.


O LIVRO BRANCO
Org. Henrique Rodrigues
Grupo Editorial Record | Editora Record
160 páginas
Preço: 29,90
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-01-09928-0


            Ao longo de cinco décadas reinando como a banda de rock mais importante do mundo, os Beatles influenciaram diferentes gerações não só na música, mas também em moda, comportamento e – como não? – na literatura. Após o sucesso da antologia Como se não houvesse amanhã: 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana, Henrique Rodrigues reuniu mais uma vez um time de primeira linha com a intenção de revelar como as canções dos rapazes de Liverpool podem ser refletidas na atual produção literária brasileira.
            Mais populares que Jesus Cristo, John, Paul, George e Ringo romperam barreiras e deram origem a uma das mais admiráveis mitologias de todos os tempos. Mas além das fãs ensandecidas, dos cortes de cabelo, das experiências psicodélicas, das polêmicas, os Beatles são, mais que tudo, as suas canções. Pílulas de três, quatro minutos, que condensam doses cavalares do mais puro amor e de inquietação, desejo, utopia, ambição, irreverência, frustração, libido, transcendência e redenção. Da saudade do bairro onde se viveu na infância a uma visão psicodélica da realidade, a banda imprimiu sua marca ao mesmo tempo em que retratou muitas das transformações culturais pelas quais o mundo atravessou.
            Em O LIVRO BRANCO — referência a um dos mais famosos discos da banda, o Álbum Branco, lançado em 1968 — a riqueza do legado beatle, de mil imagens e mui citáveis frases, acende a imaginação de uma heterogênea turma e renasce em forma de relatos emotivos, engenhosos, assombrosos, delirantes, singelos, brutais, sacanas e sagrados. Pelo olhar de vinte escritores, clássicos do repertório dos Beatles como Penny Lane, Eleanor Rigby, Hey Jude, Let it be e Ticket to ride ganham os mais diversos contornos literários.
            Cada autor ficou livre para escolher a música preferida e escrever uma história, e o resultado ficou tão diverso quantas são as diferentes fases dos Beatles. Reunidos, deram num livro que deve ser curtido com o mesmo desprendimento necessário a uma primeira audição do Álbum branco. E que a trilha sonora que o embala possa inspirar uma nova forma de curtir as músicas dos Fab Four.

Henrique Rodrigues nasceu em 1975 no Rio de Janeiro, onde trabalha com programas e projetos de incentivo à leitura. Lançou livros para crianças e jovens e participou de várias antologias. Pela Record, publicou A musa diluída (poesia, 2006) e Como se não houvesse amanhã: 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana (contos, 2010). Acredita que, ao
ouvir Beatles, todos voltam a ser garotos.  

Autores:
Ana Paula Maia
André de Leones
André Moura
André Sant’Anna
Carola Saavedra
Fernando Molica
Felipe Pena
Godofredo de Oliveira Neto
Henrique Rodrigues
Lúcia Bettencourt
Marcia Tiburi
Marcelino Freire
Marcelo Moutinho
Marcio Renato dos Santos
Maurício de Almeida
Nelson Motta
Rafael Rodrigues
Simone Campos
Stella Florence
Zeca Camargo

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Olinda Giant Puppet


            Um conflito napoleônico está abaixo do meu nariz, e um tal de Del Dongo luta, mas a batalha é para seduzir uma senhora. Poucos centímetros e há outro conflito que segue viagem ao fim da noite, onde há tiros, inclusive tiroteiro verbal, e nenhuma esperança.
            Fecho as duas janelas, e sigo por outros trilhos, de um narrador fã de uma mulher, ele deseja ser ela, é homem querendo ser mulher. Também é guerra, confronto com o destino, que fez ele, que queria e quer ser ela.
            Pou, pou, pou, pou, escuto o som, mas não tiro os olhos das linhas de outra narrativa que também é guerra, a busca pela sonoridade sublime, a frase que se quer sem retoques da primeira à página 132.
            Um vizinho de poltrona diz, olhe só, tem uma mulher, ali, na calçada. Meus olhos ainda estão presos a páginas de um contínuo fluxo poético. Outro passageiro fala, ei, acho que atiraram naquela mulher, aquela ali, ó.
            — Há uma mulher na calçada, mas não vejo sangue.
            — Nem levaram a bolsa, diz alguém dentro do ônibus.
            — Mas aquele homem tentou arrancar a bolsa, eu vi, comenta outro passageiro.
            — Que homem?
            — Será que foi encomenda?, pergunto.
            — Por quê?
            O ônibus está parado. Pessoas param para ver aquela mulher, caída, uma outra mulher, em pé, disca em seu telefone celular, talvez para a polícia, para o socorro ou para uma equipe de reportagem.
            Em uma rua perpendicular, um homem, de mais de um metro e noventa centímetros, não, talvez mais de dois metros, segue. Ele corre, os braços estão esticados para baixo, não parece haver flexibilidade nos movimentos.
            — É ele?
            — Olinda Giant Puppet.
            — Olhe só, acho que foi ele.
            — Olinda Giant Puppet?
            As lâmpadas dos postes, dos bares e dos apartamentos estão acesas, são 18h39. O ônibus segue e os passageiros ficam em silêncio. Volto aos livros, dez minutos em um, quase meia hora no outro, meus olhos vão pelas linhas, e não deixo de perguntar o que aconteceu, se a mulher está viva, o que motivou o sujeito a atirar nela. Uma voz diz, ei, se no início da noite está assim, pou, pou, pou, pou, imagine de madrugada.
            Fecho os olhos.
            Meus um metro e oitenta e dois centímetros não descansam na poltrona desse ônibus leito e em nenhum outro veículo em movimento. Uma curva, o som de buzina, uma freada, a redução da velocidade ao passar em um posto de pedágio, e acordo.
            Fecho outra vez os olhos, mas não durmo. Os livros estão dentro de uma bolsa, no chão. Não consigo descansar aqui, e aperto o botão no painel acima do banco onde estou. Uma lâmpada do tamanho de uma moeda de um real se acende. Passo por uma, duas, três, nem lembro quantas páginas e não estou no enredo – li a pensar na cena que aconteceu há cem ou mais quilômetros, do lado de fora do ônibus.
            — Olinda Giant Puppet.
            A viagem vai consumir mais sete horas, e somente amanhã saberei, pela reportagem policial, que não apenas uma, mas duas mulheres foram baleadas por um sujeito que, ao ser preso, portava um revólver calibre trinta e oito usado para os disparos, com quatro munições deflagradas e uma quinta, que falhou.
            — Olinda Giant Puppet.
            Se o crime foi encomendado, por um ex-marido de uma das vítimas, não sei, é palpite. O assunto não terá desdobramento nos jornais. Li, ou sonhei?, que o autor dos quatro tiros, que feriram duas mulheres, era namorado e foi traído por uma delas?
   Olinda Giant Puppet?
            Entrei e saí de cenários inéditos e inesperados, contracenei com personagens nonsense, acasos me abduziram e não esqueci a cena: aquele homem de um metro e noventa centímetros que corria com os braços esticados para baixo, sem flexibilidade, quase sem dobrar pernas após pou, pou, pou, pou, ter disparado quatro tiros que pensei serem rojões de agosto, uma micareta e o siricutico de um bonecão de Olinda.

Ficção publicada na revista Ideias, agosto de 2012. A ilustração é do Marciel Conrado.