terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tulipas Negras Editora



A Tulipas Negras Editora estreia no mercado editorial com uma proposta ousada e original. A partir do slogan “Conto não vende? Ótimo. Só publicamos contos”, a empresa edita 4 livros de 4 autores, de variadas gerações, que atuam em Curitiba. No dia 25 de fevereiro, durante a Quadra Cultural 2012, serão distribuídos – gratuitamente – os livros “Compressa”, de Cristiano Castilho, “934”, de Marcio Renato dos Santos, “Helena”, de Renan Machado e “Pantera”, de Fábio Campana. Cada livro traz 1 conto de 1 autor – e as edições são, cada uma, em formato 7,5 x 21 centímetros; a impressão é em papel reciclato.

A Tulipas Negras Editora surgiu do sonho de uma empresária portuguesa de publicar apenas contos e, ao mesmo tempo, distribuir gratuitamente os livros”, afirma o escritor Marcio Renato dos Santos, de 37 anos, o porta-voz do selo. A proprietária da editora, que pede para não ser identificada, mora no Rio de Janeiro e quer contrariar a lógica do mercado. “Em primeiro lugar, por publicar apenas conto, um gênero considerado pouco comercial. Depois, a empresária, vai promover a circulação das obras sem custo para o público”, comenta Marcio.

O fato de a editora promover o lançamento em Curitiba tem explicação. A empresária conheceu a ficção do escritor curitibano Marcio Renato dos Santos por meio do livro “Minda-Au”, publicado pela editora Record, e se animou. “Há alguns meses, ela me procurou. Em seguida, lancei, em dezembro do ano passado, o meu segundo livro, 'Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul', dentro de uma passagem subterrânea em Curitiba. Foram distribuídos, gratuitamente, mil unidades. A empresária gostou da proposta e optou pela distribuição gratuita dos impressos da Tulipas Negras Editora”, diz Marcio.

A proprietária convidou Marcio Renato dos Santos para ter 1 conto inédito publicado, o “934”, que faz alusão a uma cidade na qual os habitantes apresentam comportamentos inéditos em relação aos padrões estabelecidos desde muito pela espécie. “Em seguida, ela sugeriu que eu escolhesse outros 3 autores para serem publicados. Convidei o Cristiano Castilho, o Renan Machado e o Fábio Campana. Ela leu os contos deles e ficou emocionada. Afinal, o Castilho, o Renan e o Campana representam vozes instigantes, pouco convencionais e surpreendentes”, afirma Marcio.

O projeto gráfico, a logomarca da empresa e a diagramação e arte dos impressos são de autoria do artista visual e designer Marciel Conrado. Já a campanha publicitária, veiculada em redes sociais, foi elaborada pelo designer Luiz Avanço. O historiador Ricardo Freire revisou os conteúdos. “Toda a equipe que participa do projeto vive em Curitiba. A editora, por hora, não tem sede. Mas há intenção de que isso (ter sede) aconteça. O importante é que todos foram remunerados, dos autores ao pessoal do design”, informa Marcio.

Tirar as rodinhas da bicicleta

Uma das metas da Tulipas Negras Editora é revelar novas vozes e facetas pouco conhecidas de autores que já têm livros publicados. “Veja o caso do Fábio Campana. Ele é mais conhecido, no Paraná, por causa de sua atuação como jornalista. Mas o Campana é dono de uma voz ficcional raríssima. ‘Pantera’, o conto dele publicado pelo selo, vai mostrar toda força e inventividade do prosador. Poucas vezes alguém escreveu sobre desejo, perda de ilusões e sensualidade como o Campana neste conto”, comenta Marcio.

Renan Machado, 18 anos, diz estar honrado com a oportunidade de ter a sua ficção publicada. “Sinto orgulho pelo convite. Sou novo no meio; estrear ao lado do Marcio e do Fábio, ficcionistas publicados, e do Cristiano, um grande jornalista, é, acima de qualquer coisa, uma grande honra”, diz. Renan, que escreve todos os dias, gosta de romance, mas prefere o gênero conto. “Gosto bastante do Luiz Vilela”, confessa.

Para Cristiano Castilho, editor do GAZ+, suplemento da Gazeta do Povo, essa estreia é animadora e reconfortante. “Me belisca? Este é um degrau na minha vida de palavras, de leitura e de escrita. Há tempos entendo as letras como minha principal ferramenta, seja para ganhar o dinheiro que compra o pão de cada dia, seja para eternizar pensamentos e ideias ou exorcizar fantasminhas. Essa estreia é o início de um novo ciclo. É como tirar as rodinhas da bicicleta”, diz Castilho, conhecido pelo seu estilo ousado e inovador de fazer jornalismo.

Castilho fará aniversário dia 25 de fevereiro, data de lançamento de seu primeiro livro. Ele diz não se tratar de coincidência. “Não, nada é por acaso nesse mundo. Também assopram velinhas George Harrison e Regina Casé. É bom lembrar”, afirma Castilho, que ainda completa que “fico contente em fazer parte do projeto, de estar no meio de pessoas talentosas e de escritores já publicados, como é o caso de Marcio Renato dos Santos e seu 'Minda-Au'.”

O jornalista da Gazeta do Povo, agora também autor, conta como é o impacto de ver a sua ficção publicada em papel. “Tive uma sensação estranha ao revisar no papel o que escrevi. Porque, quando lia na tela do computador, sempre mudava uma coisa ou outra. Então, lendo as palavras pretas na folha branca, percebi que o que tinha escrito não era mais meu. Ou não só meu. O conto ‘Compressa’ já pertencia a algum outro universo, provavelmente o dos livros. E é isso, essa sensação que tem algo de sublime e de rara, que nunca, jamais, será substituída”, afirma Castilho.

Esse lançamento será uma festa, durante a Quadra Cultural 2012, que terá shows incríveis, entre os quais, do sambista Germano Mathias. Gostaríamos de agradecer ao Arlindo Ventura, e equipe, pela oportunidade de participar dessa celebração da arte a céu aberto. E, ainda vale mencionar que, em tempos nos quais todos anunciam a internet como 'o' suporte, é uma alegria imensa ter obras publicadas em papel”, finaliza Marcio Renato dos Santos.

Serviço: Lançamento da Tulipas Negras Editora, com a publicação, e distribuição gratuita, dos livros “Compressa”, de Cristiano Castilho, “934”, de Marcio Renato dos Santos, “Helena”, de Renan Machado e “Pantera”, de Fábio Campana. Durante a Quadra Cultural 2012, na Rua Paula Gomes, em Curitiba. Dia 25 de fevereiro, das 11 horas às 22 horas.

Só faltam 11 dias

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Nada exemplares

Olho para frente, azul. Para cima, também. Fecho os olhos. Não sinto vontade de fazer nada, mas bebo um gole de água de coco. Há uma ilha no horizonte, logo ali, em meio ao mar, no litoral do Paraná.

Estou aqui, na areia, sentado em uma cadeira, embaixo de um guarda-sol, e gostaria de esquecer que existe facebook, comentários, postagens, botão para curtir e fotos com citações.

Cinco ml de protetor solar nos braços, nas pernas e nos pés, e outros ml para o rosto. Um gole de água de coco, outro de refrigerante ou cerveja. Fecho os olhos. Ainda não esqueci o facebook.

Antes da internet, e do facebook, se popularizar, trabalhei em redações de jornal. Há quanto tempo? Não lembro. Mas, agora, ao beber água de coco na beira do mar, me dou conta de que atuei por um breve período como repórter policial.  

A ronda, como é chamada a rotina de perambular por delegacias em busca de notícias, evidenciou a minha incapacidade jornalística. Os fatos estavam lá, nos boletins de ocorrência. O que não havia era um repórter, e sim eu, o gauche no local inapropriado.

Nas manhãs dos sábados, a primeira tarefa era seguir até o Instituto Médico Legal e contar, e analisar, a quantidade de crimes registrados da noite anterior até aquele momento. Eu pedia a lista de atestados de óbito e anotava, em um bloco de papel, os dez homicídios, os quinze latrocínios e os dezessete acidentes fatais do trânsito.

— Ei, aqui não tem morto pro teu jornal.

Quem enunciou a frase foi uma mulher com no mínimo duas décadas de vida a mais do que eu. Ela disse, para mim, “Ei, aqui não tem morto pro teu jornal”, na primeira ou segunda manhã de sábado em que passei a fazer a ronda no IML. 
   
Aquela mulher, uma repórter veterana, acendeu e fumou um cigarro. Perguntou meu nome, quis saber se era a minha primeira vez ali. Policiais chegaram, a cumprimentaram e começaram a conversar com ela. Eles se afastaram de onde eu estava, olhavam para mim, trocavam palavras, gesticulando, e riam, a gargalhar.

— O teu jornal quer morto ilustre, e aqui só tem treta. Menino, hoje você vai ficar sem notícia.

Aqui, dentro do cartão-postal, é mais fácil, apesar dos 30ºC, a brisa refresca, o mar está a poucos passos, bebo mais um gole de água de coco, a cerveja acabou? E o jornalismo? Da editoria policial migrei para o caderno de agricultura, passei uma temporada no geral, um tempo no esporte, então pendurei as chuteiras, carpi o pé, deu pra mim.

O número de suicídios, sobretudo de mulheres, era igual ou superior ao de assassinatos e outros crimes, mas os jornais não divulgavam essas informações. Por quê? Uns diziam que notícias a respeito de suicídios poderiam estimular o ato, outros argumentavam que uma lei proibia a divulgação.

Bebo mais um gole de cerveja, outro de água de coco e, dentro da sacola, vejo um livro de contos do Enrique Vila-Matas. Suicídios exemplares. Foi o título da obra que me fez lembrar o meu fracasso no jornalismo e o universo da reportagem policial?      

Por que lembrei dessas coisas? Eu só queria relaxar, esquecer o facebook e o mundo. Bebo mais um gole de água de coco, outro de cerveja e não me incomodo com os efeitos desses 30ºC.

Crônica publicada na edição 124 da revista Ideias, da Travessa dos Editores, fevereiro de 2012.