sábado, 28 de setembro de 2013

Em frente à casa do Sossélla

Em Paranavaí, em frente à casa onde Sérgio Rubens Sossélla (1942-2003) morou, leu e escreveu poesia durante 17 anos. Foto do Amauri Martineli.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Vontade ser Newton Sampaio




No ano 2000 eu estava em busca de um assunto. As resenhas que escrevia para jornal e revista não me satisfaziam mais, pela maneira limitada e repetitiva de olhar e fazer os enunciados. O meu discurso jornalístico de então pedia oxigênio, outros repertórios e, necessariamente, uma imersão dentro da universidade.

Foi nas páginas da revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan entre 1946 a 1948, que um tema se insinuou. Na edição 11, o texto “Notícia de Newton Sampaio” começa com uma frase de impacto: “O maior contista do Paraná foi um moço chamado Newton Sampaio.”

A afirmação foi feita por Dalton Trevisan.

Quem teria sido Newton Sampaio?

Naquele contexto, eu trabalhava na Imprensa Oficial do Paraná, na gestão Miguel Sanches Neto. Após participar do projeto de reedição fac-similar da revista Joaquim, fui avisado de que faríamos uma edição dos contos do Newton Sampaio (1913-1938).

Era 2000 ou 2001?

Não tenho certeza se fui eu, o João Arthur Pugsley Grahl ou o Pedro Carrano — colegas de trabalho — quem digitou os contos do autor elogiado por Dalton Trevisan.

Lembro, sim, de que ao ler a ficção de Newton Sampaio surgiu uma ideia: esse pode ser o meu assunto.

Diálogo com Dalton Trevisan

Em 2002 fiz a prova de admissão para o mestrado em Estudos Literários na Universidade Federal do Paraná (UFPR), e fui aprovado. O meu projeto inicial era aproximar a obra de Newton Sampaio e a do Dalton Trevisan. Naquele momento, tinha convicção de que os dois autores dialogavam literariamente, só não sabia como apontar os pontos de contato entre a ficção dos contistas.

2003 seguiu, cursei disciplinas no período da manhã, enquanto à tarde trabalhava na Travessa dos Editores, do Fábio Campana — as noites e madrugadas eram reservadas para ler contos de Sampaio e de Trevisan, romances, poemas, obras teóricas e, também, para escrever os meus próprios contos.

Já estava em 2004 e não conseguia, a partir da metodologia universitária, dizer de que maneira a ficção de Trevisan conversava com a de Sampaio. Se fosse para fazer uma resenha do jeito que eu fazia, talvez soltasse seis, sete afirmações, e pronto. Poderia, por exemplo, afirmar que a prosa enxuta, direta e impactante de Sampaio ecoava nos primeiros contos de Trevisan.

Mas, para o projeto de mestrado, faltava muito: leitura, argumentos e experiência para pensar e escrever academicamente.

2004 terminava e o prazo para entregar o trabalho também.

Eu não iria desistir, apesar de não ter, ainda, uma hipótese.

Intelectuais na década de 1930

Mais do que ler e reler, de modo contínuo, os contos de Newton Sampaio, conversar com o professor Luís Bueno, meu orientador, abriu horizontes. Naquele período, ele era diretor da Editora da UFPR e, algumas vezes, segui com ele, dentro do carro dele, da reitoria — onde aconteciam as aulas, no centro de Curitiba — até a sede da editora, no bairro Jardim das Américas.

O bate-papo era fluente em meio ao trânsito e, durante um daqueles trajetos, entre um desvio e outro, Bueno chamou atenção para um fato. Na década de 1930, período da literatura brasileira que ele estudou em profundidade, havia representação literária de personagens intelectuais, por exemplo, nos romances O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, e Angústia, de Graciliano Ramos.

Foi uma dica?

Foi sim.

Imediatamente, me dei conta de que Newton Sampaio também fez representação de intelectuais nos contos “O cântico” e “Quinze minutos”, do livro Irmandade (1938). Naqueles coincidentes quinze minutos, da reitoria até a Editora da UFPR, consegui elaborar a pergunta que conduziria a minha dissertação: de que maneira o intelectual aparece na obra literária de Newton Sampaio?

Quinze minutos

A partir de um repertório teórico, com obras de João Luiz Lafetá, Mario de Andrade, Sergio Miceli e — principalmente — a tese de doutorado Uma história do romance brasileiro de 30, do próprio Luís Bueno, foi possível compreender nuances do contexto no qual Newton Sampaio esteve inserido. Os anos 1930 do século XX foram caracterizados, entre tantas questões, pela presença de personagens fracassados em obras literárias. E, como Bueno argumenta em seu estudo defendido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o fracasso não era sinônimo de desistência, mas avaliação negativa do tempo presente — vivia-se o entreguerras e parecia difícil encontrar no (então) aqui e agora terreno para fundar um projeto para solucionar qualquer coisa.

A utopia e o otimismo, por exemplo, estavam, não extintos, mas adiados.

As leituras iluminaram a década de 1930 e as relações do intelectual brasileiro com o poder, ainda mais naquele período, em que os escritores, em sua maioria, sobreviviam atuando no serviço público.

Em meio a reflexões deflagradas pelo estudo sistemático, “descobri” o conto “Quinze minutos”.

Se naquele momento do mestrado eu ainda insistisse em fazer resenhas como fazia, poderia escrever que “Quinze minutos” é um conto que prova o poder de síntese do autor, que resolveu uma problematização complexa em apenas duas páginas.

O narrador, em primeira pessoa, diz não saber mais entrar em igrejas e, se não entra mais, é sinal de que já entrou. Não entrar mais em igrejas significa assumir uma posição — naqueles anos, um intelectual tinha, obrigatoriamente, que assumir a sua postura. Havia dois caminhos: direita e esquerda. Direita era o equivalente a estar ao lado de Getúlio Vargas e um dos acessos para esse “lugar” era pela porta da igreja — os católicos, inegavelmente, estavam com o caudilho. A outra opção era o lado esquerdo, o socialismo, o comunismo.

Além de não querer mais entrar em igrejas, o protagonista de “Quinze minutos” é “um homem triste, desesperado, desesperadíssimo” que precisa trocar as solas gastas de seu sapato. A simbologia é certeira. Sapatos são os invólucros dos pés, e são os pés que levam as pessoas pelos caminhos deste mundo. Os novos rumos do personagem, um intelectual que percebe muitos detalhes ao seu redor, serão outros, novos, porque, como ele repete, “desgraçadamente, eu não sei mais entrar em igrejas.”

O texto de Sampaio, publicado na íntegra nesta edição do Cândido, traz outras sutilezas, por exemplo, a rua como metáfora para vida. Vale conferir “Quinze minutos”, que tem um desfecho arrebatador: “A rua é comprida, vai dar no fundo de uma igreja muito velha, mas isso não tem importância porque eu não sei mais entrar em igrejas. Nem pela porta gloriosa, nem pela porta dos fundos...”.


Herói modernista

Apresentei a dissertação Brejos das almas: o intelectual na ficção de Newton Sampaio dia 30 de agosto de 2005, com a participação dos professores Luiz Roncari (USP) e Patrícia Cardoso (UFPR) na banca, fui aprovado e — assim — obtive o título de Mestre em Estudos Literários.

O trabalho final, revisto hoje, e mesmo quando foi escrito, ficou aquém. Talvez em um projeto de doutorado eu pudesse realizar uma pesquisa com mais tempo e maturidade para, quem sabe, aproximar as obras de Dalton Trevisan e Newton Sampaio — o que não foi possível fazer no mestrado.

O que permanece da experiência acadêmica, sem dúvida, é a admiração por Newton Sampaio.

O crítico literário Wilson Martins (1921-2010) me contou, durante uma das muitas conversas que tivemos, que quando ele era jovem, Newton Sampaio representava uma espécie de herói cultural. “O que nele admirávamos, antes de mais nada, era a irreverência com relação aos nomes consagrados. O estilo nervoso e ágil, a inteligência aguda e a integração nas correntes vivas do pensamento”, escreveu Martins sobre a respeito de Sampaio, que o crítico definiu como a primeira voz modernista no, até então, ambiente literariamente anacrônico do Paraná.

O texto “Um inédito de Newton Sampaio”, publicado na edição 12 da revista Joaquim, mostra — como observou Martins — que o contista paranaense tinha mesmo estilo nervoso e ágil e inteligência aguda. Sampaio apresenta um diálogo, possivelmente imaginário, que teve com um interlocutor no Rio de Janeiro após receber a notícia da fundação da Academia Paranaense de Letras. Mais do que meramente desconstruir a instituição e os seus integrantes, ele é preciso ao decifrar a mentalidade dos intelectuais provincianos: “No Paraná, ninguém admite a menor crítica. Se não se diz do confrade que ele é maior humorista do sul do Brasil, o mais inspirado poeta do Universo, o confrade imediatamente corta relações conosco... Além disso, tenho sobre a mesa, à minha espera, ainda fechado, o último livro de Chesterton.”

O que Sampaio escreveu, nos anos 1930, a respeito do meio do meio literário é relevante e atual. Vale para Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou São Paulo, uma das cidades mais provincianas do país: se o escritor não elogia o colega, de preferência por escrito e publicado em jornal de ampla circulação, o relacionamento pode estremecer. E mais: por que insistir, apenas, na autocelebração se, em nossa mesa — como sugeriu o contista paranaense — há obras de autores de outras cidades, países e continentes? Ler e badalar apenas os amigos da aldeia pode não ser a postura mais inteligente, alertou Sampaio — e o recado teve eco em Dalton Trevisan e em outras vozes das gerações seguintes.

Já não faço mais resenhas há alguns anos e, há pouco, lembro que num conto de Sampaio tem a frase “vontade ser baitaca” — sem o “de”. Sinto, e não há como negar, vontade ser Newton Sampaio. Na realidade, surge mesmo uma vontade ler (reler) Newton Sampaio. Todo dia. Continuamente.

Depoimento publicado originalmente na edição de setembro de 2013 do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná (BPP) . Ilustrações de Osvalter Urbinati

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Fantasmas


Estou dentro da van e o motorista faz mais uma ultrapassagem na pista que vai e vem e o carro que vinha em sentido contrário teve de sair para o acostamento e, assim, evitar a colisão. Já é a sexta, ou a sétima?, situação tensa que acontece desde que saímos da cidade.

Quando pedi a porção de paca, desconfiei que o roteiro estava com problemas. O garçom japonês que trazia as cervejas não tinha olhos. Eu bebia, foram seis garrafas de 600 ml, e não me sentia bêbado. Paguei a conta, saí daquele bar e voltei para o quarto do hotel. Ao deitar e apagar a luz, suspeitei que mais alguém também dormia nas duas camas vagas no quarto onde eu estava instalado.

Chove e tem neblina. A van deixou a cidade de madrugada, já passou a hora de almoçar e o motorista ainda não parou. Ele acelera e realiza manobras que podem provocar acidentes. Um dos passageiros pediu para ele seguir devagar. Outros três rezam, de mãos dadas e em voz alta. Fechos os olhos, tento dormir, mas não consigo. Seja por causa das freadas, como essa, as anteriores e também por que a sensação de que não vamos sair vivos desta viagem aumenta a cada quilômetro.

Sou engenheiro de som e fui contratado pela prefeitura para resolver o problema de acústica do teatro municipal, que seria inaugurado em uma semana. Solicitei a presença da orquestra sinfônica, de uma banda de rock e de um compositor. As apresentações foram realizadas individualmente. No quarto dia, encontrei uma solução. Fui elogiado por autoridades, me chamaram de gênio, apesar de que esses trinta anos de trabalho contínuo me fizeram, não genial, mas experiente.

O voo foi cancelado, não havia previsão para decolagem e a companhia aérea contratou o serviço de uma transportadora terrestre para conduzir os passageiros que tinham compromissos ou pressa para chegar a seus destinos. Eu poderia esperar, havia a opção de permanecer em um hotel até que um outro voo fosse autorizado. Mas escutei uma voz no sistema de som do aeroporto anunciando que os passageiros do voo cancelado deveriam se encaminhar ao hall, e fui até lá. Em minutos, uma van sairia dali, dentro da qual entrei, conduzida por um sujeito que parecia determinado a assassinar todos os que estivessem no veículo.

Durante o jantar que antecedeu a partida, o sujeito que estava sentado ao meu lado na mesa disse que já contava histórias para o seu cachorro quando era criança. Antes de chegar ao restaurante, eu caminhava por uma rua, escutei uma conversa na qual uma das vozes disse que traição de amigo dói mais do que de mulher. O discurso das pessoas daquela cidade parecia ser elaborado anteriormente, talvez por um roteirista. As frases não ficavam pela metade, tudo tinha começo, meio e fim.

Me convidaram para permanecer mais uns dias, mas eu disse que tinha compromisso. Alguém falou que o avião poderia não decolar e, de fato, fatores climáticos impediram a decolagem. Sigo dentro dessa van, mas gostaria de pedir para o motorista parar para eu descer e esperar, na beira da estrada, pelo fim da neblina e da chuva, vivo.

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Ficção publicada na edição de setembro de 2013 da revista Ideias (Travessa dos Editores).