Não



O Eleotério, o Messias, o Marcos e a Maria Helena, os artistas na arte de vender livros, trabalham em sebos, sabia? Agora, editoras fazem parceria com os sebos curitibanos, onde é possível comprar livro novo por preço de usado.
Mano, algo mudou em Curitiba, apesar de a cidade manter sinais daquele local onde você nasceu, viveu e permaneceu em estado de combate por décadas.
Na realidade, o mundo se modificou em dez anos. Com a internet, surgiram espaços virtuais, o Facebook. Ali, qualquer um escreve e publica o que quiser. Palavras, imagens e músicas. É um palco com público 24 horas todo dia. Hoje, ninguém mais é invisível, nem em Curitiba.
Mestre, evidentemente que o ser humano não se modificou, na essência, durante essa década. Apesar de vozes, inclusive e sobretudo da província, defenderem uma nova onda paz e amor. Insistem, até por meio de videoclips, em projetos coletivos. Sugerem limar, talvez superar as diferenças. [Quem será o beneficiado?]. Se é por má-fé ou ignorância, ou pela dupla errância, não sei, mas esquecem que o homem é bicho, e a lei é a guerra.
– Ei, Marcio, o seu QI desceu pro rabo?
Estávamos em uma mesa, durante uma refeição, na casa do Fábio Campana. Todos riram. Eu também. Você decifrava tudo. Eu mudo em meio a muitos. Isso poucos minutos após conversarmos por horas, você, o Campana e eu.
Amigo, você abriu todas as portas. Tenho a impressão de que até hoje portas se abrem, pra mim, por causa de você. Desci de sua Ipanema para pisar na Travessa dos Editores, e sigo até hoje por lá, mesmo e apesar de outras ruas, alamedas e avenidas.
Com o Bueno foi possível conviver por sete anos. Daí, ele também pegou o bilhete.
O Professor Aroldo tem o coração maior que o mundo. E o Campana? O que quase todos desconhecem, o que muitos tentam desconstruir, o que quase ninguém reconhece, admite e aplaude o talento.
Mano, você não iria acreditar, acho que não, talvez sim, mas o fato é que o Fábio até publicou um livrinho meu, com título impronunciável. Falo isso não pra divulgar a obra, mas pra lembrar da generosidade do Campana.
Turco, você sabia que iria ficar, não sabia?
Faz dez anos.
Já?, perguntam.
Já.
Os seus livros esgotaram. Com autógrafo, vale até R$ 500. Todo dia mais gente lê e relê a sua ficção. A Daysi Bregantini, o Arthur Tertuliano, o Joca Terron, o Franco Fuchs, o Marçal Aquino, a Izabel Campana e o Marcelino Freire. Que time. Todos leitores de Snege.
Mestre, você fez tudo, mas tudo aparentemente errado. E deu tudo certo.
Publicou por conta ou pela Travessa dos Editores. Recusou convites para ser editado no Rio e em São Paulo. Não fez vida literária. Escolheu a capa que quis, a tipologia desejada e soltou cada livro quando dava.
Jamil, caro Jamil Snege, tem Casa de Leitura com o seu nome em Curitiba.
Mestre, você se tornou sinônimo de excelência literária.
Você deixou, principalmente, um outro legado. De não dançar a música que colocam pra movimentar nossas cadeiras. De dar uma banana, um não, quando todos esperam aquele sim. Se fazer, por si mesmo, e – principalmente – se desfazer.
Todo dia.
Até.


Publicado na página 67 da revista Ideias (Travessa dos Editores), edição de maio de 2013.

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