Postagens

Tudo pode dar certo

Durante anos nenhum avião decolou daquela cidade. Cacique, vocalista de banda indie, DJ, inventor de dificuldade que vende facilidade, pajé e poeta, muitos tentaram, mas ninguém encontrou explicação. Naquele ciclo inicial, de mais de cem anos, acreditava-se que havia redoma, campo magnético ou maldição que impedia voos para fora dos limites do povoado a mil metros acima do nível do mar. Na pequena vila só havia espaço para um cacique, um vocalista de banda indie, um DJ, um inventor de dificuldade que vende facilidade, um pajé e um poeta. O direito de exercer cada atividade era hereditário e o reconhecimento dos personagens não ultrapassava os limites do vilarejo, onde a vida vingou, apesar das chuvas, da eventual neve e das baixas temperaturas. Os acessos à vila que se tornou cidade estavam – em tese – fechados, e os forasteiros não eram recebidos com espumante, canapés nem sorriso no rosto. Ao contrário, dentes cerrados, cenhos franzidos e outras manifestações que poderiam ser lid...

E la nave va

Imagem
– Vamos marcar um encontro pra gente lembrar daquele tempo? – isso é uma voz ao telefone. Estou, agora, na casa de meus avós maternos, tenho 14 anos, o corredor é extenso, da cozinha até a sala há quatro ou cinco portas – são quatro ou cinco quartos. A lâmpada, no teto do corredor, parece inalcançável. Atravessar o corredor leva algum tempo, muitos passos. Mas, quando chego na cozinha, e atravesso a porta, há um quintal com árvores, grama verde, um paiol, um muro e vejo o sol se pôr no fim da tarde. Tudo é possível, eu com 14 anos e os ponteiros do relógio da parede se movem lentamente. – Vamos lá, toda a turma vai estar de novo, será int... – é uma outra voz, desta vez, na minha frente. Caminho, passo seguido de passo, tenho espinhas e sorriso no rosto, 16 anos, e a Catedral de Brasília é infinita por dentro; se seu dissesse que aqui cabe uma multidão, não seria exagero. O sol desta manhã atravessa os vidros, e a luminosidade me faz sorrir ainda mais: a minha oração, aqui, é si...

Na ponta dos dedos

Imagem
Estamos no consultório médico ou em uma poltrona de avião. Ainda há tempo. O médico se atrasou, o voo decolará em breve, e temos um jornal ou uma revista nas mãos. Já lemos outros jornais e outras revistas, mas seguimos com esses papéis diante de nossos olhos. O time mais cotado da cidade perdeu o jogo. O bairro mais glamuroso do balneário alagou com as chuvas. Lemos as notícias, nem todas até o fim, e nos perdemos, entre as linhas, nas fotos, nossos olhares são seduzidos pelos anúncios e, principalmente, pelas nossas unhas. Sim. Eu, tu, ela, nós, vós eles, todos passamos a maior parte do tempo olhando, não para estrelas, mas para as nossas unhas. Ao caminhar, na esteira da academia, ao redor do lago do parque, da cama até a cozinha, quantas vezes uma pessoa olha para as mãos, para as unhas? Pesquisa recente, realizada por um instituto de reputação inquestionável, garante que, em um minuto, ou seja, durante 60 segundos, uma pessoa pode olhar pelo menos seis vezes para as unhas. ...

Minda-Au é um sujeito leitor

Imagem
Concedi depoimento ao projeto Sujeitos Leitores, iniciativa do Colégio Nossa Senhora Medianeira. Confira acima.

O legado tropicalista de Wilson Bueno

Imagem
Wilson Bueno  tropicalizou Curitiba, o Paraná, o Brasil. Mais do que apenas um escritor, e ele foi – e é – um dos nomes de destaque da ficção contemporânea, esse sujeito irrequieto soube, como poucos, dialogar com autores e culturas variadas e ainda desenvolver uma linguagem radical. “O que me consola é que não guardo esperanças com relação a tudo o que vai aqui registrado. Já o disse em algum logar, e o digo de novo, e senão o disse, digo-o pela primeira vez – assim que me enfade o passatempo chinfrim, pico isto tudo em pedacinhos e o fragmento do fragmento jamais dirá o que foram as partes e muito menos ainda o todo.” O trecho, transcrito no parágrafo acima, está na página 21 de Amar-te a ti nem sei se com carícias (Planeta, 2004), obra na qual Bueno recria a dicção de Machado de Assis. O escritor paranaense conhecia a tradição. Poderia, como demonstrou em diversas oportunidades, reproduzir outras vozes marcantes do universo literário. De Machado a Guimarães Rosa, de Lew...

Todas as cores de Minda-Au

Imagem
O escritor Guido Viaro, que tem o mesmo nome de seu avô pintor (1897-1971, o autor da linda imagem de post), escreveu uma resenha, em feitio de texto de e-mail, sobre Minda-Au (Record). O que o Guido percebeu, sentiu e disse sobre o meu livro é de uma beleza que precisa ser compartilhada com todos vocês. "Oi Marcio, li teu livro. Aqui vão algumas apreciações. Acho que os sete contos dialogam, e o livro chega a parecer um romance com sutis fios que os unem . Essa comunicação tem uma base comum, são os meios tons , os momentos de espera, a acidez estomacal, o tédio, o céu nublado ... os tijolos que constróem o núcleo vivo da existência. Por isso o livro fala fundo . Sem apelar para clichês (fáceis quando confunde-se realidade com a realidade recriada), o livro sustenta a dúvida hamletiana do ser ou não ser. Vale à pena? Não será a vida uma sucessão de instantes tediosos sem qualquer sentido, e que sempre acaba da mesma forma? Ouvi essas perguntas enquanto lia . E não ouvi...

Minda-Au no Indústria & Comércio

A escritora Isabel Furini escreveu um texto sobre Minda-Au  (Record), e o conteúdo foi publicado no jornal Indústria & Comércio , de Curitiba, confira: Conheci Marcio Renato em 2006, quando ministrou uma palestra para a turma da Oficina de criação literária, que oriento no Solar do Rosário. Na época o Marcio havia escrito mais de 600 contos, porém ainda não queria publicá-los. Disse que esperaria até sentir que eles estivessem completamente aprimorados. Essa atitude é muito difícil de encontrar, pois nós escritores somos, geralmente, pessoas muito ansiosas e ainda com o agravante de termos compulsão por publicar. Nesse sentido, Marcio Renato dos Santos revelou uma paciência zen . Atualmente, ele já escreveu mais de 700 contos e decidiu publicar seu primeiro livro. Escolheu 7 trabalhos de seu arsenal, ou seja, 1% dos contos que escreveu, e dessa maneira nasceu a obra Minda-Au (Márcio Renato dos Santos, Ed. Record, 2010, 80 páginas). O nome Minda-Au evoca um fato de s...