sábado, 27 de novembro de 2021

À sombra dos viadutos em flor

 

Hoje tem À sombra dos viadutos em flor (SESI-SP Editora, 2018), do Cadão Volpato:

O ritmo é o de um (bom) romance, daqueles que não te deixam interromper a leitura. E por materializar informações e nuances sobre a passagem do tempo, te faz ver, sem necessariamente repetir, neste caso, a desgastada frase de que se trata de um texto cinematográfico, apesar de tanto cinema dar espessura a esta narrativa.

Cadão Volpato edita fragmentos de seu percurso, com uma abertura (a palavra é essa mesma, não tem outra) felliniana (ou seria volpatiana?) em que o pai (recorrente no imaginário do autor) aparece (de fato, fellinianamente) em uma chaminé.

O que a leitora e o leitor vão encontrar nas páginas de À sombra dos viadutos em flor são caminhos que levaram Cadão a materializar o Fellini, uma das mais brasileiras entre as bandas brasileiras, apesar das marcantes referências europeias, entre as quais, Gang of Four e The Stranglers.

Fellini também era (e continua sendo), mesmo com o encerramento das atividades e eventuais retornos, uma banda literária (se é que é possível dizer isso) – o texto das canções talvez anunciasse o futuro e atual escritor Cadão Volpato.

Fato é que as letras, além de melodias, apresentam imagens e construções peculiares e elegantes, basta conferir fragmentos, por exemplo, de "Rock europeu" (E só dentro de um hospício/ Se vive na América/ Viver num hospício é melhor/ Que num pardieiro") ou "Rio-Bahia" (Só um primo em frente ao convento/ Do Rio de Janeiro à Bahia/ Eu barbudo e seus braços abertos/ E morros e morros e morros").

À sombra dos viadutos em flor tem como cenário, principalmente, um apartamento que Cadão dividiu com amigos, ensaios nos sábados em que nunca chovia, domingos de levar a roupa para a sua mãe lavar, e flashes dos corredores da revista Veja, onde ele atuou e diz ter visto, por exemplo, o general Figueiredo ("Tancredo Never") sentar (despachando?) na cadeira do diretor de redação.

Parte significativa do texto se dá a partir da relação do autor com uma namorada, não identificada, com quem ele amadurece emocionalmente, uma companheira de viagem na solidão de São Paulo e seus viadutos, sonhos, naufrágios e sorrisos.