sábado, 13 de agosto de 2022

Quem costura quando Mirna costura

 

Hoje tem Quem costura quando Mirna costura (Arte & Letra, 2021), do Fabiano Vianna:
O Fabiano Vianna identifica o DNA da arte curitibana nos legados de Poty e Dalton Trevisan – apesar de ele também apreciar, entre outras potências da cultura local, as produções do Manoel Carlos Karam e do Valêncio Xavier.
O Fabiano compreende que o imaginário de Curitiba foi estruturado com e a partir dos desenhos (e da linguagem) do Poty e dos contos (e da linguagem) do Dalton.
E é possível observar o impacto das produção do Dalton e do Poty (e também do genial Valêncio) em Quem costura quando Mirna costura, livro escrito e publicado na capital paranaense.
Trevisan e Poty são, no entanto, pontos de partida para Fabiano inventar narrativas com palavras e imagens – o artista escreve e desenha (as ilustrações da capa e do miolo).
Quem costura quando Mirna costura, enfim, apresenta um universo particular, em que há presença do sobrenatural.
Em “Ping-Pong (para Carlos Machado)”, uma personagem pratica tênis de mesa com uma interlocutora invisível: “Ninguém segura a outra raquete”.
Uma mulher deixa flores no túmulo de um jovem antes de se encontrar com o amante, em “Flores e Brumas” – posteriormente ela encontrará no café não o homem com quem se relaciona, como está assinalado na narrativa, durante “algumas névoas”, mas o jovem da fotografia fixada na parede do túmulo do cemitério onde ela deposita flores.
Se no título da obra tivesse um ponto de interrogação, a possível resposta da questão Quem costura quando Mirna costura? estaria na pergunta: é o mistério, motor da proposta ficcional deste artista.
Importante também é atentar para intertextualidades – o desfecho de “Caça-Palavras” acena para Sahrãzãd e aquela obra incontornável: 
“[...] este livro já foi escrito por uma mulher do oriente [...] Iniciado há mil e uma noites”.
Já o último conto, “Ana e o espelho”, é o mais interessante não apenas por ser o mais extenso – são 30 páginas enquanto outros ocupam uma única página (e funcionam bem). É que a narrativa traz a síntese da literatura do autor, e recria um universo curitibano com dirigível, aves, Balas Zequinha, personagem-palíndromo, engenho literário e Potypos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Alta noite

 

Literal e simbolicamente, a noite é um dos temas do legado poético e literário do Fábio Campana (1947-2021).

No poema "E coisas extraordinárias aconteciam", do livro O ventre, o vaso, o claustro: canções de ex-menino para amor sem nome (2017), a voz poética transita pelo passado de um personagem adulto:

"O moço encontrou o homem/ e mostrou-lhe o menino em sua noite/ de olhos cerrados, a pedir os sóis/ que lhe prometeram."

No desfecho do poema, dois versos merecem atenção:

"Pediu ouro, poder e glória./ E exilou-se na escuridão."

O tema, recorrente, seria retomado em As coisas simples, de 2019, o último livro que o Fábio publicou.

Isso, e outras memórias, esteve em minha participação no bate-papo sobre a poesia e a prosa do Fábio Campana com a Isabela França, o Mario Helio e o público na Biblioteca Pública do Paraná, em 10 de agosto de 2022.

Foto da Roberta Hoshiguti.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

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Viva a democracia!

sábado, 6 de agosto de 2022

Cantos temporais

 

Hoje tem Cantos temporais (OIA editora, 2022), do Fabio Santiago:

O poeta alagoano radicado em Curitiba evita seguir trilhas óbvias, e ele conhece as referências da poesia brasileira, universal.

Distraídos ou sem repertório, sensibilidade e trena para eventualmente enquadrar a poesia de Fabio Santiago, um de nós poderia chutar dizendo que o poeta meramente flerta com o nonsense, e há fragmentos em seus poemas que talvez justifiquem a afirmação:

“Lobos cortados não uivam/ Silenciam/ Lobas cortadas/ escurecem a compulsão”.

Versos avulsos de outros poemas do autor podem confirmar a pensata:

“Dentro do poema existe uma glândula”.

Ou ainda:

“Versos sombrios rasgam a disforia”.

E até:

“Fava em papel luminoso”.

Mas ao ler e reler com atenção a poesia do Fabio Santiago, o que se apresenta é a linguagem de um autor que (conhece a tradição e) experimenta melodias e construções incomuns de sentido – “cidade esmeralda”, reinvenção de Curitiba, é exemplo da potência artística do Fabio Santiago (segue o texto poético na íntegra):

“Estendido vértice solitário do poema/ Corrente elétrica intensa do relâmpago// Espirais em fluxos/ Oxidam a alma/ Segura o pé d’água/ Lampeja// Perambula nuvens/ Vistas vendavais/ Cabeça alçada/ Percorre temporalidades// Calçadão Petit-Pavê/ Desenhado de pinhão e araucária/ Guardei seu rosto// Cúpulas roxas cobriam quiosques/ Sabores pintados da infância// Abre e fecha boca maldita/ Inflama as rugas/ Arde memórias curvadas/ Passeia por xícaras de café// Desce o largo pedra bacia de ferro/ 11 horas relógio florido/ Feirinha cheia/ Águas correntes/ Submarino amarelo/ Baba espuma Steinhaeger// Trovões carregam os ouvidos/ Ecos pensamentos/ Palidez de instante// A valsa triste ressoa no centro/ Juventude balança copas verdes/ Calçadão da cidade/ Não há nada igual// Curitiba parece gear/ Pintor de tuas tempestades/ Cantou flores ruas/ Tem cheiro de lembrança/ Rua XV nunca desbota// Silencio memórias/ Prato de sentimentalidades temporais/ Banhado em brilho singular/ Cidade esmeralda”.